Capítulo Zero: O Primeiro Encontro com um Espírito

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 3940 palavras 2026-02-09 16:13:22

Neste mundo, sempre há muitas coisas estranhas e inexplicáveis.

A você que está lendo estas linhas, sim, você aí. Olá.

Meu nome é Noitesilente, sou um homem que se depara constantemente com eventos misteriosos e assustadores. Nesta vida, de fato, já presenciei muitas coisas inacreditáveis. Como, por exemplo, o caso dos zumbis de Chengdu em 1995, ou o intrigante crime do cadáver desmembrado pelo Feng Shui. E os jogos sobrenaturais que vivi são tantos que perdi a conta.

Por quê?

Talvez seja porque nasci em junho de algum ano dos anos 80. Aquela época era considerada de mau agouro, carregada de energia negativa!

Até hoje, meu pai nunca se cansa de repetir: “Moleque, no exato momento em que você nasceu e começou a chorar, o rio atrás de casa transbordou, mas só a água entrou aqui, nas outras casas não aconteceu nada. Isso sim é estranho.”

Mas, nas minhas memórias, o primeiro contato com algo realmente sinistro aconteceu há mais de dez anos. E foi justamente esse episódio que fez com que eu fosse levado embora, deixando minha terra natal, a Vila Noturna, para viver na cidade.

Eu tinha acabado de completar cinco anos!

198X.

Antiga casa da Vila Noturna.

“Como você pôde ser tão imbecil a ponto de fazer uma coisa dessas?” O ancião da vila bateu com força na mesa, tomado pela fúria.

Pouco tempo antes, uma família de sobrenome Li, muito pobre, perdeu a filha, que morreu de forma repentina. O pai, devastado pela dor, não tinha sequer um terreno para enterrá-la, muito menos dinheiro para a cremação.

Sem alternativa, o velho Li cavou uma cova escondido numa área proibida, um vale isolado sobre o qual os anciãos da vila sempre diziam: jamais enterrem um morto-vivo ali. Enterrou o corpo da filha naquele solo amaldiçoado. Desde então, a paz abandonou a casa dos Li. Certa noite, ouviram sons estranhos de gente andando e vivendo na sala, mas, ao abrirem a porta, não havia viva alma.

A única coisa que viram foi a porta da frente escancarada, de onde soprava um vento gélido para dentro.

O velho Li jurava que havia trancado tudo antes de dormir. Quem então abrira a porta?

Num vilarejo marcado por superstições, em pouco tempo, o caso tomou conta das conversas. O chefe da vila, ao ouvir tudo, foi imediatamente à casa dos Li, perguntando se ele havia realmente enterrado a filha no tal terreno proibido.

“Como soube disso?”, perguntou o velho Li, perplexo.

“Idiota, você criou um grande problema!”, o chefe respondeu, pingando suor frio: “Faz quanto tempo?”

“Cerca de quarenta dias”, respondeu o velho Li, vendo o desespero estampado no rosto do chefe.

“Quarenta dias! Ó céus! Você ficou surdo? Já foi avisado: nunca se enterra um morto-vivo naquele solo!” E, sem perder tempo, ordenou: “Hoje à noite, chame o mestre de ocultismo. Você vem comigo até aquele lugar amaldiçoado!”

Naquela vila supersticiosa, o mestre de ocultismo era quase uma divindade, e especialmente na Vila Noturna, respeitavam-no ainda mais. Havia apenas um mestre, de sobrenome Zhou, cuja família transmitia esses conhecimentos há gerações, conhecendo profundamente todos os tabus do vale amaldiçoado. Durante mil anos, dizia-se, foi graças à linhagem Zhou que a vila e aquele solo maldito coexistiram em paz. Mas, uma vez quebrado o tabu, só Zhou poderia decidir o que fazer.

O mestre Zhou tinha uns cinquenta anos. Já perdera filhos, ficara cego de um olho, e para manter o legado, adotara um menino de oito anos, que o auxiliava nos rituais.

O chefe da vila, sem fôlego, contou-lhe toda a história. Zhou, que bebia chá calmamente, engasgou e cuspiu tudo no rosto do chefe.

“Aquele maldito do Li enlouqueceu! Quarenta dias escondendo isso!” Zhou andava de um lado para o outro, contando nos dedos, inquieto: “Estamos perdidos! O velho Li vai acabar matando todos nós!”

“Eu também senti que o vilarejo está estranho. Muita gente reclamando que animais sumiram: porcos, galinhas, cachorros. Aqui todos se conhecem. Já interroguei os garotos conhecidos por pequenos furtos, e nenhum roubou nada. Será que tem relação com o que aconteceu?”, perguntou o chefe, cada vez mais ansioso.

Zhou mudou de expressão várias vezes: “Você é um idiota. Como não me contou antes? Eu já teria desconfiado.”

Olhou o céu: o pôr do sol tingia as nuvens com um vermelho sangue, terrível presságio.

“Não há tempo. Hoje, assim que o sol se pôr, junte todos os homens entre vinte e quarenta anos dos signos de Porco, Galo, Cachorro e Dragão. Este é o ano do Cavalo, estes são os de maior energia vital. Talvez consigam conter a energia maligna da garota enterrada naquele solo imundo!”

“Garoto, prepare as ferramentas do ritual, rápido!”, gritou para o filho adotivo. O menino correu para buscar o material do pai.

Vendo o chefe sair tropeçando para convocar os escolhidos, Zhou ficou à janela, com o único olho fixo no sol que desaparecia. O coração batia descompassado, a pálpebra direita tremia sem parar.

Dizem que pálpebra esquerda traz fortuna, direita traz desgraça. Estaria algo terrível para acontecer?

Maldito Li, como pôde esquecer a advertência dos ancestrais? Nunca terminou bem quem enterrou um morto-vivo naquele solo! Maldição, talvez todos estejam condenados por culpa dele!

Assim que o sol se escondeu atrás das montanhas, centenas de homens em idade adequada, guiados pelo chefe e pelo mestre Zhou, partiram apressados para o vale amaldiçoado.

Eu tinha pouco mais de cinco anos. O vale ficava ao leste, do outro lado de uma pequena colina. Curioso, segui os adultos pela trilha de terra até a zona proibida.

Ao cruzar a colina, tudo mudou.

O outro lado era tomado por mato alto, sem plantações, sem vestígio de gente. O topo da colina parecia uma fronteira entre vida e morte: do lado da vila, árvores e arbustos; do outro, só restava o mato mais resistente.

Nem um único arbusto grande.

Quanto mais avançávamos, menos mato havia. Logo, até o som dos insetos e pássaros desapareceu, como se eu fosse o único ser vivo naquele mundo.

O silêncio era opressor.

Com coragem, segui ainda por um bom tempo, até que os aldeões, iluminando o caminho com tochas, pararam.

“É aqui!”, disse o velho Li, indicando um pedaço de terra visivelmente revirada, com voz trêmula.

Parecia haver uma linha invisível; dali em diante, o solo, embora igual, era estéril, incapaz de gerar vida. O vento gélido soprava forte, como se mil almas penadas gritassem no ar.

Vendo o local, Zhou finalmente relaxou: “Ao menos, você não foi totalmente idiota. Não a enterrou completamente no solo amaldiçoado.”

O corpo da garota estava justamente na divisa entre o mato e a terra árida.

Zhou mandou que cavassem. Pouco tempo depois, desenterraram o cadáver da filha de Li. Estava enrolada em uma lona, sem caixão, jogada às pressas no buraco. Era evidente a pobreza da família, incapaz de dar um enterro digno à jovem.

O velho Li, sem coragem de olhar, começou a chorar. Mas logo se calou ao ouvir o som de espanto dos outros.

“O que... o que é isso?”, balbuciou Zhou, tremendo de medo, quase caindo sentado.

A curiosidade me dominou e, aproveitando a distração, me aproximei, espiando entre as pernas dos adultos. Bastou um olhar para quase desmaiar de pavor.

O corpo não estava apodrecido, parecia apenas adormecido, com o rosto rubro e todos os pelos e cabelos crescidos, longos, castanhos, de modo estranho. Os olhos saltavam das órbitas como bolas de pingue-pongue, assustadores.

O mais terrível, porém, eram as incontáveis fissuras cruzando a pele, como rachaduras de porcelana prestes a despedaçar. Só que, ao contrário da beleza da porcelana, aquelas marcas eram sinistras, um mau presságio.

As unhas da menina mediam quase um metro, curvas e desordenadas, mas incrivelmente resistentes. Mesmo tendo sido desenterrada de modo bruto, nenhuma se quebrou; algumas estavam fincadas profundamente no solo duro e negro.

Eram afiadas e sólidas como garras mortais.

Tudo aquilo me inquietava. Olhei para a lua que nascia por trás das montanhas, e um raio prateado pousou justamente sobre o vale. Onde o luar tocava, uma névoa tênue começou a se erguer, como vapor.

Franzi o cenho, tomado por um sentimento de desconforto e presságio ruim.

“Monstro de pelos verdes! Se continuar assim, ela vai se transformar num monstro de pelos verdes!”, gritou Zhou, apavorado. “Acendam as tochas! Queimem o corpo imediatamente!”

Os aldeões apressaram-se a jogar óleo sobre a morta, preparando-se para queimá-la. Mas, de repente, os olhos saltados da garota giraram. O corpo, rígido, curvou-se e saltou do chão.

Enquanto pulava, as rachaduras da pele iam se desprendendo, revelando um tom avermelhado por baixo.

“Transformação cadavérica! Ela está se transformando!” Gritaram os aldeões, fugindo em pânico. Zhou, reunindo coragem, tentou lançar um fósforo para incendiar o corpo, mas, num salto, a morta percorreu cinco metros e agarrou seu braço, torcendo-o com facilidade. Um grito lancinante ecoou quando o braço de Zhou, que segurava o isqueiro, foi arrancado.

A criatura abriu a boca, mostrando presas longas e afiadas, refletindo a luz da lua com um brilho gélido, e cravou-as profundamente no pescoço de Zhou.

O corpo dele murchou diante de todos. A monstruosidade, então, girou os olhos pavorosos diretamente para o lugar onde eu tentava me esconder.

Tremi da cabeça aos pés, petrificado. Antes que pudesse correr, aquela criatura me agarrou.

Senti um choque violento e perdi a consciência.

Quando acordei, já estava fora da Vila Noturna, levado por meu pai.

Foi o mestre Zhou, antes de morrer, que pediu a meu pai que me levasse. Seu último olhar, mais aterrador que o da própria morta, me acompanha até hoje. Nunca entendi o porquê.

Depois, meu pai contou que, quando a morta me tocou, ela simplesmente se desfez numa poça de sangue fétido.

Desde então, nunca mais voltei à Vila Noturna. Talvez o medo enraizado em minha alma sempre me impedisse de retornar. Frequentemente me pergunto por que aquela criatura não conseguiu me matar, e como acabou destruída ao tentar.

Por que Zhou teve medo de mim?

O fato é que, por motivos que desconheço, vivi muitos episódios estranhos e sobrenaturais. Por sorte, nunca fui tolo e escapei da morte por um triz, repetidas vezes.

A vida, cheia de reviravoltas, inspira suspiros de espanto. Resolvi escrever meu testemunho neste livro, “Os Arquivos Secretos de Noitesilente”, para registrar minha história.

Se tudo isso é verdade ou não, deixo ao julgamento de vocês.