Capítulo Oito – Parte Um
Lembro-me de que certa vez um renomado pensador disse que não existem mistérios insolúveis neste mundo; tudo depende de como você os encara. Talvez a resposta esteja bem ao alcance de nossas mãos.
Antigamente, esta era a minha máxima, mas depois que joguei o jogo do copo com Xue Ying, Zhang Wen, Urso, Pato e mais uma pessoa, comecei a duvidar da veracidade dessa frase.
Eventos estranhos e inexplicáveis passaram a acontecer cada vez com mais frequência ao nosso redor. Pato desapareceu, e o choro de bebê durante a noite, que há anos não se ouvia perto do quiosque, voltou a ressoar todas as noites, de forma lúgubre, ecoando pelos corredores e quartos do dormitório, deixando todos assustados; alguns, inclusive, já não suportavam mais e decidiram se mudar.
Sempre que ouço o choro do bebê vindo na calada da noite, é claro que também sinto medo. Contudo, por mais assustador que seja, há algo que preciso fazer.
Às onze da noite, evitei cuidadosamente o zelador do dormitório e saí de fininho do prédio. Xue Ying já me aguardava na esquina.
— Por que me chamou para sair tão tarde? — perguntou ela, ansiosa, sem que eu soubesse o que se passava em sua cabeça.
Olhei ao redor e disse em voz baixa: — Lembra daquela história que o líder dos calouros, Lu Ying, contou? Ele disse que, na manhã seguinte à busca pelo corpo do bebê com Pato, voltou ao bosque de cânforas e viu um saco azul na árvore branca que haviam cavado. Quero saber se isso é verdade!
O rosto de Xue Ying mudou de cor imediatamente. — Você está pensando em ir ao quiosque agora? Nem pensar! Que medo! Xiao Ye, você enlouqueceu? Por que não vamos de dia? Com a luz do dia, seria muito mais fácil encontrar qualquer coisa.
— Sua boba! — belisquei seu nariz com força. — Você acha que eu gosto de me enfiar naquela floresta sombria e assustadora, de madrugada, para escalar uma árvore branca altíssima? O campo da escola é pequeno, de dia passa muita gente por lá; se eu tentasse subir na árvore, não chegaria nem à metade antes de ser levado ao gabinete do diretor!
— Tá bom, tá bom, admito que falei besteira… — Xue Ying massageou o nariz, magoada. — Mas de que adianta eu ir com você? Eu nem sei subir em árvore.
— Não espero que você suba, só quero que fique ao meu lado — respondi, desdenhosa.
Xue Ying soltou um “ih” e, arregalando os olhos, fez uma expressão de súbita compreensão. — Já entendi, Xiao Ye está com medo de ir sozinho! Hahaha, então até você, que finge ser sério e destemido, também sente medo!
Lancei-lhe um olhar fulminante, embaraçado por ter meus sentimentos desmascarados. — Se não quiser ir, fique — disse, apressando o passo à frente.
Xue Ying correu atrás de mim, segurou meu braço e falou mansinho: — Tá bom, eu vou com você, mas não fique bravo comigo!
Após atravessarmos o campo, caminhamos uns cem metros até o quiosque diante do bosque. Dizem que ele é muito antigo, com mais de duzentos anos de história.
A base do quiosque é bem alta; quando a vi pela primeira vez, com quase dois metros de altura, achei estranho. Não pelo formato em si, mas pelo material utilizado. As grandes pedras e o solo arenoso servem normalmente para construir represas e diques. Não é impossível usar para outra coisa, mas num quiosque de madeira para descanso, aquilo parecia fora de lugar, destoante.
A noite estava densa, sem estrelas, sem lua; apenas a fraca luz amarelada dos postes de rua, derramando uma claridade opaca e opressora, iluminava timidamente o chão ao redor.
O bosque ao sul, sob esta luz, parecia ainda mais sinistro e ameaçador. Os galhos das árvores balançavam ao vento norte, produzindo um som seco e monótono, quase irritante.
Xue Ying, que já estava colada a mim, estremeceu e se apertou ainda mais, quase grudando em mim por inteiro.
Senti duas formas macias pressionando meu braço. Fiquei envergonhado, mas também confortável demais para afastar, então apenas pigarreei e me forcei a observar o entorno, tentando desviar a atenção do meu braço.
Ao norte do campo havia um caminho que levava ao velho quiosque.
Normalmente, das seis e meia da manhã às nove da noite, o quiosque era dominado pelos veteranos do ensino médio, que justificavam a exclusão dos calouros com o argumento de que precisavam de um lugar tranquilo para estudar biologia e se preparar para as provas.
Mas todos sabiam que, na verdade, eles aproveitavam o local para namorar, ou, às vezes, para experimentar intimidades com o sexo oposto.
Eu detestava esse segredo de polichinelo, e naturalmente evitava a área. Nunca imaginei que um dia entraria ali às escondidas, no meio da noite.
Ah! A vida é imprevisível; mal sabia eu que logo experimentaria isso na prática.
Subimos devagar ao quiosque. Xue Ying olhava curiosa em volta.
— Que lugar sujo! Será que algum turno é responsável pela limpeza daqui? — comentou, afastando uma folhagem e acendendo uma lanterninha para observar, divertida, as declarações de amor entalhadas nos pilares.
— Uau! Que incrível! Nossos veteranos são mesmo liberais! — exclamou, animada, beliscando meu braço.
Fiquei sem saber se ria ou chorava, puxando suavemente seus cabelos longos. — Você parece ter esquecido completamente o motivo de estarmos aqui!
— Não esqueci nada — respondeu, sem tirar os olhos dos pilares, absorta. — É uma oportunidade rara; quase nunca venho aqui, então vou aproveitar e olhar tudo. Amanhã tenho assunto para conversar com as amigas.
— Vocês, meninas, são mesmo fofoqueiras… — suspirei, resignado, e me afastei em direção ao bosque ao lado direito do quiosque. Foi quando ouvi um “ih” estranho de Xue Ying.
— Xiao Ye, venha ver isto!
Ela estava pálida, virou-se para mim e gritou.
— O que foi? Não gosto de bisbilhotar a vida dos outros — resmunguei, curvando-me com má vontade para ver o que ela apontava.
“Não quero deixá-lo, não quero que ele mude de ideia. Mesmo que eu morra, quero amá-lo para sempre…” O nome ao final havia sido riscado com força por uma faca.
Não era nada surpreendente, apenas uma declaração comum, um desejo de uma jovem. Ela gostava de um rapaz e queria que ele ficasse ao seu lado para sempre, e também desejava ser a única amada por ele.
Olhei para Xue Ying, surpreso, e perguntei:
— Não vejo nada de estranho nisso…
— A frase em si é comum, mas o importante está aqui — disse ela, apontando para uma linha abaixo, escrita em letras miúdas.
Aproximando-me, li em voz baixa: “Primeira Escola Secundária da Vila Xuequan, deixado por Li Ping.” Também não achei nada de especial.
Prestava-me a reclamar de sua histeria, quando de repente um pensamento estranho me atravessou a mente, deixando-me completamente paralisado.