Capítulo Trinta e Nove - A Busca
— Noite Silenciosa, você acordou?
Quando recuperei a consciência, um doce eufórico tom de voz chegou aos meus ouvidos. Sacudi a cabeça com força e abri os olhos.
A luz do sol do lado de fora era intensa, e na névoa branca e ofuscante vi Shiá Huang me observando com expressão ansiosa. Fitei-a, atônito, e só depois de um longo momento perguntei:
— Como você me chamou agora?
— Noite Silenciosa — respondeu ela, sem a menor cerimônia.
— Você me chamou de Noite Silenciosa? Não me chamou de Noitinha? Meu Deus, finalmente estou de volta!
Num ímpeto de alegria, abracei-a, quase pulando de felicidade. Shiá ficou imediatamente tensa, o corpo rígido se movendo levemente em meus braços. Só então percebi que havia exagerado e, apressado, afastei-me. Bastaram aqueles poucos segundos para deixar seu rosto ruborizado. Ela permaneceu sentada, imóvel, olhando para mim com olhos que mesclavam censura e alegria, sem saber se estava irritada ou contente.
Tosse discretamente, também corado, e perguntei:
— E onde está aquela danadinha da Yao Jia?
Shiá, igualmente corada, murmurou:
— Ela não apresentou nenhum dos sintomas que temíamos. Assim que acordou, já estava pulando de energia, como se nada tivesse acontecido.
— Que bom! — Ergui levemente a cabeça e pedi: — Por favor, chame o Jaime, preciso discutir algo com vocês.
Dez minutos depois, Jaime e Yao Jia chegaram.
— Quanto tempo fiquei inconsciente? — perguntei primeiro.
— Hoje é o terceiro dia — respondeu Shiá, brincando nervosamente com os dedos e evitando olhar para mim. — Assim que você desmaiou, aquele boneco desapareceu. Yao Jia também voltou ao normal. Mas, depois que te levamos para casa, você não acordava de jeito nenhum. Então chamamos uma ambulância e trouxemos você para o hospital.
Olhei ao redor daquele quarto claro e confortável, depois para o tubo de soro ligado ao meu braço:
— Então, isto é um hospital... Yao Jia...
— Já sei o que vai perguntar — ela me interrompeu rapidamente. — Vou confessar. Depois que minha irmã sofreu o acidente, encontrei aquele boneco entre seus pertences. Bastou um olhar para me sentir completamente atraída por ele. Mesmo o rosto estando todo riscado, eu inexplicavelmente o achava belo e queria tê-lo só para mim. Então, escondi de meus pais e fiquei com ele. Agora sei que aquilo não prestava mesmo. Não é de admirar que, depois de tê-lo, eu vivia com sono.
— E o Jon e o Davi...? — Comecei a perguntar sobre os dois que morreram por causa da maldição do boneco, mas Jaime imediatamente tossiu alto, sinalizando discretamente para que eu não prosseguisse. Percebi então que Jaime e os outros não haviam contado à Yao Jia que talvez ela, sob o controle do boneco, tivesse amaldiçoado Jon e Davi. E, de fato, ela era só uma vítima; não havia razão para machucá-la ainda mais.
Mudei de assunto:
— Vocês sabem para onde fui enquanto estive inconsciente esses três dias?
Todos ao meu redor balançaram a cabeça.
Sorri de leve, amargo:
— Fui para o mundo da alma daquele boneco.
— Mundo da alma do boneco? — Os três ficaram boquiabertos de espanto. Yao Jia franziu a testa:
— Bonecos têm alma?
— Claro que sim — respondi. — Estudiosos do ocultismo dizem há muito tempo que, se uma pessoa dedica emoção suficiente a um objeto — seja amor ou ódio intensos —, a energia depositada pode ultrapassar um certo limite, dando a esse objeto uma alma própria. E, dizem ainda, objetos com forma humana, como bonecos, têm ainda mais facilidade para desenvolver consciência e alma.
— E como é esse mundo da alma do boneco? — Jaime, fascinado pelo sobrenatural, logo se interessou.
— É um lugar estranho. Pensei muito e só consigo descrevê-lo como mágico. Lá, minha vontade foi despedaçada repetidas vezes, quase enlouqueci. Sinto-me aliviado por ter conseguido voltar vivo.
Recordando com medo, continuei:
— No mundo dela, tudo girava em torno de sua visão sobre os humanos, seus laços. No fim, finalmente entendi o motivo de seu ódio.
— Não era porque o milionário matou sua dona e ela queria vingança desesperadamente? — Shiá perguntou em tom baixo.
Balancei a cabeça:
— Sempre assumimos isso e foi essa a linha da minha investigação. Mas, no fim, percebi que estava redondamente enganado. Na verdade, depois de amaldiçoar e matar o milionário, seu ódio desapareceu. Foi substituído por uma obsessão.
Jaime perguntou, intrigado:
— Se não havia mais ódio, por que ela matou Jon e Davi? E por que amaldiçoou todos os descendentes do milionário na cidade?
— É simples — respondi, com um traço de compaixão nos olhos. — Mais de cem anos de espera a deixaram inquieta, à beira da loucura. Quem sabe o que se passa no coração de um boneco? Talvez matasse para chamar a atenção de alguém, ou apenas para tentar acalmar a ansiedade. Mas quanto mais esperava, quanto mais matava, mais impaciente e atormentada ficava. Até mesmo o antigo ódio pelo milionário começou a ressurgir e se intensificar. E assim ela continuava matando, tentando aliviar sua dor.
— Mas, afinal, qual era sua obsessão? O que ela queria? — Shiá franziu ainda mais a testa.
— Para nós, humanos, seu desejo era simples, quase trivial. Mas, para ela, era um sonho inalcançável.
— Que laço era esse? — perguntou, ansiosa.
Parei um instante, depois ergui os olhos e encarei os três:
— Ela queria ser esposa do ministro dos bonecos.
— O quê?! — Shiá Huang, Jaime e Yao Jia exclamaram, incrédulos.
Nesse momento, a porta do quarto foi escancarada e Marcos entrou ofegante.
— Há vinte minutos, todos na cidade desmaiaram de repente e não acordam de jeito nenhum, igualzinho ao que aconteceu com você, Noitinha — disse, surpreso ao me ver sentado na cama.
— Todos desmaiaram? É como aquela epidemia de dias atrás? — Jaime agarrou o braço de Marcos, nervoso.
Marcos tomou de um gole a água na cabeceira:
— Não, desta vez foi literalmente todo mundo. Só os membros do Clube Sobrenatural do Colégio Seattle parecem não ter sido afetados. O pessoal do DCP já está indo pra cidade cuidar disso.
Bufei e saltei da cama:
— Aquela coisa realmente tem poder; está usando a cidade inteira como refém.
— O que você quis dizer com isso? — Jaime perguntou, confuso.
— Temos que sair deste hospital agora, antes que o DCUI resolva nos isolar. — Vesti-me apressadamente, explicando: — O boneco nos deu três dias. Se não conseguirmos realizar seu desejo até lá, temo que todos na cidade — inclusive nós — vão parar no céu.
Suspirei profundamente, olhando o céu azul e sem nuvens pela janela, e disse com serenidade:
— Só não sei se o Deus daqui vai aceitar um ateu e canalha como eu.