Capítulo Noventa e Cinco — O Casamento da Filha da Raposa (Parte Um)
Há muitos anos, li um conto chamado “O Casamento da Filha da Raposa”.
O livro narrava a história de um menino que, por acaso, presenciou o cortejo nupcial da raposa. Segundo as tradições daquela espécie, se um humano visse a noiva, ela jamais poderia se casar, a menos que matasse aquele humano. Porém, a bela jovem raposa, vendo que se tratava apenas de uma criança, permitiu que ele fosse embora. O menino, arrependido ao chegar em casa, decide partir numa viagem para encontrar a jovem raposa, pois queria dizer-lhe pessoalmente: “Desculpe-me”.
É fácil imaginar que o autor desse conto era um idealista, e é certo que jamais presenciou um casamento de raposas; do contrário, não teria escrito uma história tão repleta de imaginação e inocência infantil.
O casamento da filha da raposa só traz temor aos humanos!
Tudo ao redor estava silencioso. A chuva continuava a cair lá fora, tamborilando no beiral da casa. Não sei se devido ao cansaço, a garota adormeceu apoiada sobre meu peito.
Que tranquilidade estranha! O silêncio era anormal. As cigarras, que há pouco entoavam seu canto de verão, calaram-se de repente.
Névoa! Quando foi que começou a se formar?
Uma densa camada de vapor branco, quase viscosa, penetrou na casa, revolvendo-se diante dos meus olhos. Semicerrei os olhos, mas só conseguia enxergar a três metros de distância.
O silêncio tornou-se ainda mais profundo. Não, era o silêncio absoluto! Nem mesmo o som da chuva restava.
Meus ouvidos não captavam nenhum ruído; parecia que eu fora lançado num vácuo onde o som não podia se propagar. O desconforto era tanto que quase gritei desesperado.
De repente, o mundo inteiro começou a tremer, uma vibração silenciosa. Então, uma multidão de sombras negras surgiu da névoa à esquerda, marchando em procissão diante de mim, desaparecendo lentamente à direita.
Não sei quantos eram naquele cortejo; passou muito tempo até que algo semelhante a uma liteira, carregada por algumas sombras, se aproximasse.
Aquela liteira não se assemelhava em nada às figuras anteriores. Não importava o quanto eu me esforçasse, só conseguia distinguir silhuetas difusas entre as pessoas, mas com a liteira era diferente: pude ver claramente as gravuras esculpidas nela e também a pessoa sentada em seu interior.
Era uma garota, aparentando pouco mais de dez anos.
Vestia um quimono branco decorado com flores de cerejeira; os cabelos, presos cuidadosamente atrás da cabeça, eram sustentados por um pente de casco de tartaruga. Um véu nupcial branco cobria-lhe o cabelo e a maior parte do rosto.
Ainda que eu não pudesse distinguir suas feições, sentia uma estranha familiaridade, como se já a tivesse visto em algum lugar.
A menina deitada sobre mim apertou-me ainda mais, respirando ofegante.
Olhei para baixo e vi que ela mantinha os olhos cerrados com força, o rosto pálido e a testa coberta de suor frio.
Depois de um longo tempo, as sombras finalmente se dissiparam, a névoa começou a se dispersar e a luz pálida da lua atravessou a janela, banhando-nos suavemente. A garota ao meu lado moveu-se levemente e sentou-se.
— Aquilo era o casamento da filha da raposa? — perguntei, tentando acalmar meu coração disparado.
Ela ajoelhou-se, ruborizada, e assentiu com leveza.
— As noivas das raposas... são garotas humanas raptadas das redondezas?
— Sim... — Ela tentou sorrir, mas falhou, formando uma expressão estranha que, ainda assim, confirmava minha suspeita.
Bufei, irritado:
— Então aquelas sombras são demônios raposa!
A garota levantou a cabeça de súbito, fitando-me com pavor nos olhos grandes e belos.
— Você viu? — perguntou, ansiosa.
— Vi, sim — respondi, assentindo.
— Por que abriu os olhos? Quer morrer? — Sua voz era um misto de mágoa e leve indignação.
Cocei a cabeça, desdenhoso:
— Eles já passaram, e nem perceberam que eu estava espiando. Está tudo bem.
— Tudo bem? Está tudo muito longe de estar bem! — exclamou ela, levantando-se rapidamente e puxando-me pela mão em direção à porta. — Precisamos sair daqui agora, ou estaremos mortos!
— O que está acontecendo? — perguntei, confuso.
A garota estremeceu e deu alguns passos trôpegos para trás, quase caindo nos meus braços.
— Parece que já está tarde demais! — murmurou, apavorada, olhos fixos na janela.
Segui seu olhar e, de imediato, um calafrio percorreu-me a espinha, congelando meu coração.
Uma enorme sombra negra flutuava silenciosamente não muito longe da casa.
Não conseguia distinguir sua forma, mas senti claramente que ela me observava — como uma presa sob o olhar de um predador.
Meus joelhos começaram a tremer diante daquele ser sem olhos. Sem motivo racional, fui tomado por um medo intenso.
O terror vinha em ondas, investindo contra minha razão sem trégua.
Meu cérebro disparava sinais de perigo, implorando para que eu fugisse dali a qualquer custo.
A sombra então mostrou um sorriso monstruoso, aproximando-se da cabana enquanto ria baixinho.
Quando finalmente atravessou a janela, o terror absoluto acabou por me devolver a lucidez.
Gritei, agarrei um pedaço de lenha em brasa e lancei contra a sombra, puxando a garota pela mão e fugindo na direção por onde passara o cortejo da filha da raposa.
Não sei por quanto tempo corremos. A sombra continuava a nos seguir, calma e segura, como se tivesse certeza de que não escaparíamos de suas garras.
Depois de algum tempo, de repente me dei conta de que havíamos retornado à pousada onde nos hospedáramos naquela noite.
Não tive tempo para me alegrar; corri imediatamente para a sala, peguei o telefone para chamar a polícia, mas, não importava o que eu fizesse, só ouvia estática na linha.
Que coisa absurda!
Não era possível — será que também era obra daquele demônio raposa?
Malditos! Agora até esses monstros sabiam como perturbar a tecnologia?
Enquanto xingava, amaldiçoei desde o ancestral mais antigo das raposas, Tamamo-no-Mae, até o próprio santuário de Inari que cultuava os espíritos raposa. Tudo que tinha a ver com raposas foi alvo da minha fúria; a garota, ainda segurando minha mão, olhava-me espantada, sem acreditar que alguém pudesse insultar tanto e com tanto conhecimento de causa.
O ser humano é mesmo estranho: quando o cérebro percebe que está encurralado, decide automaticamente se desmaia ou continua agindo por instinto.
O instinto é igualmente curioso: quando perdidos, a maioria das pessoas aterrorizadas tende a virar sempre à esquerda; já quando perseguidos e tomados pelo pânico, quase todos se trancam em algum espaço fechado, sem se importar se aquele lugar realmente oferece proteção.
Talvez o pânico faça o instinto acreditar que todo espaço fechado transmite segurança!
Mesmo alguém inteligente como eu não escapou a esse impulso.
Eu e a garota nos refugiamos no quarto onde eu estava hospedado, a bagagem ainda arrumada ao lado do travesseiro.
Sem hesitar, empilhei tudo o que podia mover contra a porta, tentando bloqueá-la, mas o medo me fez esquecer de um detalhe: a porta era uma típica porta corrediça japonesa; não importava quanto eu tentasse barrá-la, o adversário poderia abri-la facilmente.
No momento em que me dei conta disso, a porta foi abruptamente escancarada. Os objetos que bloqueavam a passagem foram arremessados para todos os lados por uma força invisível.
A sombra negra apareceu silenciosamente na entrada.