Capítulo Vinte e Dois O Tesouro da Família Chen (Fim da História)

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 3174 palavras 2026-02-09 16:14:46

— É justamente por ser policial que acredito ainda mais nessas coisas misteriosas e sobrenaturais — disse meu primo com seriedade.

— Mesmo que o teu argumento faça sentido, como explicas o fato de só eu não ter tido aquele sonho estranho?

— É simples. Noite, desde pequena você sempre se deparou com situações incomuns, não foi? Já pensou por que chegou até aqui? Por que, em tantos acontecimentos, quem morre quase sempre são os outros, e não você? — Ele me olhou fixamente. — Lembra que a vovó sempre dizia que, quando você nasceu, um monge errante previu que sua vida jamais seria comum? Aposto que você possui algum tipo de constituição especial, capaz de afastar desgraças e evitar perigos.

Fiquei em silêncio, sem palavras. Embora por fora não desse uma resposta clara ao meu primo, por dentro comecei, sem dúvida, a vacilar.

— Mas o túnel entre o túmulo principal da família Chen e o túmulo secundário estava realmente bem escondido — continuou ele. — Quando o pessoal da equipe de investigação desenterrou os corpos de Wang Qiang e Wang Wei, ninguém percebeu a existência daquele túnel.

Dei um resmungo: — Isso só prova o quão incompetentes são os policiais da tua equipe. Acho que, naquela hora, toda a atenção deles estava voltada para o abrigo antiaéreo onde encontraram os corpos, ninguém sequer pensou que os cadáveres haviam sido transportados do túmulo principal para o túmulo secundário, e então, através da parte desmoronada, jogados dentro do abrigo.

— Há ainda outra coisa — Yefeng, meu primo, falou num tom de repreensão: — Já que sabias onde ficava a entrada do túmulo, por que arriscaste tanto para arrancar informações de Zhou Jian? Tem ideia do perigo de enfrentar alguém tão cruel sozinho? Se ele te atacasse de repente, eu jamais teria tempo de chegar para te salvar. E, pior, não me disseste nada antes, só pediste que eu me escondesse naquele maldito buraco para assistir ao espetáculo!

— Também não queria correr esse risco — sorri amargamente. — Mas não havia alternativa. Tudo era apenas dedução minha, sem nenhuma prova concreta. Mesmo se eu contasse à polícia sobre a entrada do túmulo, no fim só encontrariam dois corpos, nada que pudesse incriminar aquele desgraçado — e ainda correria o risco de alertá-lo. Por isso, recorri a essa tática.

Yefeng não comentou minha explicação. Após pensar um pouco, perguntou subitamente:

— Investiguei algumas informações sobre Wang Qiang. Quer ouvir?

Fiquei surpresa e assenti.

— Então me responda antes: em que ano os romances de Sherlock Holmes, de Conan Doyle, chegaram aqui?

— Acho que faz uns dez anos.

— Exato — ele sorriu enigmaticamente. — Lembro que, naquele ano, a cidade inteira foi tomada por uma febre de detetives por causa desse livro. Wang Qiang tornou-se um fã fiel do gênero. No ensino fundamental, ele chegou a criar um clube chamado “Sociedade de Estudos de Detetives”, mas, infelizmente, até desaparecer, era o único membro.

— Talvez, querendo atrair mais gente ou provar sua capacidade de dedução, pouco antes de sumir ele declarou no jornal da escola que conseguiria desvendar o mistério da lenda do colégio. Aposto que já tinha alguma pista naquela época.

Assenti: — Talvez, então, já tivesse descoberto a entrada do túmulo principal.

— Mas aí está o problema: alguém tão esperto quanto Zhou Jian, ao matar Li Ping, não teria notado o sumiço do próprio crachá escolar?

Cocei a cabeça, incomodada, quando uma ideia me ocorreu de repente e exclamei:

— Sempre achei que Zhou Jian, ao matar Li Ping, perdeu o crachá no meio das roupas rasgadas dela por acidente, mas estava totalmente enganada! — falei baixinho.

— Não foi isso? — Yefeng perguntou, intrigado.

— Não. Acho que Zhou Jian colocou de propósito o próprio crachá junto ao corpo de Li Ping!

Yefeng ficou atônito: — Por que ele faria isso? Só teria a perder!

— Existe sentido nisso. Imagine: se você ama alguém a ponto de não suportar a ideia de perdê-la, a ponto de matá-la para tê-la só para si, não desejaria estar com ela a todo momento, eternamente? Só que, naquela situação, Zhou Jian não podia fazer isso. Ficar muito tempo perto do túmulo levantaria suspeitas e traria problemas. Então, louco de amor por Li Ping, ele deixou o próprio crachá junto ao esqueleto dela, como se assim pudesse permanecer ao lado dela, mesmo que simbolicamente.

Lambi os lábios e continuei: — Pensando assim, talvez Zhou Jian tenha abandonado o futuro promissor e voltado para trabalhar como vigia da escola, não para esconder seu crime, mas para ficar perto dos restos mortais de Li Ping. Mas, cinco anos atrás, numa dessas visitas ao túmulo, foi visto por acaso por Wang Qiang.

— Depois de alardear no jornal da escola, Wang Qiang desceu ao túmulo principal e descobriu os corpos de Li Ping e do bebê. Lembra daquele grande incêndio em Xuequan, cinco anos atrás? Um prédio inteiro do distrito leste foi destruído, e até hoje não encontraram o culpado.

— Coincidentemente, Wang Qiang morava naquele prédio. Acho que Zhou Jian pôs fogo lá. Depois de matar Wang Qiang, não encontrou o crachá que ele havia retirado, nem as roupas de Li Ping, e então incendiou a casa para destruir as provas.

Yefeng suspirou: — Pensando bem, Zhong Dao, Li Ping e Zhou Jian, todos eles foram vítimas, vítimas do sentimento, e por isso chegaram a esse ponto. Nunca imaginei, contudo, que Zhou Jian, mesmo diante de provas irrefutáveis, negaria tudo até o fim — e ainda jogaria contigo aquele jogo do copo. Realmente cavou sua própria cova!

— Tenho uma visão diferente — desviei o rosto e perguntei de repente: — Dizem que Zhou Jian morreu de susto, não foi?

— Sim, eu vi o cadáver dele. A expressão era de puro terror.

Respirei fundo e disse suavemente:

— Às vezes, expressões de pânico intenso e de júbilo absoluto são quase indistinguíveis. Talvez Zhou Jian, sabendo que estava encurralado, quisesse ver a pessoa amada uma última vez, mesmo que ela já fosse um espectro vingativo, sedento pelo seu sangue... Quem sabe, no momento da morte, ele tenha experimentado a maior felicidade de sua vida.

Olhei para o céu azul, mas percebi que já não conseguia sorrir com leveza.

Que tipo de ódio poderia transformar uma garota dócil como Li Ping em um espírito vingativo, capaz de tomar vidas inocentes?

Embora eu não acreditasse na existência de fantasmas. A vida é um ciclo, tudo tem uma causa e uma consequência. Talvez houvesse outra explicação, mais científica, para a lenda do fantasma de Li Ping! Só que eu, com meu conhecimento limitado, não saberia qual.

De toda forma, este caso, ao que tudo indica, chegou ao fim.

Resta comentar mais uma coisa.

Depois que o túmulo da família Chen foi aberto na escola, vários arqueólogos vieram estudá-lo, e, ao final, ficou provado que era verdadeiro.

O mais intrigante, porém, foi o seguinte: em todo aquele vasto túmulo, como Zhou Jian havia dito, o velho Chen não tinha acompanhantes sepultados. Apenas duas urnas foram encontradas na parte mais profunda. Seladas com vários amuletos, quando finalmente foram abertas, os arqueólogos ficaram surpresos ao constatar que cada urna continha apenas um braço.

E o restante do corpo do velho Chen? Quem teria tanto ódio a ponto de esquartejá-lo após a morte? Essas perguntas viraram manchete nos jornais e causaram grande comoção na época.

Anos mais tarde, com a experiência adquirida, ao relembrar o caso compreendi que tudo, desde o ódio de Li Ping, capaz de matar oito pessoas, até o choro do bebê à meia-noite no bosque de cânforas, estava ligado àqueles dois braços já ressequidos e reduzidos a ossos. E foi então que tive meu primeiro confronto direto com o túmulo da família Chen.

Dizia-se que não se deve falar de forças sobrenaturais, não por ignorância, mas por serem temas difíceis de explicar.

Fantasmas realmente não existem. Mas os restos do velho Chen continham um poder misterioso capaz de afetar os vivos e os mortos. Não apenas os ossos dele: há muitos outros objetos especiais no mundo, desconhecidos pela humanidade, dotados de força sobrenatural, que influenciam, de modo sutil ou não, a vida humana e o mundo em que vivemos.

Mas isso já é outra história.

Ah... como dói por dentro.

Talvez a vida seja assim: só amadurecemos, só crescemos, quando passamos por perdas e experiências.

— Ainda que o passarinho não possa tê-lo, quer que ele jamais o esqueça, nem que para isso sacrifique a própria vida... Só para ele... Você acha que esse passarinho não é tolo?

No avião da Eastern Airlines, não sei por que, lembrei-me de repente das últimas palavras de Xue Ying.

Ao abrir seu diário, na primeira página estava seu nome escrito com uma caligrafia elegante, e logo abaixo, duas palavras — Passarinho...

— Sim, o passarinho é mesmo tolo. Mesmo fazendo isso, ninguém ficaria feliz, só causaria tristeza aos que a amam... — Meu peito doía, mas não conseguia chorar, então olhei pela janela.

Do lado de fora, o vasto Pacífico exibia um azul límpido e transparente. O céu também era azul, e céu e mar se estendiam juntos até onde a vista não podia mais alcançar, sempre mais longe, até um ponto inalcançável.

Lá, talvez exista o paraíso...

Fim da história “O Jogo do Copo”.

Aguarde pelo próximo conto: “O Boneco Sobrenatural”.