Capítulo Setenta e Três: A Dama Fantasma

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 3704 palavras 2026-02-09 16:19:42

Eu sabia muito bem o que era um fantasma de cadáver flutuante. Diz a lenda que, quando alguém se suicida jogando-se no rio e morre afogado, se ainda guarda ressentimento antes de morrer, transforma-se nesse tipo de espírito. Elas vagam pelo local onde morreram, procurando por pessoas errantes à beira do rio para tomar como substitutas.

Claro, há quem conte de outra forma aqui na região; alguns acreditam que o ressentimento tem endereço certo, que esses fantasmas buscam apenas quem as levou ao desespero do suicídio. Dou risada desses contos, mas o medo é algo que todos sentem, pouco importa o quanto sejamos racionais.

A Vila da Montanha Negra é pequena, com pouco mais de setecentos habitantes, mas carrega uma longa história, razão pela qual ainda mantém costumes exóticos que desapareceram nas grandes cidades. Caminhar por suas ruas de pedra marrom dá uma sensação estranha, como se eu tivesse sido transportado para outro mundo, o que é bastante aprazível.

Comovido, olhei para trás. O crepúsculo invernal tingia o céu de vermelho sangue. Os últimos raios do sol poente, solitários, banhavam as ruas por onde eu passava, esticando minha sombra longa e delgada. Que imagem fantástica! É justamente por sensações como essa que gosto de viajar, de experimentar a novidade que um lugar desconhecido pode trazer.

A Sexta Rua da Vila da Montanha Negra fica no lado leste. Não demorou para chegar. Contei os números das portas até encontrar o número quinze: uma grande casa de madeira de três andares, antiga e cheia de charme local.

Bati na porta fechada, mas esperei em vão. Estava prestes a colar o ouvido nela para escutar algum som quando, com um rangido, a porta se abriu.

Perdi o equilíbrio e caí para frente, batendo contra algo macio, sentindo um perfume delicado e adocicado, como sândalo ou osmanthus.

— Ah! Desculpe! — exclamei, recolhendo rapidamente as mãos e, vermelho de vergonha, dei alguns passos para trás.

Levantei a cabeça, ansioso por ver quem era a dona daquele corpo exuberante, mas então uma voz rouca e chorosa de mulher de meia-idade veio do interior da casa:

— Wen Yi, quem está aí fora? Se for hóspede, diga logo que não estamos recebendo ninguém. Ah, que desgraça...

O tom de tristeza era impossível de disfarçar.

— Não é ninguém, só um enxerido. Deixe comigo, já vou me livrar dele.

A moça contra quem eu trombei tinha uma voz doce, mas rouca, como se tivesse chorado, e um leve tom de impaciência. Parecia-me familiar, como se já a tivesse ouvido em algum lugar.

Antes que eu pudesse encará-la, ela pegou uma vassoura e começou a me bater, sem dó nem piedade.

Mas o que estava acontecendo comigo? Desde que cheguei a esta vila, só passo por apuros. Será que é verdade aquele ditado: “melhor se enforcar do que encontrar um fantasma”? Que, ao topar com um, a má sorte nunca mais nos abandona?

— Para, para! Já chega! — protestei, agarrando a vassoura, irritado. — Eu não fiz por querer! Você nunca ouviu falar que quem não sabe de nada não tem culpa?

A moça soltou um “hã?” e me examinou com espanto.

— Ah, é você! — ela exclamou, de repente reconhecendo-me. — Você é aquele idiota que, hoje à tarde, ficou dizendo que eu ia me suicidar no rio!

— Idiota é você! — rebati, sacudindo o pó da roupa, olhando para a garota grosseira.

Mas, ao fitá-la, fiquei paralisado de medo, o rosto branco feito cera. A jovem de rosto corado que estava diante de mim não era a mesma aparição que eu vira flutuando no rio à tarde?

— Fantasma... fantasma! — gritei, com a voz trêmula, fugindo dali e abandonando toda a racionalidade que me era tão cara. Em momentos assim, o instinto sempre fala mais alto.

— Canalha! Como pode dizer que uma bela moça como eu parece com um fantasma? Volte aqui e explique-se! — berrou a garota, correndo atrás de mim.

— Não se aproxime! Eu sou tolo, mesquinho e traiçoeiro, não sirvo nem para o inferno nem para o céu, não presto para ser fantasma substituto! Se quiser, da próxima vez indico outro, bem certinho!

— Idiota, não quero saber! — retrucou ela.

A raiva da suposta fantasma só aumentava.

Sorrindo nervosamente, tentei apaziguar: — Um não basta? E se forem dois? Ainda não está satisfeita? Ei, já ouviu falar em querer demais?

— Chega! Só porque te dei um pouco de confiança, já pensa que pode abusar! — Ela se aproximou, agarrou-me pela gola e gritou: — Olhe bem para mim! Veja se pareço um fantasma! Onde já se viu um fantasma tão bonito quanto eu?

Que vaidade assustadora!

Tentei sufocar o medo que quase me fazia o coração saltar pela boca e abri lentamente os olhos.

O rosto delicado da moça estava a três centímetros do meu. Seu peito arfava pelo esforço da corrida, pressionando-se suavemente contra o meu. Eu podia sentir o calor de seu corpo e um suave aroma de orquídea tocava meu rosto.

Espera... ela respira? Então não é fantasma?

Meu Deus! Que vergonha...

Meu nome, Noturno, está arruinado para sempre. Logo eu, que sempre me orgulhei de ser tão racional, acabo acusando uma jovem frágil de ser fantasma e ainda caio em pânico diante dela. Se meus amigos souberem disso, vão rir até morrer.

Já posso imaginar Shen Ke segurando a barriga, apontando para mim e quase desmaiando de tanto rir.

— O que foi, ficou mudo? — a garota insistiu, sem piedade.

— Você é... humana — respondi, constrangido.

— E além disso? — ela continuou, pressionando.

— Uma bela moça.

— E mais?

Não acredita! Ainda não se deu por satisfeita?

Sério, não sei de que é feita essa vaidade toda, só pode ser tão profunda quanto a Fossa das Marianas.

— E... bem, seu peito é grande! — disse, desviando os olhos.

Só então ela percebeu o quão embaraçosa era a posição em que estava.

— Tarado! — gritou, esbofeteando-me e recuando, vermelha de vergonha.

— E eu com isso? — reclamei, enxugando o rosto, sentindo-me injustiçado.

Com o rosto ainda rubro, ela lançou-me um olhar furioso:

— A culpa é toda sua! Se não fosse você com suas bobagens, eu não teria ficado tão nervosa, e nada disso teria acontecido... como vou me casar agora?

— O quê? E a culpa é minha?

De repente, percebo que virei protagonista de uma comédia de idiotas.

Perante uma moça teimosa como essa, a inteligência não vale de nada. É como dizem: diante da força bruta, argumentos não servem para nada. Melhor não discutir com mulheres irracionais, senão, no fim, não saio nunca mais da Vila da Montanha Negra.

— Bem, se você não contar e eu não contar, ninguém saberá. Acho melhor nos despedirmos... para nunca mais nos vermos! — e tratei logo de ir embora.

Ela segurou minha mochila:

— Você não é daqui, não é?

— Parece que sou daqui? — respondi, irritado.

— Claro que não. Aqui todo mundo é inteligente, não temos idiotas como você. — Sorriu, misteriosa. — E já escureceu. Acho que, querendo ou não, não vamos nos despedir tão cedo.

— Por quê?

Franzi o cenho. Só porque, por acaso, encostei no peito dela, agora vai querer que eu me responsabilize?

Ela continuou puxando minha mochila e caminhando à frente:

— Só existe uma hospedaria na vila, a da minha família. Os moradores daqui não são antipáticos, mas temos uma tradição: não se aceita hóspedes em casa. À noite, ninguém vai te acolher! — Virou-se e sorriu brilhante: — Então, se não quiser dormir na rua, acho melhor esquecer esse papo de despedida por enquanto.

— O primeiro andar é para a família. O segundo e o terceiro são para hóspedes. Agora é baixa temporada, então estão todos vazios, pode escolher qualquer quarto. O banheiro fica no fim do corredor de cada andar, água quente vinte e quatro horas. A diária é trezentos por noite, saída ao meio-dia do dia seguinte; se quiser ficar mais, avise antes.

— Servimos três refeições, mas como estamos com problemas em casa, você comerá conosco, não teremos cozinha separada, então não precisa pagar por isso. Fui clara? Alguma dúvida? — Ela tagarelava enquanto preenchia um recibo e me entregava.

— Só uma — disse, dando-lhe o dinheiro. — Qual seu nome?

Ela apoiou o rosto na mão e resmungou:

— Você sempre pergunta o nome da filha do dono das hospedarias onde se hospeda?

— Sim, é um hábito meu. Chamar pelo nome é melhor do que dizer “fantasma”.

Ela resmungou, quase inaudível:

— Me chamo Zhang Wen Yi.

— Prazer, Noturno. — Esfreguei a mão na roupa e estendi-a, mas ela me deu um tapa.

— Prazer nenhum! Não tenho educação suficiente para apertar a mão de quem me chamou de fantasma.

— Mas houve um motivo... — sorri sem graça. — Logo depois que te encontrei, vi uns sujeitos estranhos pescando algo no rio. Acabaram tirando de lá um corpo de mulher, com o mesmo porte e roupa que você, e...

Agarrei seu pulso esquerdo, mostrando a pulseira de jade branco.

— E ela também usava uma pulseira idêntica à sua.

O ambiente ficou pesado.

Ao levantar a cabeça, vi Zhang Wen Yi tremer dos pés à cabeça. Pálida, agarrou minha gola, gritando:

— O quê? Você diz que ela tinha uma pulseira igual à minha? Tem certeza?

Assenti.

— Não! Não pode ser... Minha irmã morreu! Ela morreu mesmo! —

Zhang Wen Yi chorava, gritava, o rosto tomado pela dor. Socava-me com força, lágrimas rolando pela sua face bela, até que, de repente, jogou-se em meus braços, chorando ainda mais forte.

Então, o corpo no rio era sua irmã.

Sim, Zhang Xiu Wen também era da Vila da Montanha Negra, também se chamava Zhang. Sempre achei que ela e Zhang Wen Yi se pareciam um pouco. E, numa vila tão pequena, Zhang é um sobrenome comum, talvez...

Sacudi a cabeça, decidido a jamais dizer isso em voz alta, mesmo que fosse verdade. Não sei porquê, mas meu pobre coração sentiu uma compaixão imensa por essa garota que só me trouxe embaraço e dor de cabeça.

A morte de uma irmã já era tragédia suficiente. Se Zhang Xiu Wen fosse mesmo sua irmã, ela choraria até sangrar os olhos. E, para ser sincero, meus ombros frágeis não aguentariam levá-la à dor novamente.