Capítulo Onze: O Túmulo Misterioso (Parte Um)

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 3819 palavras 2026-02-09 16:14:05

— Xiaoyê, descobri!
Na tarde do dia seguinte, o sol brilhava intensamente, seus raios penetrando pela janela até a carteira, despertando aquela preguiça que dá vontade de dormir. Xueying entrou na sala feito um vendaval, nem se preocupou em enxugar o suor da testa; com expressão excitada, atirou um monte de dados sobre minha mesa.
— O que é isso? — folheei algumas páginas distraidamente e levantei a cabeça para perguntar.
Xueying me lançou um olhar reprovador:
— Isso foi o que eu, com muito esforço, consegui achar na sala de arquivos da escola: ********. Descobri que, entre dez e quinze anos atrás, havia sete pessoas chamadas Li Ping no terceiro ano do ensino médio.
— Essa garota ainda está emburrada consigo mesma... — bati levemente na mesa, sem saber se ria ou chorava, e perguntei em tom sério:
— E você conseguiu descobrir de que ano era a Li Ping da lenda da escola?
— Isso é fácil! — respondeu ela, com um certo aborrecimento:
— A lenda diz que foi há mais de dez anos... — Sua voz foi sumindo, ela ficou um tempo tentando lembrar, até que, de repente, exclamou:
— Ah, é isso! A história só fala que, mais de dez anos atrás, uma aluna do terceiro ano chamada Li Ping foi estuprada pelo filho do diretor. No fim das contas, a gente nem sabe de que turma ela era!
— Na verdade, não é impossível descobrir a qual turma ela pertencia. É só consultar os registros dos ex-alunos na sala de dados. A escola deve ter isso.
Olhei pela janela à esquerda, para o pátio.
— Registros dos ex-alunos? O que é isso? — perguntou Xueying, curiosa.
— O único motivo pelo qual as escolas se interessam por alunos do terceiro ano é para saber quem passou em qual universidade famosa, qual foi a taxa de aprovação, essas coisas que servem para enaltecer o próprio nome. Nossa escola é bem interesseira, deve ter registros detalhados disso. Se você verificar o destino de todas as Li Ping formadas entre vinte e dez anos atrás, e encontrar alguma sem registro, provavelmente é ela que você procura.
— Então existe esse jeito... — Xueying apoiou a cabeça na mão, olhando para mim com estranheza:
— Xiaoyê, você tem mesmo só quinze anos? Sabe de cada coisa que eu nem conseguiria imaginar...
— Exagero! — Não dei bola para ela e apontei pela janela:
— Está vendo aquele homem de uns trinta anos, perto do lago de lótus? Ele está lá fumando há mais de uma hora!
— Ele está fumando, mas não te incomoda em nada, por que se importa? — Xueying lançou um olhar de desprezo e respondeu.
— Mas ele parece nervoso, e vive olhando para cá, para a nossa sala.
Apoiei o queixo e fiquei pensando. O homem pareceu perceber que eu o observava, apagou apressado o cigarro e o jogou sobre um pinheiro cujas folhas já começavam a secar, afastando-se rapidamente.
— Droga! — Levantei-me de súbito e saí correndo da sala, gritando para Xueying:
— Chama os meninos, cada um pega um balde de água e vai até aquele pinheiro! Espero que a bituca não provoque um incêndio!
Em poucos minutos, o fogo subiu com um estrondo e se espalhou rapidamente. Os galhos do pinheiro já são naturalmente oleosos, e com o vento, as chamas ficaram ainda mais intensas.
Uma árvore após a outra foi engolida pelo fogo rebelde. Apesar de jogarmos baldes e mais baldes de água, o incêndio não cedia em nada.
Só quando o caminhão dos bombeiros chegou, finalmente pudemos respirar aliviados.
— Quem era aquele sujeito sem o menor senso de cidadania? — perguntei, irritada, franzindo a testa.
O Urso, que estava ao meu lado, olhou para o campo e disse em voz baixa:
— O nome dele é Zhong Dao, filho do atual diretor da escola.
— Ah, então ele é o protagonista da lenda, o que estuprou Li Ping? — Xueying arregalou os olhos, indignada:
— Depois que saiu da prisão, não mudou nada, é só ver o que acabou de fazer. Gente assim devia pegar prisão perpétua, para não sair e fazer mal de novo!

— Então ele é Zhong Dao... — Apoiei o queixo, tentando recordar tudo que sabia sobre ele.
O sujeito, que parecia covarde e abatido, não combinava nada com a imagem perversa e tirânica da lenda da escola. Será que a prisão teria destruído sua coragem e seu espírito?
Por acaso, levantei a cabeça e vi o Urso trocar um olhar estranho com Zhang Wen. Ele então bateu forte no meu ombro e disse:
— Xiaoyê, anda sumida. O que anda fazendo? Assim que termina a aula, você desaparece.
— Estou estudando com a Xueying — respondi com desconfiança.
— Xiaoyê, vou te contar um segredo — Zhang Wen se aproximou, com seu sorriso bajulador de sempre, olhou ao redor e murmurou:
— Ontem, no canteiro de obras do campo, achei uma coisa interessante. Tem tempo hoje à noite? Vamos lá ver juntos, nós quatro.
— Não vou. — Sacudi a cabeça com firmeza. Não acredito que ele tenha achado algo interessante.
Zhang Wen insistiu, cochichando ao meu ouvido:
— Se não for, vai se arrepender. É sério, é muito interessante. Hoje às nove da noite, depois do estudo noturno, eu, você, o Urso e a Xueying, vamos nos encontrar debaixo do velho pavilhão. Não vai se arrepender!
— Humpf, não vou. — Já irritada, virei as costas.
— É uma tumba, uma tumba enorme! — Zhang Wen exclamou misteriosamente atrás de mim:
— Ninguém entrou nela ainda, Xiaoyê. Talvez haja um tesouro lá dentro...
Droga! Esses dois são mesmo esquisitos.
Não sou obcecada por dinheiro e sei bem que, com Zhang Wen e o Urso, nunca vem coisa boa.
Não faz muito tempo, quando jogamos copo, eles largaram eu e Xueying sozinhas, o que já diz tudo.
Aquele episódio me fez entender quem eles realmente eram: egoístas, nunca se importam com os outros, e ainda são covardes. Quando querem fazer algo perigoso, lembram do “princípio da multidão”, puxando mais gente para não se arriscar sozinhos.
Eu também não sou santa, mas não consigo deixar de sentir repulsa por gente assim.
No entanto, naquela noite, acabei indo ao local combinado com Xueying.
— Você acredita mesmo que haja tesouro na tumba que Zhang Wen e o Urso encontraram? — perguntou Xueying, sem entender por que eu fui junto naquela maluquice.
Olhei para seus grandes olhos, claros e vivos, e sorri:
— Você acha que eles dividiriam algo valioso conosco por vontade própria?
— Claro que não — respondeu Xueying sem hesitar, mas logo perguntou, intrigada:
— Então por que você foi?
Olhei para o céu sem estrelas e, respirando fundo, respondi:
— Lembra do copo que invocamos há alguns dias? Depois que soltamos as mãos, o copo ainda se movia. No dia seguinte, te disse que parecia tentar nos passar uma mensagem, algo relacionado às palavras ‘à beira da água’. Pensei muito nisso, e o que me deu um estalo foi o alicerce do antigo pavilhão.
— O alicerce? — Xueying parecia perdida. — O que há de especial ali?
— Claro que há — expliquei, relembrando: — Dizem que o pavilhão foi construído na época do imperador Jiaqing, há cerca de 160 anos. A escola só foi erguida há mais de setenta anos. O pavilhão, sendo patrimônio da cidade e paisagem da escola, sempre foi preservado em seu estado original, sem sofrer alterações, mesmo com obras na escola.
Ou seja, em 160 anos, o pavilhão e tudo ao redor se manteve igual. O alicerce foi feito na mesma época, não foi acrescentado depois.
— O que você quer dizer? Não entendi nada — Xueying estava confusa.
Cocei a cabeça, frustrada:
— Simplificando, não acha estranho o material usado no alicerce?
Ela pressionou o dedo nos lábios, pensou um pouco, e acabou balançando a cabeça.
Continuei:
— O alicerce foi feito com grandes blocos de rocha negra e argila amarela, materiais usados na época em barragens e diques. Os antigos eram muito supersticiosos, não usariam isso para um pavilhão de descanso. A não ser que...
— A não ser que o pavilhão ficasse à beira do rio! — Xueying finalmente entendeu, tremendo ao me encarar, assustada:
— Então a mensagem do copo seria essa?
— Exato — assenti:
— No papel de símbolos não havia o ideograma “rio”. O termo ‘à beira da água’ provavelmente se referia a ‘à beira do rio’.
— Não é bem assim — Xueying subitamente questionou:
— Se antes havia um rio debaixo do pavilhão, onde está esse rio agora? O pavilhão é alto, o rio não devia ser pequeno.
— Não sei — balancei a cabeça:
— Justamente por não saber, não quero deixar pistas de lado. Se Zhang Wen não estiver mentindo sobre a descoberta, pode ser uma pista importante!
De fato, sob o pavilhão fica o campo da escola. Se estou certa, há mais de 160 anos, ali existia um grande rio.
Não sei que mensagem o copo queria nos passar, mas tenho certeza de que ela tem relação com aquele antigo rio.
Se Zhang Wen realmente encontrou uma tumba no campo, ela deve ser antiga. Talvez eu encontre ali respostas para as dúvidas que me atormentam...
— Eu descobri a tumba ontem à tarde por acaso. A escola vai construir um dormitório de estudantes ao norte do campo, então isolaram a área e já cavaram um alicerce de mais de três metros. Ontem, entediado, entrei escondido na obra para explorar, e logo achei algo curioso.
Zhang Wen ia à frente nos guiando, narrando sua grande aventura:
— Adivinhem o que era? Ha! Era um crânio humano já escurecido pela água!
— Mas na hora achei que fosse uma máscara de gás velha do laboratório e pisei em cima. Só então, ao ver aquilo se despedaçar, percebi que não era plástico, então comecei a olhar em volta e vi, ali perto, vários pedaços de caixões estilhaçados...
— E, perto deles, havia um buraco enorme, retangular, com uns cinco metros de comprimento por três de largura. Como estava cheio de água barrenta, não consegui ver a profundidade. Mas estava claro: aquilo era uma tumba, e os operários a encontraram por acaso, tirando os caixões na esperança de achar objetos de valor.
Zhang Wen se virou para mim e perguntou:
— Xiaoyê, já ouviu a famosa lenda desta cidade? A do tesouro da família Chen?