Capítulo Cinquenta – O Enigma Misterioso (Parte Um)

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 2782 palavras 2026-02-09 16:17:30

Neste mundo sempre existem inúmeros enigmas; alguns se desvelam com o passar do tempo, mas outros jamais terão resposta, por toda a eternidade.

— Você está brincando comigo? Como consegue me oferecer algo tão miserável! — exclamou Shen Ke, incrédulo, ao olhar para a tigela de tofu apimentado à sua frente. Estávamos numa pequena loja de tofu na esquina da rua Sul, próxima ao beco onde, há pouco tempo, eu encontrara a estranha moça de vermelho.

— De fato, prometi pagar seu almoço por quatro dias, mas também disse que o que comeríamos seria por minha escolha. Hehe, coma logo; o tofu daqui é famoso. Qualidade excelente, preço justo, sem enganos para crianças ou idosos — respondi com um sorriso malicioso.

— Você… não vai me fazer comer isso por quatro dias seguidos, vai? — arriscou Shen Ke, cauteloso.

Assenti sem hesitar: — Inteligente! Era exatamente o que eu tinha em mente!

— Você é um demônio! — ele abaixou a cabeça, profundamente abalado.

Zhang Lu sorriu radiante, apontando para ele: — Haha, fui mais esperta. Já sabia que esse sujeito não seria tão generoso, nem lhe dei chance de impor condições. Ei, Noite Sem Voz, amanhã quero frutos do mar!

Apoiei a cabeça na mão e disse à garota: — Embora eu realmente não tenha mencionado esse requisito, também nunca disse que não poderia acrescentá-lo. Hehe, é melhor se preparar para uma semana de tofu apimentado!

Sem argumentos para rebater, Zhang Lu ficou atônita.

Agora foi Xu Lu quem se alegrou, olhando satisfeita para os colegas que comiam com expressão de sofrimento: — Ainda bem que não pedi para ele me pagar o almoço, senão estaria tão mal quanto vocês.

— O pensamento de Xiao Lu é problemático! — protestou Zhang Lu, irritada. — Não importa o que seja, comida paga pelos outros sempre tem sabor melhor que a paga por nós mesmos. Hmph, vou comer até levar esse sujeito à falência! Senhor, mais dez tigelas!

— Ei, ei! — olhei para sua cintura esbelta, assustado — Vai caber tudo isso no seu estômago?

— Não é da sua conta! Você não limitou o quanto posso comer, se não conseguir, levo para casa, dou para meu cachorro — respondeu Zhang Lu, com desdém.

Os olhos de Shen Ke brilharam: — Haha, não esperava menos da pequena Lu, sempre com um truque na manga! Senhor, vinte tigelas para comer aqui e vinte para levar!

— Vocês... — Eu, que queria economizar, olhei para minha carteira, resignado. Céus, que erro de cálculo!

O dono da loja, de pé ao lado, se divertia com nossa conversa: — Hahaha, fazia tempo que não via jovens tão cheios de vida como vocês.

— Já houve outros clientes tão gananciosos assim? — perguntei, apontando para aqueles dois que quase me levaram à falência.

O dono suspirou: — Há alguns anos, também vinha aqui uma garota cheia de energia, com um coração bondoso, sempre despreocupada. Ela costumava me ajudar a cuidar da loja.

— Uau! Que pessoa maravilhosa, nunca encontrei alguém assim! — lancei um olhar insinuante para certas pessoas — E agora? Ela ainda vem? Gostaria muito de conhecê-la!

— Noite Sem Voz, sempre tão galanteador! — Zhang Lu resmungou, contrariado — Basta ouvir que é uma garota para querer se aproximar.

Olhei para ela: — Hmph, é pura admiração e respeito. Só pessoas como você conseguem interpretar erroneamente minha nobreza.

— Não a verá mais — disse o dono, entristecido. — Ela morreu há três anos, atropelada justamente neste beco, enquanto levava uma garrafa de cerveja para devolver…

— O quê?! — Zhang Lu e eu exclamamos ao mesmo tempo.

Não sei por que ela se espantou, mas eu fui por recordar subitamente algo: a estranha moça de vermelho que encontrei naquele dia segurava uma garrafa de cerveja. Será que era o espírito dela?

— Senhor, quando a garota morreu, que cor de roupa ela usava? — perguntei, com a garganta seca.

— Vermelho. Nunca esquecerei; aquele vestido foi presente meu no Ano Novo, como recompensa pela ajuda que me dava.

Zhang Lu percebeu algo, olhando para mim com expressão de dúvida e choque.

— O senhor lembra em que parte do beco ela morreu? — tremi ao perguntar.

— No meio. Quando a levantei, ela já não respirava.

— Poderia nos levar até lá? — Pedi, sentindo-me tomado por uma emoção estranha.

Talvez percebendo minha agitação, o dono nos olhou desconfiado.

— Não é nada demais. Apenas acho que uma garota como ela morrer é triste demais. Gostaria de prestar respeito ao lugar onde ela partiu — expliquei, com palavras melosas que, para minha surpresa, convenceram o dono a nos ajudar.

Ele pediu à esposa que cuidasse da loja e nos levou até o local.

— É aqui — disse, apontando para um ponto no meio do beco Sul.

Sem dúvida! Lembro perfeitamente daquela noite: era ali mesmo que a moça de vermelho desapareceu.

Zhang Lu tremia de medo; Xu Lu e Shen Ke, que não participaram diretamente do episódio, também sentiam um frio arrepiante ao ouvir nossa história.

— Senhor, sabe o nome da garota e onde ela morava? Por favor, preciso saber, quero visitar sua casa — pedi, mesmo sabendo da ousadia do pedido. Agora que tinha pistas, não podia desperdiçá-las!

O dono me fitou por um tempo. Como não encontrou maldade, respondeu lentamente: — Ela se chamava Xu Fei, morava na Rua Grande Sul, número noventa e sete. Mas depois que ela morreu, a família se mudou, não sei para onde foram.

Fiquei pasmo! Rua Grande Sul, noventa e sete… aquela é a casa assombrada! Então ela também tinha ligação com aquele prédio.

Os fios de mistério, aparentemente desconexos, começavam a mostrar pontos em comum. Agora era hora de buscar respostas.

Senti uma alegria vibrante, pela primeira vez acreditando que seria capaz de desvendar os enigmas que me inquietavam há tanto tempo. O mais importante agora era investigar a ligação entre a maçã e o edifício assombrado.

Pensei comigo mesmo: talvez Mi Jingyun possa me ajudar a resolver essa questão.

— Zhang Lu, acho que estou doente de novo — abaixei a cabeça, escrevi alguns versos num papel e entreguei a ela: — Dê este bilhete de licença para Mi Jingyun, ela saberá o que fazer!

Há sempre governos municipais irresponsáveis, que transformam lugares belos em parques sem valor algum, cobrando entradas absurdas.

Claro, o parque desta cidade não era exceção. Paguei o ingresso para nós dois, com dor no coração, e ainda tive que fingir um sorriso: — Nunca pensei que você realmente fugiria da escola para sair comigo.

Mi Jingyun sorriu com delicadeza: — Sendo você quem me convida, não importa o que aconteça, eu viria.

— Mas será que valho tanto para você? — perguntei, intrigado. — Já faz mais de cinco anos que não nos vemos. Cinco anos… o mundo mudou, nós também.

— Sim — ela sorriu, olhando para mim — Pelo menos, você não é mais aquele chorão que vivia sendo intimidado.

— Você fala como se não tivesse nada a ver, mas deveria lembrar quem era a responsável por me provocar o tempo todo.

— Tá bom, desculpa. Eu não fazia por mal; era impossível resistir, você era tão fofo que eu queria te apertar sempre.

— Meu Deus, nunca sentiu vergonha ou remorso?

— Claro que não. O carinho por quem gostamos não pode ser errado — Mi Jingyun respondeu, com uma expressão de convicção.

— Ah, preferia até que você me odiasse — suspirei, exasperado.

Ela riu novamente: — Que pena, não importa o que você faça, jamais conseguirei te odiar.

— Sério? Não importa o que eu faça, nunca vai me odiar ou recusar? — meus olhos brilharam, perguntando com segundas intenções.

Mi Jingyun corou, mas logo balançou a cabeça, decidida: — Nunca, não importa o que você faça…

— Então… posso te beijar? — aproximei-me devagar, até que nossos narizes quase se tocaram.