Capítulo Noventa: Cadáveres na Rede

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 2218 palavras 2026-02-09 16:20:39

— Segundo filho, por que será que a primeira rede da manhã está tão pesada hoje? — Na margem do rio ao amanhecer, um velho pescador segurava a rede com as duas mãos e perguntou, intrigado, ao filho.

— Pai, ultimamente este rio anda impuro. O tio da casa ao lado encontrou um cadáver na rede há poucos dias.

— Cruz credo, que má sorte! Aqui em casa temos a proteção dos espíritos, jamais atrairíamos essas coisas sujas — disse o velho, cuspindo várias vezes no rio.

— Proteção dos espíritos? Se realmente fôssemos protegidos, precisaríamos levantar tão cedo para pescar? — resmungou o filho, baixinho.

— Moleque, que bobagem é essa? Venha ajudar logo! — O velho pescador deu um chute no filho.

O rapaz, de pouco mais de vinte anos, esfregou as nádegas, resignado, e foi ajudar o pai a puxar a rede.

— O que é isso? Um negócio enorme e escuro — exclamaram, curiosos, ao desfazer a rede e virar o embrulho do tamanho de uma pessoa. Bastou um olhar para que o terror subisse-lhes dos pés à cabeça; pai e filho recuaram em pânico, até que não aguentaram e começaram a vomitar...

Na manhã seguinte, parti de Vila da Montanha Negra com meu primo. Passei três dias em casa me recuperando, mas mesmo no repouso não permiti que o tempo se perdesse. Usei todos os artifícios, quebrei a cabeça, inventei meios e truques até quase enlouquecer meu primo, mas finalmente consegui os dados de que precisava. Assim, na tarde do terceiro dia, marquei encontro com Shen Ke e Xu Lu numa cafeteria.

— O enigma está praticamente resolvido — contei a eles, detalhando tudo que acontecera durante minha ida à vila. Mexendo o creme com a colher, continuei:

— Então você descobriu por que Li Shuren viveu mais de oitenta anos e ainda assim manteve a aparência de quando tinha vinte e quatro? — Xu Lu perguntou, ansiosa.

Sorri, zombeteiro:

— As moças têm mesmo tanto medo de envelhecer? Mas aconselho que não tente, mesmo sem saber o método exato, creio ter entendido o essencial. — Baixei a voz e disse, pausadamente: — É por causa da Caixa Negra. Li Shuren provavelmente, há mais de sessenta anos, adquiriu dela algum poder misterioso.

— Caixa Negra? O que é isso? — Shen Ke perguntou, intrigado, até que de repente exclamou: — Já me lembrei! Não seria aquele estranho estojo de ferro preto, com inscrições da Era Showa, que você encontrou na maldita casa assombrada, há uns seis meses?

— Exatamente. No porão do hotel, encontrei outro idêntico, num túnel secreto. Lembram do incidente da casa assombrada? Aquela florista, depois de violentada por Lu Ping, foi esquartejada e os restos escondidos em cinco prédios em construção. Uma tragédia que gerou outras, pois nesses mais de oito anos, sob a influência da Caixa Negra, o ódio da florista matou mais de cento e quarenta pessoas.

— O estranho é que todas as vítimas, de algum modo, tinham relação direta ou indireta com maçãs, e neste caso foi igual: há trinta anos, a camponesa otimista da vila dormiu durante anos no quarto onde a caixa estava enterrada, sem nada lhe acontecer. Mas bastou mudar a cama para ficar de frente à porta, e sete noites depois atirou-se ao rio, transformou-se num morto-vivo e matou todos que um dia odiou. O que ocorreu a Zhang Xueyun foi idêntico, só que nem teve tempo de se suicidar, pois foi assassinada por Qi Wei.

Ao lembrar do que vivi naquele túnel da encosta, ainda sinto um frio na espinha.

— Por isso concluo que o poder misterioso da Caixa Negra só se ativa sob certas condições!

— E aquele desgraçado do Qi Wei, que fim levou? — Xu Lu rangeu os dentes, indignada, pois as moças costumam ter forte senso de justiça e pensar que o malvado seguia impune a deixava furiosa.

Recostei-me, respirando fundo:

— Xiao San me telefonou ontem à noite. Pela manhã, dois pescadores encontraram o cadáver dele no rio. Aquela raposa ardilosa morreu de modo estranho.

Sentei-me ereto, fitando os dois nos olhos:

— Foi puxado para a água e morto por asfixia. Uma retribuição divina, sem dúvida. Conseguem imaginar o que o arrastou? O cadáver de Zhang Xueyun, queimada a gasolina, quase só ossos e carvão. Segundo Xiao San, os membros ossudos de Zhang Xueyun agarravam com força mãos e pés de Qi Wei, e sua cabeça já penetrara o abdômen dele. O ferimento ali era denteado, provavelmente mordido por ela; a carne despedaçada, e ao tocar o corpo, as entranhas escorriam todas.

— Céus! Que horror! Melhor não cometer muitos pecados neste mundo — Shen Ke comentou, solene como um velho.

Dei-lhe um pontapé por baixo da mesa.

— Resta uma dúvida: você não estava investigando o assassinato de Zhang Xiuwen e Li Shuren? Descobriu afinal quem os matou? — Xu Lu perguntou, séria.

— Não morreram de causas naturais, mas tampouco foram mortos por alguém comum. Foi a Caixa Negra — reuni as pistas em minha mente antes de explicar: — Para que entendam melhor, vou começar por Li Shuren.

— Ontem, com meu primo, consegui muitos dados sobre ele. Li Shuren voltou do Japão para a China há mais de sessenta anos. Sempre foi enigmático, mudando frequentemente os registros civis por meios misteriosos. Jamais ficava muito tempo num só lugar, por isso ninguém notou que não envelhecia. Mas uma coisa é certa: embora a Caixa Negra lhe desse juventude sem fim, trouxe também um efeito colateral gravíssimo!

— Efeito colateral? — repetiu Shen Ke, confuso.

— Sim, pesadelos! Terríveis pesadelos! Por maior força de vontade que alguém tenha, ninguém resiste a tormentos noturnos constantes. Li Shuren era apenas um homem comum agraciado com juventude e longevidade, mas não suportava, e por isso passou a buscar uma solução.

— Então, chegou à Vila da Montanha Negra e, por acaso, descobriu que dormindo com os pés voltados para a porta, os pesadelos cessavam. Por alguma razão, escondeu a Caixa Negra japonesa num profundo túnel natural e partiu. Até que, vinte e cinco anos depois, retornou à vila, e com espanto percebeu que o túnel ficava exatamente sob o porão de uma nova hospedaria.

— Para facilitar, alugou por cem anos o porão e o quarto mais ao fundo do terceiro andar, e cavou dali um acesso ao túnel. Dois anos atrás, voltou novamente, talvez para buscar ou guardar algo. Li Shuren regressou outra vez à Vila da Montanha Negra.