Capítulo Setenta e Dois: Cadáveres Flutuando no Rio Misterioso
A porta, desde tempos imemoriais, sempre foi vista como uma barreira capaz de isolar espíritos malignos e afastar a má sorte.
Quando os ancestrais humanos deixaram as cavernas para habitar as planícies e aprenderam a construir casas, criaram a porta para se proteger dos animais perigosos e garantir a própria segurança. No entanto, ninguém sabe ao certo quando as portas passaram a separar não apenas o homem das feras, mas também um humano de outro, a dividir o medo do escuro, a traçar a linha entre o bem e o mal, a criar obstáculos para a própria alma.
Após milhares de anos de civilização, pode-se dizer que o ser humano desenvolveu uma espécie de reverência por portas. No estudo do feng shui, posicionar a cama de modo que os pés fiquem voltados diretamente para a porta é considerado um erro grave. Não sei se alguma vez tentaste dormir assim, mas na véspera da minha ida à Vila da Montanha Negra, experimentei. Naquela noite, não consegui pregar o olho; sentia um frio nos pés, não importava quão grosso fosse o edredom ou quantas meias usasse. O frio não era comum — era um frio que penetrava nos ossos, gelava a alma. Não entendo por que Li Shuren e Zhang Xiuwen dormem assim. Haverá algum motivo especial?
Quando cheguei à Vila da Montanha Negra, já passava das quatro da tarde. O povoado não fica longe do meu, mas jamais imaginei que seria tão isolado e distante do resto do mundo. O ônibus só me levou até vinte quilômetros do destino e então mudou de rota. Tive que descer sozinho e, por sorte, consegui boleia numa carroça puxada por bois. Se tivesse que andar tudo aquilo a pé, provavelmente o anoitecer teria me alcançado antes da metade do caminho.
— Obrigado, senhor! — Agradeci ao homem, saltei da carroça e, seguindo suas instruções, caminhei ao longo do rio, em direção à nascente. As águas eram escassas, mas límpidas. A paisagem às margens era de uma beleza rara, algo cada vez mais difícil de encontrar neste mundo tão poluído pela civilização.
Caminhando, de bom humor, cheguei a assobiar uma melodia. Foi quando avistei, não muito longe, uma jovem de dezesseis ou dezessete anos, vestida de branco, chorando sozinha à beira do rio. Ela fitava a superfície da água, tomada por uma dor profunda, e de repente deu um passo à frente, como se fosse saltar.
Assustado, gritei sem pensar: — Ei! Ei, você! Sim, você!
A moça virou-se com surpresa, apontando para si mesma com o dedo, as longas pestanas ainda marcadas por lágrimas.
Aproximei-me, ligeiramente ofegante: — Sofreu uma desilusão amorosa?
Ela ainda me olhava, perplexa, com aqueles grandes olhos negros e brilhantes, sem piscar. Era realmente uma beleza rara.
Sem jeito, cocei a cabeça e disse: — A água aqui parece bem rasa; se saltar, além de não morrer, ainda pode bater a cabeça. Se quer realmente se matar, conheço um lugar melhor, não muito longe daqui.
A moça continuava a me encarar, e eu, por mais atirado que fosse, comecei a me sentir constrangido sob aquele olhar. Forcei um sorriso de polidez e arrisquei: — Quer que eu te leve lá?
— Louco. — Por fim, ela demonstrou alguma emoção; lançou-me um olhar fulminante e resmungou: — O que te faz pensar que estou me matando? Olha pra mim, pareço suicida? Presunçoso!
— Eu… — Tentei me explicar, mas ela já emendava:
— O quê? Não vai aceitar? Você está errado. Eu disse alguma vez que ia me suicidar?
— Não… — Balançei a cabeça, assustado com o tom dela.
— Pois é! Então por que presume isso? Só porque alguém está na beira do rio significa que quer morrer? Não pode estar ali por outro motivo?
— Mas você estava chorando…
Totalmente perdido, deixei-me levar pela conversa dela.
— E daí se eu choro? Não pode ter sido o vento, algum cisco no olho? Ou talvez eu goste de chorar, choro por tudo, choro de alegria e de tristeza. Quer ver? Posso chorar agora, se quiser!
Enquanto ela despejava essas palavras, de repente sorriu, dissipando toda a tristeza em seu rosto. Virou-se depressa, talvez para esconder o sorriso, e inspirou fundo.
— Pronto, terminou? — perguntei, meio zonzo de tanto ser repreendido.
— Longe disso!
Vendo meu desespero, a garota tapou a boca com a mão e riu com gosto: — Deixa pra lá, vou te perdoar só porque és jovem. Agora vou embora. Fica aí de castigo, pensando no que fez de errado!
Ora, veja só! Eu, Noite Sem Voz, raramente tenho um gesto de bondade e ainda assim sou maltratado por essa garota! O mundo está mesmo virado; as pessoas já não têm gratidão!
Que menina! Bonita, sim, mas nada simpática. Uma pena, porque com aquele rosto e corpo, poderia ser encantadora. Fiquei indignado.
Ela, sem se importar com meus pensamentos, pegou uma cesta do chão e correu rio abaixo.
— Ah, e… — Depois de alguns passos, virou-se, sorriu suavemente e disse: — Obrigada. Então, retomou a caminhada com passos leves.
Fiquei ali, paralisado como atingido por um raio. Que sorriso lindo! Aquele sorriso contido parecia carregar mil significados. Inspirei fundo; o vento tinha um aroma doce — seria o perfume de seus cabelos? Talvez ela não fosse tão má assim. Sorri amargamente, ajeitei a mochila no ombro e continuei a caminhada rio acima.
Não andei muito e já me deparei com outra situação.
Na superfície límpida do rio, começaram a descer bonequinhos de palha, boiando e balançando com a corrente, causando uma estranha sensação. Apressei o passo e ouvi, um pouco adiante, uma confusão. Chegando mais perto, vi um grupo de pessoas dentro do rio, remexendo algo.
Pisando na água, usavam longas varas de bambu para sondar o fundo. Na margem, uma velha senhora caminhava lentamente, lançando de sua sacola mais bonecos de palha ao rio. Quando algum deles parava de boiar, alguém corria para ali e agitava a água ao redor do boneco.
— Vovó, o que estão fazendo? — perguntei, curioso.
A senhora lançou-me um olhar severo, sem responder. Mas um rapaz, mais ou menos da minha idade, explicou:
— Não se assuste, minha avó não pode falar enquanto está chamando o espírito.
— Chamando o espírito?
Fiquei surpreso, sem entender de imediato.
O rapaz continuou: — A filha mais velha da família Zhang, do povoado ao norte, desapareceu há três dias. O corpo ainda não foi encontrado. Suspeitam que tenha se jogado no rio. Por isso chamaram minha avó, para chamar o espírito e fazer o corpo flutuar.
— E esses bonecos de palha servem para encontrar o corpo? — perguntei, incrédulo.
Ele confirmou com seriedade: — Se ela quiser ser encontrada, o boneco vai parar bem sobre o corpo.
Quase ri. Em áreas rurais, as feiticeiras sempre usam palavras vagas para mostrar seus supostos poderes. Dizem que, se a morta quiser ser achada, será. Assim, se encontrarem, é mérito delas; se não, a culpa é do espírito. E sempre há quem acredite nessas coisas!
O rapaz notou meu ceticismo, mas não disse mais nada.
A feiticeira continuou a lançar bonecos ao rio. Alguns flutuaram para o centro e, de repente, pararam como se estivessem pregados ali, desafiando toda lógica das leis da física.
— É ali! Bem ali embaixo! — gritou a velha, com voz áspera e estridente, fazendo meus ouvidos zumbirem.
Imediatamente, alguns homens se aproximaram e começaram a sondar com bambus ao redor dos bonecos. De repente, alguém exclamou: — Achei! — e um objeto branco começou a emergir lentamente.
Era mesmo um cadáver.
Uma mulher vestida de branco, o corpo inchado após mais de três dias na água, irreconhecível. Mas aquela roupa branca… parecia-me familiar.
Revirei a memória, procurando onde já a vira. Então, por acaso, reparei na pulseira de jade branco no pulso direito do cadáver e fui tomado de um calafrio.
— Ei, você está bem? Está tão pálido e tremendo! — O rapaz me olhou, preocupado, vendo que eu não tirava os olhos do corpo.
Mas eu já não ouvia nada. Afastando as pessoas à minha frente, fui até o cadáver e examinei o pulso. Não havia dúvida, era a mesma pulseira!
A garota de antes também usava uma pulseira idêntica, que me chamara a atenção pelo entalhe estranho. E o vestido branco que ela usava era igual ao da morta!
Meu Deus! Será que vi um fantasma?
Já vivi coisas estranhas, mas nunca tive tanto azar: mal cheguei e já encontro um espírito! Que começo!
— Você quer ir ao médico? — O rapaz bateu de leve em mim.
Assustei-me ao perceber que ainda segurava o pulso da morta. Um vento gelado me envolveu, e, aterrorizado, joguei a mão fora e saltei para trás.
— Não sei se acreditas, mas eu a vi há pouco! — disse, batendo no peito, ainda assustado. — Bem ali, no rio, uns dez minutos de caminhada.
— O quê?! — O rapaz empalideceu. Agarrou-me pela camisa: — Você a viu? Quando? O que disse a ela?
— Faz uns trinta minutos. Achei que queria se matar e tentei impedi-la.
O rapaz ficou imóvel por um momento, depois me empurrou: — Vai embora daqui! Saia desta vila o mais rápido possível! Aquela é a morta flutuante! Ela vai voltar para te buscar, quer que sejas seu substituto!
— Substituto?
As pessoas já iam embora, alguns levando o corpo com a feiticeira, outros voltando para casa. A margem do rio ficou deserta.
Fiquei sozinho, remoendo as últimas palavras do rapaz.
Ela quer que eu seja seu substituto? Então por que não o fez antes? Será que fantasmas não têm força durante o dia? Minha mente confusa começou a divagar. Olhei ao redor e percebi que estava sozinho.
O inverno traz a noite cedo; o céu já escurecia.
— Ei, alguém aí? Esperem por mim! — Senti um arrepio e corri em direção à vila.
Não sabia se devia seguir o conselho do rapaz e ir embora. Mas mesmo que fosse verdade, eu não fugiria. Se já vim até aqui, não vou sair correndo sem fazer nada. Não é do meu feitio.
Ao menos, preciso levar comigo o que Li Shuren deixou aqui. O resto, resolvo depois. Se o destino for bom, ótimo; se não, não há como escapar. Eu, Noite Sem Voz, sempre tive sorte, não seria agora que tudo mudaria, certo?
Mas e Li Shuren? O que será que ele guardou no número quinze da Sexta Rua, aqui na Vila da Montanha Negra? Teria relação com seu estranho vigor físico? Afastando o medo, a curiosidade voltou a arder em mim.