Capítulo Oitenta: Metamorfose Cadavérica
Ao meu redor, o burburinho era incessante, tão alto que não consegui mais dormir. Acordei, abri os olhos e percebi que estava deitado no quarto de hóspedes do segundo andar, com a porta bem fechada. A luz dourada da manhã entrava como finas faixas de seda, aquecendo meu corpo. Passei a mão pelos cabelos, sentindo a mente vazia, como se a experiência vivida na encosta na noite anterior não passasse de um sonho absurdo.
Entretanto, ao tocar acidentalmente nas duas protuberâncias na minha cabeça, uma de cada lado, e perceber as roupas sujas de grama e terra, minha convicção mudou. Realmente, os últimos dias não tinham sido apenas um pesadelo.
Quem teria me nocauteado na noite passada? Quem teria me encontrado e, gentilmente, me carregado de volta da encosta a tantos quilômetros de distância? Teria sido o Terceirinho? Ou Zhang Wenyí?
Saltei da cama e desci rapidamente. As vozes vinham do salão da hospedaria, onde uma multidão se aglomerava. A tia chorava alto diante do altar fúnebre, murmurando palavras incompreensíveis.
Assim que me viram, todos silenciaram imediatamente, encarando-me com expressões vazias, mas com olhares carregados de uma hostilidade mal disfarçada. O ambiente ficou gélido.
Estranho, aquela cena era tão familiar… não era idêntica à de ontem de manhã? Para aliviar um pouco o clima, imitei o que fizera no dia anterior: cocei a cabeça e sorri, perguntando com simpatia: “Estão todos à minha espera? O que aconteceu agora?”
“Alguém se afogou”, respondeu Terceirinho, inexpressivo.
“Quem morreu?” Olhei curioso para o altar, onde um corpo estava coberto por um lençol branco.
“Era um turista recém-chegado. Saiu à noite para passear à beira do rio e foi arrastado para a água por um espírito afogado, tornando-se seu substituto”, disse Terceirinho, com a voz estranhamente aguda e monótona, sem qualquer emoção.
“Além de mim, há outros turistas aqui?” perguntei surpreso. “Você sabe o nome dele?”
“Ele se chama Ye Buyu. Era uma boa pessoa”, respondeu Terceirinho, com a mesma apatia.
Fiquei paralisado, como atingido por um raio, o corpo rígido. Demorou um tempo até que eu conseguisse reagir e, forçando um sorriso, disse: “Está brincando comigo? O que eu te fiz para merecer isso?”
Terceirinho sorriu de maneira sinistra, olhou fixamente para mim e disse, sílaba por sílaba: “Não estou brincando. O corpo dele está bem ali, no altar. Não acredita? Vá conferir.”
Contendo o tremor que tomava conta do meu corpo, lambi os lábios e caminhei lentamente até o altar. A cada passo, o medo aumentava, e a curta distância parecia interminável. Por fim, cheguei diante do altar.
O corpo ali era claramente de um homem, não muito alto, mas de estatura idêntica à minha. Não suportando mais aquele tormento, puxei o lençol branco.
O rosto exposto era extremamente familiar. Não! Na verdade, era o meu próprio rosto, o mesmo que via todos os dias no espelho.
Soltei um grito e despertei do sonho, ofegante. Era um sonho! Ainda bem que era só um sonho! Mas um pesadelo tão real e aterrorizante. Sentei-me no que havia deitado, ao redor tudo era escuridão. Tateando, tentei encontrar algo para iluminar o ambiente.
De repente, minhas mãos tocaram duas formas quentes. Alguém murmurou um “hum”, como se quisesse gritar mas temesse ser ouvido, tapando a boca com força. Logo depois, um estalo seco soou e, antes que eu entendesse, meu rosto ardia de dor.
“Suas mãos! Suas mãos!” ralhou uma voz feminina, num tom de reprimenda.
“Wenyí?” perguntei, incerto.
A voz respondeu, aborrecida: “Claro que sou eu! Esqueceu minha voz tão rápido assim?”
Era mesmo a garota que eu tanto procurara sem sucesso. Com um sorriso travesso, brinquei: “Como esquecer? Mesmo que meu ouvido fosse esquecido, meu tato não seria tão rápido assim…” Nem terminei a frase e senti uma dor na coxa — ela, indignada, usava o polegar e o indicador para me punir ali. Imediatamente, pedi clemência e segurei sua mãozinha.
As mãos suaves pararam, imóveis entre as minhas. Ouvi um suspiro longo ao meu lado, e um corpo delicado, exalando um perfume sutil de orquídeas, se aninhou em meus braços. Zhang Wenyí me abraçou apertado, chorando baixinho encostada em meu ombro.
Cocei a cabeça, sem saber como consolar garotas — esse mistério para mim desde a infância — e então apenas fiquei ali, dando tapinhas leves em suas costas, deixando-a chorar.
“Obrigada”, disse Zhang Wenyí, enxugando as lágrimas na minha camiseta, a voz rouca. “Ontem de manhã, escondida na passagem sob a escada, vi tudo. Se não fosse por você, quando a família Qi veio causar confusão, eu não sei o que teria feito.”
“E em agradecimento, você resolveu me dar dois galos na cabeça e ainda um tapa?” reclamei, sentindo a dor pulsando do couro cabeludo.
“Deixe disso, homem que é homem não liga pra machucadinho. Se quiser, posso massagear para melhorar!” Mexendo-se, ela tirou a mão do meu aperto e começou a massagear levemente minha cabeça. “Ainda dói? Se eu não tivesse te desmaiado, aposto que você já teria morrido duas vezes”, disse, soprando ar quente sobre os galos.
“O que aconteceu?” O formigamento na cabeça me fazia relaxar, e a mente clareou. Lembrei de todas as dúvidas que queria tirar.
Zhang Wenyí pressionou meu lábio com o dedo. “Não pergunte. Saber demais é perigoso.”
“Ficar no escuro é ainda mais”, rebati.
Ela suspirou baixinho: “Você não faz ideia do perigo que corro, Buyu. Não quero te envolver.”
“Já estou envolvido”, disse, apertando-a mais forte. “O que você vai fazer? Como posso ajudar?”
Talvez fosse impressão minha, mas o ar pareceu gelar. Zhang Wenyí resmungou: “Vou vingar minha irmã. Quero que a família Qi seja destruída, sem descendência!”
“Você quer matá-los todos?” espantei-me, tentando dissuadi-la: “Isso é crime, além do mais, como uma garota faria isso?”
“Eu sabia que só você se importaria. Não se preocupe, minha irmã vai estar comigo, ela vai me ajudar.”
“Mas sua irmã… é só um corpo… ela…” Senti as mãos úmidas dela acariciarem meu rosto e calei-me na hora.
“Ainda dói? Desculpe, bati forte naquele tapa”, sussurrou Zhang Wenyí ao meu ouvido, o hálito perfumado fazendo cócegas e me arrepiando. “Tenho que ir. Talvez essa seja nossa última vez juntos. Por favor, não me procure mais… é um pedido, não quero que te aconteça nada!” Ela tentou se afastar, mas de repente se jogou de volta nos meus braços.
Senti todo seu corpo quente e macio contra o meu, um toque úmido pousou nos meus lábios, seguido de uma onda de perfume inebriante que me deixou tonto. Meu corpo ficou rígido, sem compreender o que acontecia. Antes que eu reagisse, ela se aproximou ainda mais…
Não sei quanto tempo o beijo durou. Quando recobrei os sentidos, ela não estava mais ali. O silêncio era completo. Se não fosse pelo calor e pelo perfume que ainda restavam em mim, eu acharia que tudo não passava de um sonho.
Tateando, levantei-me do lugar onde estivera deitado, até encontrar o interruptor. Quando liguei, a luz forte me obrigou a fechar os olhos. Só então, adaptado, abri-os e olhei ao redor.
Meu Deus! Eu estava no porão da hospedaria, deitado na única cama do local — aquela famosa pela lenda assustadora, bem em frente à porta! Um arrepio percorreu meu corpo. O espaço era vazio, ninguém ali, nenhum móvel onde alguém pudesse se esconder. Onde estava Zhang Wenyí? E o corpo de Zhang Xueyun?
Observando como ela era cautelosa, era impossível que tivesse saído pela porta do porão. Haveria uma passagem secreta para o exterior? Quando me preparava para investigar o porão mais uma vez, ouvi o alvoroço vindo do salão.
Por alguma razão, lembrei do sonho que tivera há pouco e sorri amargurado. Decidi sair para ver o que estava acontecendo. Os outros mistérios poderiam esperar.
“O velho Qi morreu! Disseram que um agricultor o encontrou preso numa rede no rio de manhã cedo. Morreu de forma horrível! Alguém estrangulou o pescoço com uma corda e, depois de morto, cortaram-lhe a garganta para sangrar. Uma brutalidade!”
“Será obra de um espírito vingativo? A morte dele é idêntica aos assassinatos de trinta anos atrás, atribuídos à alma da camponesa. Será a maldição daquela menina, Xueyun?”
“Quase certeza! Castigo merecido, a família Qi dominou tudo por décadas, agora está prestes a ser exterminada.”
Antes mesmo de chegar ao salão, já ouvia as discussões dos curiosos do vilarejo, reunidos na hospedaria. Logo entendi do que se tratava.
Terceirinho, atento, me viu de longe e correu, reclamando: “Onde você esteve ontem à noite? Esperei por você quase a noite toda no topo da encosta, e ainda por cima choveu. Fiquei procurando por você, preocupado que algo tivesse acontecido. E você? Voltou para dormir tranquilo, sem avisar. Quase peguei um resfriado por sua causa!”
Não lhe dei atenção e murmurei em tom baixo: “Encontrei Zhang Wenyí.”
Ele ficou radiante: “Sério? Onde ela está?”
Balancei a cabeça: “Encontrei-a na encosta, mas ela me desmaiou. Quando acordei, estávamos no porão e, mal trocamos palavras, ela saiu apressada.”
“E você não a impediu?” Terceirinho ficou desapontado.
Sorri amargamente, tocando os lábios, onde ainda sentia o gosto doce do beijo.
“Estou preocupado com o perigo que ela corre”, confessei, afastando os pensamentos tolos.
“O que quer dizer?” ele perguntou, elevando a voz.
Mandei-o fazer silêncio: “Não ouviu o que o pessoal anda dizendo?”
“Sei, dizem que o velho Qi morreu. E daí? Era um canalha, merecia o inferno faz tempo”, respondeu, desdenhoso.
“Mas você percebeu?” Olhei para ele: “Agora todos na vila espalham que Zhang Xueyun virou um espírito vingativo e matou o velho Qi, podendo acabar com toda a família. Quem será mais prejudicado por esse boato?”
“Claro que é a Xueyun”, respondeu de pronto.
Não acreditei. E eu, que ontem elogiei sua lógica… Estava enganado.
Como ele não entendia, expliquei sem paciência: “Apesar do boato falar da alma de Xueyun, todos suspeitam que foi Zhang Wenyí quem levou o corpo da irmã. Então, se a família Qi quiser se vingar ou acabar com a tal maldição, vão atrás de Wenyí!”
“Se a família Qi, sendo violenta como é, encontrar Wenyí…” Finalmente entendeu, esganiçando-se: “Ela está em perigo! E agora, o que fazemos?” Agarrou meus ombros, tão aflito quanto formiga em panela quente.
“É óbvio: temos que encontrá-la antes de todos, esconder e avisar para não sair por aí. E tem que ser rápido!” Afastei-o, massageando o ombro dolorido.
“Claro! Que idiota, como não pensei nisso?” Ele bateu na própria testa e saiu correndo.
De repente, lembrei de algo e o puxei: “Se pingarmos sangue de gato preto num corpo em estado como o de Zhang Xueyun, o que acontece?”
“Corpo se transforma!” respondeu uma voz rouca ao lado. A feiticeira agarrou-me com suas mãos secas, perguntando, assustada: “Por que pergunta isso? Viu algo na noite em que o corpo de Xueyun desapareceu?”
Refleti e decidi contar: “Sim. Quando o corpo sumiu, vi um gato preto morto ao lado do altar. A garganta havia sido cortada e o sangue drenado. Havia manchas de sangue no tecido que cobria o corpo de Zhang Xueyun.”
A feiticeira ficou estática, como atingida por um raio, e só depois de um tempo falou, exausta: “Maldição… rapaz, espero que você encontre o corpo de Xueyun antes do pôr do sol de amanhã, senão será tarde demais. Espírito vingativo não ataca só a família Qi — temo que todo o vilarejo será varrido por uma calamidade sangrenta!”