Capítulo Sessenta e Dois: A Morte se Aproxima (Parte Final)
— A Noite, ainda se lembra da época da escola primária? — perguntou Mi Jingyun suavemente, sem dar a menor atenção ao meu constrangimento. — Naquele tempo estudávamos na mesma escola, na mesma turma, e eu sempre sentava atrás de você. Passava os dias te observando, absorta, lembrando de como você já era alguém curioso, que gostava de ir até o fundo das coisas. Você era um dos melhores entre os colegas, mas adorava fingir ignorância.
— Não sei por quê, mas toda vez que te via assim, sentia uma vontade insuportável de te morder, de tão excitada que eu ficava — riu Mi Jingyun, erguendo o olhar para mim. — Talvez porque desde aquela época eu já estivesse apaixonada por você. Amo sua astúcia, sua falta de escrúpulos, amo tudo em você. Amo você, e quando te reencontrei, fiquei radiante. Jurei que jamais deixaria ninguém te arrancar de mim, não importa o método!
Fiquei completamente paralisado, como se todos os meus sentidos tivessem sido desligados. Pela primeira vez, minha mente se tornou um caos absoluto, pensamentos pesados e tumultuados me sufocando, a ponto de até respirar se tornar difícil.
Ofegante, não consegui pronunciar uma só palavra. Que estranho... O que estava acontecendo comigo?
Mi Jingyun continuou, com aquela sua voz única e suave: — A Noite, você é muito parecido comigo. Somos ambos egoístas, e para alcançar nossos objetivos não hesitamos em nada. Lembra do verão do terceiro ano? Que saudade... Costumávamos juntar cinco pessoas para comprar uma única garrafa de refrigerante, mas você sempre acabava ficando com a maior parte, sem esforço algum. Hahaha, A Noite, você sempre foi muito habilidoso!
Permaneci em silêncio. Sim, quando criança eu realmente gostava de tirar pequenas vantagens dos outros, mas eram apenas travessuras inofensivas. Então por que, de repente, me senti tão desprezível, tão culpado? Será que minhas atitudes eram mesmo iguais às de Mi Jingyun, sem diferença alguma? Senti um aperto doloroso no peito, cobri o coração com a mão e baixei a cabeça, abatido.
— Não! Não é verdade! A Noite não é como você! — gritou Zhang Lu, como se tivesse levado um grande choque, reagindo com emoção. — Pelo menos A Noite tem amigos, você não tem!
— É verdade! Amigos! Eu ainda tenho amigos! — uma luz pareceu acender diante de mim e ergui a cabeça de repente.
Vi Mi Jingyun sorrir friamente: — Isso é porque A Noite sabe representar muito bem, e ainda não percebeu que não precisa de amigos. Neste mundo existem apenas dois tipos de pessoas: os que estão acima e os que estão abaixo. Os de cima não têm amigos, apenas pessoas que podem usar. A Noite está destinado a ser um deles.
— Mentira, você não entende A Noite — Zhang Lu rebateu com dureza, fitando-a nos olhos. — Essa história de gente de cima e de baixo é só a sua visão distorcida. Você só quer forçar suas opiniões sobre ele, mas na verdade não entende nada.
— Eu não entendo A Noite?! — Mi Jingyun pareceu surpresa, depois caiu na gargalhada, como se tivesse ouvido a maior piada do mundo. — Ora, eu o conheço melhor que ninguém, até melhor do que ele mesmo. Desde pequena, tenho estudado meu noivo, analisei sua personalidade, seus gostos, cada uma de suas expressões. Fiz de tudo para me adaptar ao que ele gosta, quero que ele sinta constantemente o meu amor. Dou tudo por ele, até a vida se for preciso! E até hoje, continuo mudando por causa dele.
Meu Deus, fiquei pasmo. Será possível que Mi Jingyun me ame tanto assim?
— Pare com isso! — Zhang Lu estava furiosa, avançou para Mi Jingyun e apontou para ela, gritando: — Não importa quanto você mude, A Noite nunca vai gostar de você! Ele mesmo me disse que te detesta, que tem medo de você! O que você faz está errado!
Mi Jingyun ficou atônita, olhou para mim docemente e perguntou: — É verdade? A Noite, você realmente nunca vai gostar de mim, não importa o que eu faça por você? É isso?
Fiquei mudo, não assenti nem neguei.
O olhar de Mi Jingyun encheu-se de desespero, ela baixou a cabeça, abatida e silenciosa por um longo tempo, até que, de repente, lançou um olhar feroz a Zhang Lu e gritou, fora de si: — Foi você! Sua mulherzinha imunda! Se não fosse por você, A Noite não me odiaria. Ele é meu, não vou deixar ninguém roubá-lo de mim!
Mi Jingyun agarrou o pescoço de Zhang Lu com força. Pegando-a completamente de surpresa, Zhang Lu começou a tossir de dor, sufocada.
— O que você está fazendo?! — exclamei, tomado de pânico, correndo para tentar impedir.
Mi Jingyun gritou: — A Noite, não se aproxime! Ou pulo com ela daqui!
Imediatamente parei, amaldiçoando mentalmente minha incapacidade de pensar em uma solução. Zhang Lu tossia cada vez mais, o rosto contorcido de dor, tentando em vão abrir a boca para dizer algo, mas nenhum som saía.
Mi Jingyun sorriu para mim, encantadora: — Espere, A Noite, em breve estaremos juntos para sempre. Não vou mais me separar de você!
— Eu também quero ficar com você! — respondi, desesperado, o suor frio escorrendo pelo rosto. — Mas você sabe o que está fazendo agora? Está matando alguém, vai acabar presa!
— Não me importa, eu tenho que matar essa mulher! — disse Mi Jingyun, manhosa. — Senão você nunca vai me amar de verdade!
— Não! — sacudi a cabeça, em pânico. — Solte-a, está ficando louca?!
De repente, uma voz idosa soou atrás de mim: — Ela não é mais ela, já foi possuída por este prédio.
Olhei assustado para trás: era Wang Chengde.
Ele fez um sinal de cabeça, murmurando: — Agora não é hora de explicações. Tente chamar a atenção daquela menina, eu vou dar a volta por trás e puxá-las de volta.
— É muito perigoso, eu deveria ir! — protestei, segurando-o.
O velho fixou-me com um olhar severo: — Eu, com esses ossos velhos, não chamo atenção nenhuma. Este prédio só consegue manipular os desejos humanos, por isso só você pode distraí-la. E, além disso... não posso mais simplesmente ficar parado vendo aquela coisa agir como quer!
— Tenha cuidado! Velho, não morra antes de contar a verdade pra mim! — pedi, sem alternativa.
Assenti, me virei para Mi Jingyun e gritei: — Xiaojing, lembra da nossa infância? Você era muito adorável naquela época. Sempre tão doce, tão bondosa, ao andar na rua olhava cuidadosamente por onde pisava, sem querer ferir nem uma formiga. Eu gostava tanto de você assim. Mas não sei quando você mudou, mudou de um jeito que não entendo mais. Por quê? Pode me dizer o que te fez mudar?
Mi Jingyun ficou confusa, esforçando-se para recordar, até que me sorriu: — Foi por sua causa.
— Eu?! — apontei para mim, espantado.
— Sim — disse ela, nostálgica. — Foi no terceiro ano da escola primária. Nossas famílias eram muito pobres. Um dia, fomos pegar gafanhotos para alimentar as formigas, e você me perguntou: “Xiaojing, entre as formigas e nós, quem é mais inferior?”
“Claro que somos nós”, respondi sem hesitar. Você piscou e disse: “Então por que as formigas têm sempre uma casa, e nós somos expulsos de toda parte, sem um lugar para ficar?”
“Papai diz que é porque não temos dinheiro.”
“Dinheiro? É tão importante assim? Como conseguimos dinheiro?”
“Papai diz que, sendo alguém importante, se tem dinheiro”, hesitei.
Você me olhou decidido e disse: “Quando eu crescer, vou ser alguém importante, vou ganhar muito dinheiro, para que papai e mamãe não sofram mais.”
Foi a partir daquele dia que percebi que a distância entre nós só crescia. E comecei a mudar, a tentar te alcançar!
Meu Deus! Aquilo foi só uma frase solta, e acabou sendo o motivo da transformação dela!
Fiquei ali parado, fitando-a, percebendo que ela realmente me amava tanto, enquanto eu a tinha duvidado, evitado, até desprezado. Eu, que desgraça…
— Me perdoe — murmurei, abaixando a cabeça. — De verdade. Eu te entendi mal.
Mi Jingyun ficou espantada, e de repente abriu um sorriso radiante em meio às lágrimas, emocionada: — A Noite, é a primeira vez que você me pede desculpas. Estou tão feliz! Tudo bem, eu vou te ouvir, vou soltá-la.
Ela afrouxou as mãos e empurrou Zhang Lu, que caiu de joelhos, ofegante e exausta. Suspirei, aliviado.
Ao relaxar, olhei sem querer para o lado esquerdo de Mi Jingyun e, de repente, fiquei tenso de novo. Wang Chengde se aproximava dela cuidadosamente, e embora eu tentasse disfarçar, não consegui enganá-la.
Mi Jingyun virou-se subitamente, ficando lívida. Seu rosto se contorceu de raiva: — A Noite, eu confiava em você, e você me traiu de novo! Se você não é leal, eu também não serei! Se for preciso, morremos juntos!
Ela estendeu a mão para agarrar Zhang Lu, mas Wang Chengde lançou-se rapidamente sobre ela.
Tudo aconteceu num piscar de olhos: Mi Jingyun perdeu o equilíbrio e caiu para trás, agarrando reflexivamente Wang Chengde, que também caiu junto, arrastado por ela…
— Não! Não! — gritei correndo para segurá-los, mas já era tarde.
Mi Jingyun despencava, mas ainda conseguiu sorrir docemente: — A Noite, não vou deixar você sozinho. Mesmo como fantasma, vou te seguir para sempre…
Fiquei parado, com a mão estendida, incapaz de me mover. O vermelho, misturado a lágrimas, escorreu diante dos meus olhos…