Capítulo Trinta e Um: A Peste (Parte Dois)
Após muito esforço para atravessar aquela trilha que chamavam de caminho, finalmente chegamos à encosta da colina próxima ao vilarejo. O céu já começava a clarear. Sob a fraca luz, o vilarejo aos nossos pés parecia estranhamente silencioso.
— Você é tão inteligente, deveria ter adivinhado há muito tempo o motivo de eu ter vindo — desafiei Siá, que caminhava ao meu lado.
Ela sorriu levemente e respondeu:
— Você quer encontrar aquele boneco.
— Exato — sorri satisfeito. — Sendo você uma espécie de médium, deve saber melhor do que eu em que condições a maldição pode ser quebrada, não?
— Ora, já disse que sou médium, mas você insiste em me chamar de charlatã! Que irritante! — ela protestou, apertando meu braço com força.
— Ah, desculpe. Esqueci que você é meio charlatã — retruquei, massageando o braço.
— Está bem, você venceu. Não consigo discutir com você! — ela ergueu as mãos em sinal de rendição. — Mas o mais importante agora é o que vamos fazer. Qual é o plano?
Fiz um gesto de vitória e declarei:
— Bem... todo filme, livro ou história sobrenatural diz que cada espírito tem um objeto ao qual está ligado. Se destruirmos esse objeto, o espírito se dissipará e, com isso, a maldição será quebrada. Essa é minha teoria! E você, o que acha?
— Concordo, minha avó também dizia isso. Mas é verdade apenas para a maioria dos casos. Pode ser que este seja diferente — Siá respondeu, meio desconcertada.
— Então, você tem alguma ideia melhor? — perguntei, fingindo humildade.
— Mas... você sabe onde está esse objeto? — ela desviou a resposta, olhando para mim, inquisitiva.
— Que falta de graça! — cocei a cabeça e, então, contei-lhe toda a história. — O ritual de exorcismo de Abucólus exige que o objeto do espírito esteja presente, então tenho certeza de que o boneco voltou para algum lugar na igreja.
— Hm, não sei de onde vem tanta confiança! — ela resmungou. — Parece que muita gente da DCUI está acampada no vilarejo. Não tem medo de ser descoberto?
— Não importa. Se formos pegos, nos mandam de volta para casa. Pelo menos economizo a passagem de avião — disse, descendo a encosta, despreocupado. — Se você tem medo, pode esperar aqui.
— Medo? Eu? Jamais!
O caminho até a igreja permanecia o mesmo: sombrio e úmido, com árvores densas encobrindo o céu, como se algo estivesse prestes a emergir das sombras.
Siá, acostumada desde pequena a lidar com coisas assustadoras, nunca havia sentido uma pressão psicológica tão intensa. Instintivamente, ela segurou meu braço e olhou ao redor, nervosa.
Eu pretendia zombar dela, mas ao ver a expressão frágil e comovente em seu rosto, as palavras simplesmente não saíram. Naturalmente, apertei seu abraço, como se quisesse lhe dar coragem.
Siá me lançou um olhar agradecido. Com ela junto ao peito, sentindo o perfume discreto de sua pele, finalmente percebi que era, de fato, uma garota.
Logo depois, desconfortável, soltei seu braço. Ela também percebeu algo, corou e acelerou o passo.
A igreja continuava em ruínas, seus destroços expostos à luz da manhã. Sem perder tempo, começamos a vasculhar todo o edifício. Com aproximadamente trezentos metros quadrados, encontrar um pequeno boneco ali era como procurar uma agulha no palheiro.
Felizmente, Siá, a médium — por algum motivo, comecei a respeitá-la sem perceber — parecia capaz de sentir onde havia perturbações espirituais.
Horas se passaram. Vasculhamos cada centímetro da igreja, mas não encontramos nada.
— Estranho... as ondas espirituais no chão estão muito uniformes, uniformes até demais — Siá lamentou, sentando-se.
— No chão? — exausto, massageava as pernas quando de repente me ocorreu uma ideia. — Se não está no chão, está debaixo dele!
— Você quer dizer... o necrotério? — os olhos dela se iluminaram.
Igrejas europeias costumam ter porão, onde são guardados os corpos dos monges de gerações passadas. Essa tradição, trazida há séculos para as Américas, permaneceu inalterada, especialmente nas igrejas consideradas mais tradicionais. O tamanho do necrotério era motivo de orgulho.
— É bem provável — ela disse, mas logo se preocupou. — Mas a entrada do necrotério sempre foi muito secreta, ainda mais agora, com a igreja em ruínas. É impossível encontrar.
— Não se preocupe, é nesse tipo de situação que meu talento aparece — sorri misteriosamente. Peguei dois pedaços de arame do mesmo tamanho e os curvei em forma de L, inseri uma das pontas em um canudo de plástico usado no almoço e o segurei na palma da mão.
Siá, já acostumada com minhas invenções, observou sem dizer nada até perguntar:
— O que você está tentando fazer agora?
— Detector de metais Moaest — expliquei. — Já ouviu falar?
— Nunca. O que é isso? — ela sacudiu a cabeça.
— Foi inventado por um inglês chamado Moaest. Serve para detectar metais, esgotos e até salas secretas abaixo do solo. O funcionamento é inexplicável, mas vários governos aceitam sua eficácia e o usam para inspeção de esgotos.
— Tem certeza que funciona? — ela perguntou.
— Não sei. Nunca testei — respondi.
— Você... — ela ficou sem palavras de raiva.
Pisquei para ela:
— Só vamos descobrir se funciona tentando.
Levantei e comecei a andar em círculos ao redor da igreja, reduzindo gradualmente o raio da busca. Siá me acompanhava em silêncio, com um olhar que parecia desejar ver meu fracasso.
Não demorou dez minutos até que o arame dentro do canudo começou a tremer. Suspirei fundo, finalmente aliviado.
— Está perto — murmurei, desacelerando.
Por fim, na área onde antes ficava o dormitório principal, o arame tremeu ao máximo.
— Deve ser aqui.
Siá e eu trocamos olhares e começamos a limpar o local. Um painel de ferro surgiu diante de nós.
Com uma pá recém-encontrada, forcei o painel, liberando um vento fétido do interior. O buraco era escuro, sem saber a profundidade, e só se via uma escada íngreme.
O ar quente saía em ondas, mostrando que a ventilação era péssima.
— Lanterna... espere! Não entre ainda.
Impedindo Siá de avançar, tirei uma vela do bolso e a acendi, lançando-a no buraco. A vela, que normalmente queimava intensamente por ser de magnésio, apagou-se instantaneamente ao tocar o fundo.
— Essa vela contém magnésio. Com oxigênio, nem vento ou pressão a fariam apagar, mas veja só! Você está sendo impulsiva! — repreendi.
Siá parecia indiferente ao perigo, apenas curiosa:
— Você sempre anda com essas coisas estranhas?
Surpreso, ri sem jeito:
— Parece que sou um Doraemon... Em alguns dias é aniversário de Yao Jia, pensei em usá-las para pregar uma peça nela, mas acabaram servindo aqui. — Peguei a lanterna, agitei para sentir a temperatura do ar à frente e disse: — Agora está melhor, vamos descer.
Siá rapidamente tomou a lanterna:
— Eu vou na frente.
— Por quê? Não estava com medo até agora? — questionei.
Ela olhou para sua saia plissada bege, depois para a escada inclinada quase setenta graus. Percebi o motivo e caí na risada:
— Melhor eu ir primeiro. Prometo não abusar da situação, afinal, sou um cavalheiro.
Hehe, claro, só eu sei se sou mesmo um cavalheiro.
Chegamos ao fundo com dificuldade. À luz da lanterna, vimos uma sala de pedra, não muito grande, quadrada, com cerca de vinte metros quadrados e quase cinco sarcófagos.
Siá olhou ao redor, franzindo o rosto.
— Alguma descoberta? — perguntei.
Ela respondeu, intrigada:
— As pressões espirituais aqui estão caóticas, especialmente perto dos sarcófagos, como se houvesse um redemoinho.
— Então é simples — empurrei a tampa de um dos sarcófagos. Ela cedeu, revelando um espaço interno. Olhamos e quase ficamos sem ar de espanto.
Bonecos... dentro do sarcófago havia apenas bonecos. De todos os tipos, amontoados naquele espaço apertado, exalando uma estranheza inexplicável.
Siá estremeceu, agarrando-se a mim novamente.
— Vamos verificar os outros sarcófagos — disse, tentando suprimir o pânico.
Ela concordou, mas não soltou meu braço. Suspirei, pensando que, apesar de médium, Siá era uma garota comum.
Abrimos todos os sarcófagos e, sem exceção, estavam repletos de bonecos. Centenas deles, ali há não se sabe quantos anos, com roupas de seda que se desfaziam ao toque.
No canto, encontramos grandes quantidades de gasolina.
Provavelmente sobraram do ataque dos devotos de Cobanis há três anos. Por estar no porão, não foi afetada pelo incêndio e permaneceu intacta.
— Consegue identificar qual é o culpado? — perguntei a Siá, ainda atônita.
Ela despertou, observou por um tempo e, desanimada, balançou a cabeça:
— Não... não consigo.
— Não tem problema, tenho uma última carta na manga — sorri para ela, travesso.
Arrastando-a para fora do necrotério, Siá perguntou, meio divertida, meio preocupada:
— Tem certeza de que isso é certo?
— Por que não seria? — respondi, despreocupado. — Como não encontramos o verdadeiro, vou acabar com todos. E a igreja já é ruína, não é crime. — Lancei um fósforo aceso.
A chama desenhou uma curva graciosa e caiu no buraco...
O que eu não sabia era que, anos depois, a história daquele vilarejo seria registrada assim:
Noite de um determinado dia, mês e ano.
A igreja abandonada a leste do vilarejo repentinamente foi tomada por um incêndio violento. O fogo durou um dia e uma noite inteira antes de ser extinto, destruindo completamente os bosques de bétulas num raio de quinhentos metros. Por décadas, aquela terra permaneceu estéril, sem qualquer árvore.
A origem do fogo jamais foi esclarecida.
Mas algo curioso: após o incêndio, a epidemia súbita que assolava o vilarejo também desapareceu...