Capítulo Dezoito: A Distância Entre a Vida e a Morte (Parte Final)

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 2996 palavras 2026-02-09 16:14:32

Eu e Neve trocamos um olhar. Cocei a cabeça, hesitante, e perguntei:

— Aquela de quem você fala, é por acaso a jovem professora que, há mais de dez anos, se enforcou neste escritório?

— Exatamente. Vocês jamais imaginariam — acabei me apaixonando pela minha própria professora! — Zong Dao riu, gargalhou até as lágrimas escorrerem pelo rosto. — Eu era filho do diretor, não precisava me esforçar para tirar as notas que quisesse. Mas nada daquilo era real: todos os meus professores queriam agradar meu pai, então não importava como eu fosse nas provas, mesmo entregando em branco, sempre recebia nota máxima.

— Só a professora Gao Xiu era diferente comigo. Era exigente, não ligava para quem eu era nem para o cargo do meu pai. O que ela dizia, cumpria. Aos poucos, percebi que não conseguia tirar os olhos dela. Apaixonei-me, me apaixonei pela minha professora! Me diga, não é absurdo?

— E você e Li Ping, qual era a relação de vocês na época? — perguntei, refletindo.

Zong Dao relembrou:

— Ping era minha namorada. Sempre que eu pensava em terminar, ela implorava, ajoelhava-se, agarrava minhas pernas e não me deixava sair. Mesmo quando eu dizia que não a amava mais, ela não aceitava. Chegou a ameaçar-se cortando os pulsos, tudo para que eu não a deixasse.

Enxugou as lágrimas do rosto com as mãos.

— Certa vez, ela veio me procurar, dizendo que estava grávida de um filho meu. Fiquei surpreso, pois tinha certeza de que nunca havia feito nada com ela. Mas Ping insistia que a criança era minha, dizia que eu podia não assumir, ou que, se fosse melhor para meu futuro, ela abortaria. Eu não respondi e fui embora.

— Pouco depois, ela me chamou para ir até o Pavilhão Antigo. Ping, misteriosa, me entregou um saco. Quando abri, quase vomitei. Dentro, havia um bebê — um bebê morto! O corpo e o rosto cobertos de sangue, parecia recém-saído do útero, com o cordão umbilical ainda preso...

Zong Dao fechou os olhos, pálido e apavorado, como se aquela lembrança o consumisse.

— Ping sorriu para mim, um sorriso arrepiante. Disse que havia matado nosso filho, e que eu não precisava mais me preocupar com comentários alheios. Fiquei incrédulo, saí sem olhar para trás.

— Nunca imaginei que aquela partida seria o adeus definitivo. Desde então, Ping desapareceu. Acho que, decepcionada, partiu para um lugar onde ninguém a conhecesse...

— Você acredita nele? — Neve aproximou-se do meu ouvido, sussurrando.

Suspirei.

— A história faz sentido. Embora diferente dos rumores que ouvimos na escola, parece plausível.

Neve olhou para Zong Dao e perguntou em voz alta:

— Se você não é o assassino, por que veio aqui no meio da noite procurar seu diário confidencial?

— Meu diário confidencial? — Zong Dao levantou a cabeça, surpreso. — Nunca pensei em procurar uma coisa dessas.

— Então o que você veio buscar? — perguntei, curioso.

— Um objeto que esqueci há mais de dez anos — disse ele, e um leve sorriso surgiu em seu rosto abatido. — Um cachecol. Foi meu presente de aniversário para ela. Embora a professora dissesse que eu era muito jovem e não podia aceitar meus sentimentos, acabou aceitando o cachecol de seda cor-de-rosa depois que insisti muito. Sei que, após o suicídio, o cachecol ficou aqui. Só hoje criei coragem para vir buscá-lo.

— Sim, eu preciso encontrá-lo! — Zong Dao levantou-se trêmulo e voltou a procurar entre as pilhas de papéis.

— Você está procurando isto? — Neve, um pouco constrangida, lhe entregou um cachecol.

Zong Dao ficou ofegante, o corpo inteiro tremia, e as mãos com que segurava o cachecol mal conseguiam parar quietas.

— É este, é este mesmo — murmurou, e lágrimas grossas escorreram de seus olhos apagados.

— Como isso foi parar com você? — perguntei, intrigado.

Neve mostrou a língua para mim.

— Quando você estava concentrado nos papéis, encontrei o cachecol por acaso. Achei estranho, então tirei da parede para examinar, mas quando você puxou-me de repente, acabei colocando na mochila.

Estreitei os olhos, desconfiado.

— Mentirosa, aposto que queria ficar com ele.

— Eu jamais faria isso, não sou como você — Neve corou imediatamente, desviando o olhar, embaraçada por eu ter adivinhado seu pensamento.

Zong Dao, recuperando-se com dificuldade, olhou para nós e pediu, suplicante:

— Vocês poderiam me deixar sozinho aqui um pouco?

Eu e Neve nos entreolhamos e, sem combinar, assentimos. Mas, assim que saímos do escritório, Zong Dao fechou a porta com força e trancou-a.

— O que está fazendo? — exclamei, surpreso, batendo na porta fechada.

— Não se preocupem comigo. Sinto tanta falta da professora Gao Xiu, uma saudade imensa. — Por trás da janela de vidro, vimos Zong Dao subir devagar na mesa, amarrar o cachecol ao teto.

Segurou a ponta caída com as duas mãos, virou-se para encarar eu e Neve, que, desesperados, quebrávamos o vidro e tentávamos arrancar as grades soldadas na janela. Ele suspirou longo e sorriu:

— Vocês sabiam que, mesmo depois da morte, as pessoas podem ficar juntas? Basta morrer no mesmo lugar, do mesmo jeito, e estarão juntos para sempre, sem jamais se separar.

Um frio percorreu minha espinha. Tremi e gritei:

— Idiota! Depois da morte não há mais nada. Que eternidade é essa? Você só está fugindo da realidade, é um covarde!

— Sim, sou covarde, sou fraco. Por isso precisei de treze anos para tomar coragem — os olhos de Zong Dao se fixaram vazios no cachecol. De repente, estremeceu, encarando o nada à sua frente, e sorriu feliz.

— Professora, é você? Veio me buscar? — Entre lágrimas e risos, soluçou: — Já tenho trinta e um anos. Não sou mais um garoto, agora a senhora pode me aceitar? Estou tão feliz, tão feliz...

Devagar, Zong Dao enfiou a cabeça no laço feito pelo cachecol. Quando ia chutar a cadeira, mãos invisíveis agarraram seu pescoço.

— Ping, por que você? De novo você! — tossiu, sufocado, segurando o pescoço com dificuldade. — Solte-me, quero ir com a professora. Por que sempre me impede? Foi você que espalhou os boatos sobre a professora, dizendo que ela teve um caso com o aluno e ficou grávida, não foi? Seu ciúme é terrível! Por que, nem depois de morta, me deixa em paz? Por que não me deixa ficar com ela?

Zong Dao tentava forçar o pescoço, desesperado para enfiar a cabeça de novo no laço, mas as mãos invisíveis o puxavam para trás, apertando-o. Sob aquela força, a pele do pescoço começou a torcer-se em espiral, até que se rasgou, expondo traqueia e artérias sangrentas.

Lutando, Zong Dao finalmente conseguiu se soltar e enfiou a cabeça no laço. Rapidamente chutou a cadeira, ficando pendurado pelo cachecol no teto, o corpo girando. Quando o rosto virou para mim e Neve, ele sorriu.

Era um sorriso de felicidade, de contentamento...

Fiquei paralisado, incapaz de aceitar o que via.

— O que está acontecendo? O que está acontecendo?! — Neve também estava em choque, repetindo sem parar.

De repente, a porta foi empurrada com força por dentro, batendo na parede com um estrondo. Um calafrio tomou todo o meu corpo, todos os pelos se eriçaram de medo.

— Na beira d’água... ainda há um... ainda há um...

Uma voz fria, sombria e monótona entrou-me pelos ouvidos e ficou ecoando na mente.

Lutando para não sucumbir ao terror, olhei ao redor. Não vi nada, só a noite bizarra, silenciosa e ameaçadora.

— Ainda há um... não é? — murmurou Neve, agarrando meu braço e encostando a cabeça no meu ombro, trêmula. — Xiaoye, diga... esse último será você ou eu? — Olhou-me nos olhos; vendo-me ainda absorto no escuro, riu baixinho, com lágrimas nos olhos.

— Xiaoye, acho que o último... com certeza não será você...