Capítulo Setenta: Os Imortais (Parte II)
— Desculpe, cheguei tarde.
Xú Lù empurrou a porta de vidro da cafeteria e sentou-se ao lado de Shěn Kē.
— Não tem problema, é natural que homens esperem por mulheres.
Shěn Kē fingia ser o melhor homem do mundo, ao mesmo tempo em que me lançava olhares insistentes, sinalizando para que eu tivesse bom senso e saísse logo dali.
Fingindo não perceber, sorvi lentamente um gole de café e disse:
— Aquele carrasco do Li Yán Wang foi cruel demais, me puniu mandando copiar o maldito livro de física cinco vezes.
Xú Lù, ainda bebendo o café quente, quase cuspiu tudo ao ouvir isso. Ela bateu com força no peito e riu alto:
— Xiaoye, você estava tão atrapalhada hoje à tarde, a turma toda riu de você. Mas, para minha surpresa, você manteve a compostura, nem ficou vermelha.
— Exatamente, exatamente — Shěn Kē engoliu uma grande golada de café e se apressou em dizer: — Se fosse comigo ou com a Lù, já teríamos cavado um buraco para nos esconder. Sempre soube que Xiaoye tem a cara dura, mas não imaginei que fosse tanto assim.
— Vocês ainda têm coragem de falar! — lancei um olhar fulminante para os dois, que se divertiam às minhas custas. — Vocês foram os que riram mais alto na sala. Só por isso já deveriam ser condenados à pena máxima. Mas, como estou de bom humor hoje, vou puni-los pedindo que façam as cinco cópias por mim.
— Que sonho! O carrasco Li Yán Wang não é bobo. Se ele vir vários tipos de letra no caderno da punição, vai perceber na hora.
Shěn Kē fez uma careta.
Ri:
— Também não sou boba. Por isso espero que um de vocês se voluntarie para copiar o livro inteiro cinco vezes para mim.
— Nem sob ameaça de morte — Xú Lù se apressou a declarar.
— Eu jamais aceitaria — Shěn Kē olhou para sua xícara de café, então, de repente, arregalou os olhos para mim: — Xiaoye, você não acha que só por uma xícara de café vai me subornar para copiar o livro, né?
— Pareço esse tipo de pessoa? Fique tranquilo, hoje sou eu quem paga, independente de você aceitar ou não. — Fixei meu olhar em Xú Lù, sorrindo de modo significativo. — Tenho certeza que a bela, pura e impecável senhorita Lù não hesitará em me ajudar nessa tarefa.
Diante da minha certeza, Xú Lù ficou confusa, como se procurasse em sua memória se eu tinha algum trunfo contra ela.
— Não tenho nada — murmurou baixinho, depois ergueu a cabeça e declarou sem hesitação:
— Eu não vou.
— Tem certeza? — bebi meu café, despreocupada.
— N-não... não vou — respondeu, agora menos segura.
— É mesmo? Então tudo bem, acho que já vou embora — peguei a conta e me levantei. Ao passar por ela, aproximei meus lábios de seu ouvido e sussurrei:
— Da próxima vez, não use o casaco de Shěn Kē para limpar o nariz. O tecido é muito áspero, pode machucar sua pele.
Xú Lù ficou instantaneamente rígida, lutando para não gritar. Tossiu e disse em voz alta:
— Xiaoye, deixe o livro de física e o caderno comigo. Pensei melhor, ajudar os amigos é um dever inquestionável!
— Você é mesmo minha melhor amiga, tão perspicaz!
Dei um tapinha em seu ombro e ri.
Xú Lù forçou um sorriso de meia-lua nos lábios, ao mesmo tempo em que me lançava um olhar mortal de tristeza:
— Também percebi... Xiaoye, você é um demônio... e nunca vai encontrar uma namorada!
— Haha, não se preocupe, minha querida amiga, esse não é um problema seu.
Sorri para ela e saí em direção à porta.
Zhang Xiuwen, vinte e dois anos, morava sozinha no leste da cidade. Não era natural dali; chegou há dois anos de Heishan para trabalhar. Nesse mesmo ano, conheceu Li Shuren por acaso, e começaram a namorar. Abaixo dos dados, havia uma nota do meu primo Ye Feng: “A beleza tem destino trágico, tão jovem e já morta, faz meu coração de solteiro se entristecer, meus olhos se encherem de lágrimas. O mundo perde mais uma bela mulher, eu mais uma oportunidade.”
— Maldito tarado! — murmurei, retirando a foto de Zhang Xiuwen do relatório. Observei por um instante e disse:
— Realmente, é uma linda mulher, que pena!
O relatório também trazia fotos do local da morte de Zhang Xiuwen, sangue espalhado por todo canto. O laudo dizia que não havia outros ferimentos em seu corpo, apenas um corte fatal e preciso no pescoço.
Pela foto, o corte era muito limpo, fácil de perceber que foi feito com uma faca extremamente afiada e não muito grande.
Chegou-se a esse diagnóstico porque havia pelo menos cinco marcas de corte sobre a ferida, sugerindo que o assassino atacou Zhang Xiuwen pelas costas. O primeiro golpe cortou a artéria principal do pescoço; enquanto ela sangrava, o assassino calmamente decapitou Zhang Xiuwen.
Sobre esse caso, discuti com meu primo.
Ele considerava duas possibilidades: uma, assassinato por vingança—se o assassino não tivesse ódio profundo, não seria tão cruel, primeiro sangrando a vítima e depois levando sua cabeça; a outra, assassinato por um psicopata—se fosse esse o caso, Zhang Xiuwen seria uma vítima inocente. Mas como não havia sinais de arrombamento na porta da casa, isso indicava que ela conhecia o assassino e abriu a porta para ele, descartando assim a segunda hipótese.
Embora não dissesse nada, eu tinha minhas próprias ideias.
Definitivamente, nunca abriria a porta para um inimigo no meio da noite, muito menos deixaria que ele ficasse atrás de mim e me matasse sem qualquer defesa.
Pensando assim, a suspeita sobre Li Shuren aumentava, mas por algum motivo, minha intuição rejeitava a ideia de que ele fosse o culpado.
À noite, começou a chover uma fria e persistente chuva de inverno. Ajustei o capuz do casaco, aqueci as mãos com a respiração.
Enfim, cheguei à casa de Zhang Xiuwen. Realmente isolada, quase fora da cidade, poucas casas por perto; seu único atrativo era o aluguel barato.
Ela alugava uma pequena vila de estilo europeu. Não era grande, mas tinha um ar sombrio inexplicável, especialmente sem iluminação nas imediações; a chuva batia no beiral, com um som ritmado e irritante.
Quando começou essa atmosfera estranha ao redor? Talvez por saber que ali houve um assassinato, eu já sentia medo antes mesmo de entrar. Respirei fundo, atravessei a fita amarela de isolamento, abri a porta com um arame e entrei.
A casa era uma simples configuração de dois quartos e uma sala. Ao entrar, havia uma sensação de desarmonia. Que mulher peculiar! Normalmente, o primeiro cômodo após a porta é a sala de estar, mas Zhang Xiuwen fez dele seu quarto. Depois vinham a sala, o escritório e a cozinha.
Zhang Xiuwen foi assassinada no quarto. O cômodo estava limpo, parecia que, após o fim da investigação, alguém fizera uma faxina.
Acendi todas as luzes, vaguei pela casa, até quase encostar o rosto no chão, buscando algum vestígio. Nada, nem um fio de cabelo. Fiquei desanimada.
— Não é possível, está limpo demais! Quem limpou aqui deve ser obcecado por limpeza. Da próxima vez que precisar de uma faxina em casa, certamente vou chamar essa pessoa, faz um trabalho impecável!
Reclamei, apaguei as luzes e fechei a porta. Antes de sair, lancei um último olhar para o quarto e, de repente, uma ideia brilhou em minha mente como um relâmpago.
Empolgada, chutei a porta que estava prestes a fechar e voltei correndo.
Algo estava errado! Por que tive a impressão de que o quarto ficou mais vazio? Tirei do bolso a foto do local do crime e comecei a comparar item por item.
Luzes, estavam todas lá; aquecedor, também; duas poltronas pretas, um sofá de couro marrom para cinco pessoas e uma cama de casal branca.
Espere, a cama mudou de lugar!
Lembro que, ao ver a foto pela primeira vez, comentei com meu primo: Zhang Xiuwen devia ter algum problema de personalidade, pois colocou a cama de frente para a porta.
Na maioria dos quartos chineses, o formato é quadrado ou retangular, e a cama costuma ficar no centro ou próxima à porta. O quarto de Zhang Xiuwen era retangular, com a porta à esquerda, mas ela colocou a cama à direita, na diagonal, formando uma linha oblíqua. Isso ocupava muito espaço e, ao dormir, os pés ficavam desconfortavelmente voltados para a porta. Se fosse eu, jamais conseguiria dormir assim, sentiria os pés gelados.
Agora, porém, a cama estava em outra posição—no lado direito, mas alinhada com a parede.
Sentei na beirada da cama. Empresas de limpeza não mudam móveis sem autorização; então, quem fez a faxina hoje não era um profissional.
Ah, esta manhã Li Shuren foi solto, será que foi ele? Refleti por um momento, peguei o telefone ao lado da cama e disquei alguns números.
— Xiaoye? Eu estava procurando você! Onde está?
Meu primo parecia discutir com alguém, o tom era estranho.
— Procurando por mim? Por quê?
Franzi a testa.
— Não pergunte, venha imediatamente.
— O que aconteceu? Se não explicar, nem fantasma me faz ir aí no meio da noite.
Do outro lado, silêncio. Meu primo Ye Feng suspirou:
— Li Shuren se suicidou.