Capítulo Vinte e Cinco: O Ritual de Evocação Espiritual (Parte Dois)
— Bom dia!
Ao despertar, encontrei Raquel deitada nos meus braços, cumprimentando-me com um "bom dia" calmo e sem pressa.
— Ah! Você está bem! Que ótimo! — respondi, radiante.
— Bom dia.
Ela me olhava curiosa com seus grandes olhos, mantendo o mesmo tom tranquilo.
— O que houve com você? Está com um jeito estranho. Foi por causa de ontem... ah! — Olhei ao redor e um calafrio percorreu meu corpo.
Estávamos no meu quarto! Eu e ela, juntos na minha própria cama! Pela claridade, já devia passar das nove. Eu estava desacordado há pelo menos oito horas?
— Foi você que me trouxe de volta? — perguntei, tentando me acalmar.
— Não sei do que está falando! Vim te chamar para o café da manhã, mas você me agarrou e não me largou de jeito nenhum. E agora, como vai pagar por se aproveitar de mim? — reclamou Raquel, fazendo cara de injustiçada.
— Deixa isso pra lá agora. O que aconteceu depois de ontem? — perguntei, ansioso.
— Como você pode perguntar isso?! — Ela beliscou meu braço com força. — Combinei de te encontrar atrás de casa às onze e você deu o cano! Por sua culpa, nem fui e ainda peguei um resfriado!
Fiquei confuso. Será que tudo o que aconteceu ontem à noite não passou de um sonho?
Impossível. Tudo parecia tão real na minha memória, cada detalhe vívido.
Um sonho? Se foi, então foi o mais estranho e inútil de todos.
— Ei, seu bobo, vai continuar se aproveitando de mim até quando? Se quiser continuar me abraçando, vou começar a cobrar! — resmungou Raquel.
Despertei dos meus devaneios e só então percebi que ainda a apertava contra mim, sentindo seu corpo quente e macio. Afastei-me rapidamente, sentindo o rosto queimar.
Raquel caiu na gargalhada.
— Que coisa, hein? Eu sou a vítima aqui, mas você faz essa cara de coitadinho... mas até que é fofo! — E, brincalhona, aproximou o rosto do meu. — Quer um beijo de bom dia, Noé?
— Não... não brinca com isso! — Sentei-me apressado.
— Ah, então você detesta tanto assim me beijar? — fingiu-se de ofendida. — Que decepção! Eu, toda preocupada, vim te chamar para o café da manhã... mas deixa pra lá, vou embora chorando...
Enquanto ela se virava, reparei em algo em seu cabelo.
— Espere! Tem uma folha no seu cabelo — e retirei a folha.
— Ah, deve ter grudado durante minha corrida matinal — respondeu, indiferente.
Observei atentamente a folha e, então, perguntei de sopetão:
— Raquel, ontem você queria que eu fosse com você ao ritual para invocar o espírito da sua irmã, Janete, não queria?
— Como você sabe disso?! — Ela me olhou, surpresa.
— As pessoas que você convidou eram do Clube de Ocultismo da Escola Secundária de Seattle, certo? Dois deles se chamam Jonas e Jaime?
— C-como você sabe disso também?! — Ela empalideceu. — Você consegue prever o futuro?
Agora tudo fazia sentido. Todas as dúvidas desta manhã se esclareceram. Não foi um sonho! Tudo o que vivi ontem realmente aconteceu — e a prova era aquela folha.
Era uma folha de cedro. Embora o cedro fosse comum no norte dos Estados Unidos, aqui na nossa vila só havia cedros perto da velha igreja.
Isso significava que, de fato, estivemos naquele lugar realizando o ritual. Mas Raquel, por algum motivo, estava com a memória confusa. Talvez o mesmo tenha acontecido com todos do Clube de Ocultismo... Estranho! Por que só eu não fui afetado?
E o ritual? Certamente deu certo, mas o que exatamente invocamos? O que poderia acontecer a partir de agora? Ou talvez nada aconteça...
Mil perguntas fervilhavam em minha mente, a ponto de doer. Intuía que aquilo não terminaria tão facilmente.
Enquanto caminhava refletindo, ao entrar no saguão, o telefone tocou, insistente.
— Alô, aqui é a casa dos Raquel.
Raquel atendeu e, de repente, ficou paralisada. O aparelho escorregou de sua mão e caiu no chão.
— O que houve?! — Corri até ela, preocupado.
— Ele... morreu! — Ela se lançou chorando em meus braços.
— Calma, quem morreu? — perguntei, acariciando suas costas.
— Davy! Ele era do Clube de Ocultismo, como você falou, e era meu melhor amigo! — soluçou.
— O quê?! — Agarrei-a, incrédulo.
Então era isso! Alguma coisa que invocamos lançou uma maldição sobre nós?
Ou seria apenas o começo...
Dizem que os humanos temem tanto a morte que tudo ao seu redor se reveste de mistério e sombras.
Mas sempre acreditei que a morte em si possui um poder, capaz de afetar tudo o que lhe está ligado. Por isso, era natural que a morte súbita de Davy despertasse tantas conjecturas em mim.
— Segundo o legista, Davy morreu de infarto agudo do miocárdio — disse Jaime, folheando seu caderno de anotações.
— Infarto? — Raquel olhou para mim, intrigada.
— Infarto do miocárdio ocorre quando, devido a alguma obstrução nas artérias coronárias, o fluxo sanguíneo é interrompido, causando falta de oxigênio no músculo cardíaco, que acaba morrendo. O principal fator de risco é a doença arterial coronariana — expliquei.
— Não é isso. É que nunca ouvi o Davy falar que tivesse qualquer sintoma de problema cardíaco — ela franziu o cenho.
— Com licença, quem é este? — perguntou Jaime, apontando para mim.
— Olá, nos encontramos de novo — estendi-lhe a mão.
— Já nos vimos? — indagou, surpreso.
— Sei muita coisa sobre vocês. Por exemplo, sobre o círculo de exorcismo de Abocolus — encarei-o, mas mantive um sorriso.
— Como você sabe que estamos estudando esse círculo mágico?! — Ele olhou para Raquel, assustado, depois balançou a cabeça. — Não! Nunca contei isso nem para ela. Então... como você soube disso?
O círculo de exorcismo de Abocolus sempre foi associado à parte obscura dos mitos europeus. Era um pentagrama proibido e, na Idade Média, quem o estudava era considerado herege pela Igreja. Por isso, era raro alguém revelar que o estudava, e esse costume se perpetuou, tornando-se até uma fonte de poder do próprio círculo.
Quando chegou à América, surgiu a crença de que, se alguém de fora soubesse do estudo, o círculo perderia todo seu efeito.
Jaime confiava plenamente na discrição do seu clube. Por isso, ficou tão atônito quando revelei o nome.
— Esqueceu? Você mesmo me contou. Ontem à noite, vocês foram convidados a invocar o espírito da irmã de Raquel, Janete — argumentei.
— Mas... mas a Raquel não apareceu, então voltamos para casa à meia-noite! — retrucou ele, já sem tanta convicção.
Raquel pareceu perceber algo estranho em nossa conversa e começou a se inquietar.
— Não, nós não faltamos. Vocês também não voltaram. O círculo... foi ativado!
— Impossível! — exclamaram ambos, incrédulos.
— Não estou mentindo — insisti. — Vocês não percebem as contradições nas próprias memórias? Como Davy morreu de infarto sem nunca ter sintomas? Não é estranho? Talvez, ontem à noite, tenhamos mesmo invocado algo... e, exceto eu, todos vocês tiveram suas memórias alteradas por essa entidade!
Jaime e Raquel estremeceram.
— N-não pode ser! — exclamaram.
— Pois bem, Jaime! Reúna todos que estiveram lá ontem. Vou mostrar a vocês a prova do que invocamos. Se não me engano, ainda deve haver evidências lá!