Capítulo Trinta e Dois: A Morte se Aproxima

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 3804 palavras 2026-02-09 16:15:37

A peste realmente desapareceu?

Com a confusão causada pelos agentes da DCUI disfarçados de DCP, os habitantes da pequena cidade retomaram sua rotina normal. A DCUI, sem chegar a qualquer conclusão concreta, prontamente assumiu para si o mérito de ter dissipado a peste e partiu sob os aplausos dos moradores.

Durante essa epidemia, milagrosamente, não houve um único morto.

Não sei detalhes sobre o quadro clínico dessa peste que, na verdade, não era uma peste, e tampouco quero saber. Afinal, sabendo tratar-se de uma maldição, para que me preocupar com a aparência dos amaldiçoados? O importante era que a maldição, ao que tudo indicava, estava rompida.

Uma semana depois, reuni as pessoas envolvidas para lhes contar uma história que elaborei a partir das informações que obtive com Jone, de alguns dados de que dispunha e de um pouco de imaginação. Sim, era apenas uma história, sem nada que comprovasse sua veracidade, apenas alguns poucos e confusos dados. E o único objeto que poderia servir de prova já havia desaparecido naquele incêndio que eu mesmo provocara.

A história se passa há mais de cem anos, começando com um pobre mestre de marionetes. Esse artesão dedicou anos de sua vida à criação de um boneco extremamente delicado chamado Fio. Esse boneco, quando lhe davam corda, repetia incansavelmente: “Eu te amo”. Mas o artesão não sabia que, sob seus esmerados entalhes, a obra de sua vida ganhara uma alma própria, e foi justamente essa alma que desencadeou tudo o que vivemos hoje.

Passando por necessidades, o mestre decidiu participar de uma exposição de marionetes promovida por um rico magnata. Declarou, ao inscrever-se, que jamais venderia aquele boneco, pois já valia mais do que a sua própria vida. O que ele não esperava era que o magnata logo se encantaria pelo boneco.

Ao fim da exposição, o mestre recebeu um generoso prêmio, mas nunca mais pôde recuperar seu boneco...

Desolado, permaneceu inquieto em casa até decidir ir à mansão do magnata. Não importava se precisaria convencê-lo ou mesmo suplicar como um cão — nada mais importava, ele só queria de volta o boneco que valia mais do que sua própria vida.

Mas o destino já havia decretado que isso jamais seria possível.

O magnata levou o belo boneco para casa e o manuseava todos os dias, mas por mais que desse corda, o boneco jamais emitia um som; aquela voz doce e melodiosa do palco nunca mais saiu de seu corpo.

Certo dia, tomado pela ira, o magnata atirou o boneco ao chão e, cruelmente, começou a riscar seu rosto com uma faca.

Foi nesse momento que o mestre, recém-chegado à mansão, assistiu horrorizado à cena: o boneco, mais precioso que sua própria vida, sendo ultrajado. Enfurecido, lançou-se sobre o magnata, desferindo-lhe um soco no rosto.

“Matem-no! Matem-no agora!” Os seguranças do magnata logo imobilizaram o mestre, arrastando-o porta afora, enquanto ao longe ainda ecoavam os gritos furiosos do patrão.

O mestre foi espancado até a morte. A alma do boneco presenciou tudo, sem perder um único detalhe, e seu rosto delicado tornou-se monstruoso.

Naquele instante, nasceu um demônio...

Transformada em demônio, a marionete usou de meios desconhecidos para assustar o magnata até a morte e, em seguida, voltou-se em vingança contra sua família. Os familiares, desesperados, recorreram a médiuns para lidar com ela.

Esses médiuns, sobre os escombros da antiga mansão, ergueram uma igreja. Como não sabiam ao certo qual era o boneco verdadeiro, selaram todos os bonecos encontrados em sarcófagos de pedra na cripta da igreja.

O tempo passou depressa, e mais de um século depois, três anos atrás, membros da seita Cobranis descobriram por acaso os bonecos ao prepararem um ritual na igreja, retirando alguns deles da cripta — e entre eles estava ela!

Após o incêndio, inexplicavelmente, ela não foi destruída. E assim, recomeçou a espera interminável... O ódio da marionete, mesmo após mais de um século, não se dissipara nem um pouco.

Dois anos depois, sem saber de nada, a irmãzinha Clara voltou à igreja para rezar e encontrou o boneco. Foi então dominada pelo ódio da marionete.

Temendo cometer algum erro sob o domínio daquele ódio, a bondosa Clara escolheu a morte.

— Mas por que o boneco voltou àquela igreja? — perguntou Sofia, intrigada.

Suspirei: — Talvez tenha sido obra do destino. Segundo o que Yara contou, após a mudança de casa, tio Raul enterrou os pertences de Clara nas imediações da igreja. Por coincidência, o local onde o boneco foi enterrado ficava bem no centro do círculo de exorcismo de Abocolus. Quando o círculo foi ativado, ela absorveu a energia de mais de quatro mil almas penadas e, julgando o momento oportuno, iniciou sua vingança.

— Mas por que ela quis vingar-se de toda a cidade? — Sofia tornou a perguntar.

Sorri ao explicar: — De acordo com as informações encontradas por Jone, o magnata tinha muitas mulheres e incontáveis filhos. Após um século de misturas, cerca de setenta por cento da população da cidade carrega seu sangue.

— Ainda bem que você queimou aquela igreja até as cinzas, senão nem sei como essa maldição seria rompida — Sofia se aproximou e sussurrou para mim.

— Queimou o quê?! — Jame, ao lado, perguntou confuso.

Imediatamente comecei a rir alto, disfarçando: — Nada... É um segredo entre Sofia e eu.

Segredo? Sim, e um segredo que nunca revelarei a ninguém. E acredito que Sofia também não.

Contudo, finalmente tudo havia terminado...

Todos estavam sentados em silêncio, tentando assimilar os dados que eu lhes fornecera.

Muito tempo depois, Mark perguntou, hesitante: — Não entendi bem tudo o que você explicou, mas há algo que todos aqui querem saber: a maldição que aquele círculo de exorcismo trouxe foi realmente desfeita? Quer dizer, não vamos mais morrer?

— Exatamente — assenti. — O boneco foi destruído por mim, a maldição deixou de existir.

Muitos suspiraram longamente, aliviados por finalmente poderem descansar em paz.

Jame levantou-se, rindo, e me disse: — Agora que está tudo resolvido, quero ser seu guia, Noite! Vou te levar para conhecer a cidade, como forma de agradecer por tudo o que fez por nós.

— Será um prazer! Para ser sincera, já estou há semanas nos Estados Unidos e ainda não tive tempo de aproveitar nada! — respondi contente.

A noite caiu. Era meia-noite. A luz pálida da lua derramava-se difusa sobre a terra, mas havia um toque de inquietação no ar. Sem que se soubesse quando, uma névoa espessa começou a descer, envolvendo toda a cidade.

Jone rolava na cama, incapaz de dormir.

Resolveu então levantar-se e ir até a sala tomar um copo d’água, quando algo bateu na janela do quarto, produzindo um leve “ploc”.

— Quem está aí? — chamou, afastando a cortina para espiar lá fora.

A noite estava densa e nada se via através da janela embaçada.

— Que tempo estranho, uma névoa dessas no meio do verão! — murmurou Jone, coçando a cabeça.

Nesse momento, o telefone ao lado da cama tocou abruptamente.

Jone levou um susto, e, irritado, atendeu, gritando: — Quem é? Quer assustar os outros a essa hora?

Do outro lado não havia som algum. Nenhuma voz, nenhuma risada, nem ao menos o som de respiração, apenas um silêncio morto.

Jone sentiu um desconforto inexplicável, seu coração começou a bater descompassado, sem aviso.

Percebeu que era como se estivesse trancado numa câmara completamente isolada do som; além dos batimentos do próprio coração e do sangue correndo nas veias, todo o resto desaparecera. Angústia, inquietação, ansiedade — tudo surgia como raios em sua mente, e o medo inexplicável começava a tomar conta.

— Quem está aí? Jame? Pelo amor de Deus, não brinque comigo! — berrou Jone ao telefone, mas do outro lado o silêncio persistia.

Restou-lhe segurar o fone, imóvel. Não era por querer estar parado — era como se cada músculo do corpo estivesse congelado por aquela quietude, restando-lhe apenas ficar ali, rígido.

Não se sabe quanto tempo passou até o telefone finalmente emitir algum som: o ruído estridente de linha cortada. Jone sentiu-se de repente livre de alguma força invisível, perdendo o equilíbrio e tombando na beira da cama.

— O que está acontecendo? — Jone inspirou fundo e olhou ao redor.

Sem perceber exatamente quando, o clima do quarto mudara completamente, tornando-se opressivo. Não, mais do que isso — estranho! Dentro e fora, o silêncio era tal que provocava nervosismo.

Como podia uma noite de verão não ter sequer o som de um grilo?

Determinou-se então a acender a luz, em busca de algum conforto contra o medo.

De repente, uma música começou a tocar no armário, assustando Jone mais uma vez. Instintivamente, virou-se e viu que era sua própria caixa de música, que inexplicavelmente começara a tocar sozinha. Não era de admirar que a melodia lhe fosse tão familiar.

— Não é nada, esse velho traste já tocou sozinho antes — disse para si mesmo, batendo no peito para acalmar o coração, e continuou até o interruptor. Mas, no instante em que sua mão tocou o botão, todos os movimentos cessaram.

Jone começou a tremer de medo, porque de repente lembrou que a corda daquela caixa de música estava quebrada havia mais de um ano. E, na semana anterior, ele mesmo retirara a peça, planejando comprar uma nova. Como, então, uma caixa de música sem corda poderia tocar?

A respiração de Jone tornou-se ofegante. Um calafrio percorreu seu corpo, e ele apertou o interruptor com força.

A luz não acendeu; em vez disso, ouviu-se um estrondo. A cortina foi abruptamente aberta por uma força invisível. A luz da lua atravessou a névoa e entrou pela janela, mas não era branca ou dourada como de costume: era vermelha, vermelha como sangue.

No meio daquela luz enlouquecedora, uma figura estava parada diante da janela.

Jone sentiu um arrepio gelado percorrer-lhe as costas.

A sombra projetada no chão começou a se mover inquieta, mas a figura lá fora permanecia imóvel; só a sombra se agitava.

O medo crescia em progressão geométrica. A sombra, cada vez mais alongada, contorcia-se num traçado repugnante, estendendo-se em sua direção. Jone quis fugir, mas percebeu que não podia mover-se; apenas os olhos ainda lhe obedeciam.

O coração batia ainda mais forte, não só de medo, mas como se ele próprio tivesse vontade e quisesse escapar daquele corpo.

Com a boca escancarada, Jone olhou impotente enquanto a mancha negra e densa da sombra se aproximava e o envolvia, sem que ele pudesse emitir qualquer som.

Sentiu que sua mente estava prestes a romper-se, e então caiu...

O desespero, um desespero sem fim, tomou conta de toda sua consciência.

Sem aceitar o fim, Jone estendeu lentamente a mão direita sob a cama, esforçando-se para escrever algo com o indicador.

Por fim, seu corpo estremeceu violentamente e nunca mais se moveu.