Capítulo Oitenta e Seis: Visita Noturna ao Templo Ancestral (Parte Um)

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 2802 palavras 2026-02-09 16:20:21

Foi um dia exaustivo. A noite era densa como água, fria e escura. Eu e Terceirinho carregávamos, um nas costas de Zhang Wenyi, outro arrastando o corpo de Zhang Xueyun, e com grande dificuldade retornamos à pousada.

O corpo de Zhang Xueyun estava severamente queimado, muitos lugares não passavam de ossos negros e ressequidos, o que só agravava o estado já decomposto e irreconhecível, tornando-o ainda mais horrendo.

Após acomodar cada pessoa e cadáver, voltei ao meu quarto e me lancei pesadamente sobre a cama macia, sentindo um conforto tão intenso que quase me escapou um gemido. De repente, ouvi alguém batendo com força à porta, e, contrariado, levantei-me para abri-la.

— Quem está aí? — Do lado de fora, não havia ninguém. Inclinei-me para olhar ao redor, apenas para ver que a luz alaranjada, fraca e opaca do corredor se tornava ainda mais sombria. Ao redor, uma névoa fria e persistente se agitava, gerando uma atmosfera indescritivelmente sinistra e estranha.

— Quem derrubou gelo seco? Mas será que há gelo seco nesta pousada? — Eu quis sair, mas logo desisti da ideia. Que frio! Aquela névoa parecia viva, emanando uma quantidade imensa de ar gélido; a pele exposta ao contato ficava imediatamente dormente e seca, como se toda a umidade fosse sugada avidamente.

Tremendo, fechei a porta rapidamente, apaguei as luzes e deitei novamente. Mas logo ouvi o rangido da janela. Ela se abriu lentamente, formando uma fresta, e do lado de fora parecia haver uma sombra inchada tentando entrar com força. Será possível? Estamos no segundo andar. Embora não seja muito alto, há quase oito metros de distância do chão. Quem teria se dado ao trabalho de arranjar uma escada tão longa para invadir meu quarto?

Meu instinto gritava que eu não podia deixar aquilo entrar; caso contrário, minha vida estaria perdida. Peguei o banquinho ao lado, reprimi o medo e fui até a janela, puxando-a com força e golpeando o lugar onde parecia ser a cabeça do intruso.

Ele gritou de dor e caiu da janela.

— Vá morrer logo, como ousa atrapalhar meu sono! — Olhei para baixo, demonstrando meu desdém, mas, de repente, senti o corpo gelar de surpresa.

Meu quarto não era mais o segundo andar. Lá fora, embora escuro, era possível perceber que a distância do chão não era a adorável medida de oito metros. Sob a janela abria-se um abismo negro, de profundidade infinita, e o monstro que tentava entrar caía sem parar, despencando cada vez mais...

De repente, alguém bateu à porta com força novamente, e um medo inexplicável tomou conta de mim. Fitei a porta, sentindo que havia algo de sobrenatural e indescritível nela, uma estranheza que me atraía intensamente, dominando minha vontade. Estendi a mão, lentamente, em direção à maçaneta...

— Ah, ah, ah! — Gritei, sentando-me de súbito na cama, suando frio. Era um sonho, mais um daqueles pesadelos assustadoramente reais. Por que ultimamente tenho sonhado tanto assim? Será que é por causa das refeições irregulares, algum problema digestivo?

Olhei para fora, estava claro! Já era manhã. Espera aí, quando foi que a janela ficou entreaberta? Eu me lembrava de tê-la fechado bem antes de dormir!

Senti um arrepio pelo corpo, pulei da cama e fui até a janela. Meus olhos captaram algo, fazendo-me tremer de espanto. Não, talvez o que aconteceu ontem à noite não tenha sido um simples pesadelo sem sentido. Porque havia, claramente, um par de pegadas negras no parapeito, pegadas de algo desconhecido...

Nesse momento, ouvi batidas impacientes na porta. Virei, olhando fixamente para a maçaneta, hesitando, ainda abalado, sobre abrir ou não, até que Terceirinho gritou do lado de fora:

— Noite Silenciosa, Qishi Mu morreu. Encontraram o corpo dele no rio!

A espera inquieta finalmente chegou ao fim quando anoiteceu. Pouco depois das onze, puxei Terceirinho para fora, sem conter minha urgência.

— O que está acontecendo? Tenho agido com você quase todas as noites, passamos várias madrugadas acordados. Achava que, com Wenyi encontrada e com o corpo de Xueyun localizado, finalmente tudo terminaria e eu poderia dormir em paz. Mas você está louco de novo e quer que eu saia! — Terceirinho reclamou bocejando.

— Idiota, não acha que a morte de Qishi Mu é muito suspeita? — Lancei-lhe um olhar severo.

— Suspeita, e daí? A morte dele é um benefício para a Vila Montanha Negra. Só quando toda a família dele morrer haverá alegria por aqui! — disse Terceirinho, despreocupado. — E não esqueça, ontem à noite ele tentou nos queimar vivos com gasolina!

Não dei atenção, continuei: — Isso é ainda mais estranho. Segundo o pescador, hoje às cinco e meia ele foi pescar no rio e, ao lançar a rede, acabou encontrando um grande volume. Quando puxou, percebeu que era o corpo de Qishi Mu.

— Quando fui interrogá-lo pela manhã, o pescador disse que já havia manchas de cadáver nas costas de Qishi Mu, e que, mesmo pressionando com força, a cor não desaparecia, indicando que as manchas haviam evoluído da fase de acumulação para a de dispersão. Ele estava morto há pelo menos dez horas! Ou seja, morreu antes das cinco da tarde de ontem. Lembra que encontramos aquele túnel à noite? Que horas eram?

— Devia ser madrugada — Terceirinho começou a achar estranho.

— Exatamente. Uma pessoa morta há mais de cinco horas não poderia ter ateado fogo para nos matar. O incendiário era outro! — Dei um tapinha em seu ombro.

— Mas ouvimos claramente a voz de Qishi Mu na caverna! — Terceirinho insistiu.

— Burro, não dá para imitar uma voz? — Senti vontade de chutá-lo.

Terceirinho bateu com o punho na palma da mão, finalmente compreendendo: — Verdade, como não pensei nisso! Noite Silenciosa, consegue imaginar quem foi o assassino de ontem à noite?

— Não sei, por isso quero ir ao templo ver os corpos dos dois. — Revelei meu objetivo.

Terceirinho arregalou os olhos, surpreso: — Não! De jeito nenhum! Isso é um sacrilégio! — Ele balançou as mãos e virou-se, querendo fugir: — Não quero condenar minha linhagem!

— Fique tranquilo, não vai acontecer nada. Se for necessário, minha futura esposa pode ter vários filhos e, quando chegar a hora, te dou um para adotar. — Agarrei-o com força, puxando-o para frente.

— Não quero! Sou jovem e filho único, minha família depende de mim para continuar a linhagem! — Terceirinho resistia desesperadamente.

— E quanto a Zhang Wenyi? Você gosta dela, não quer casar com ela? — Olhei fixamente para ele, usando um tom solene para pressionar sua vontade. — Está claro que há uma força poderosa por trás disso tudo, e essa força está profundamente ligada a Zhang Wenyi, ou talvez ela esteja sendo usada.

— Esse grupo não é simples; se acharem que Zhang Wenyi perdeu valor, podem eliminá-la! — Embora não tivesse qualquer fundamento, não me importei, o importante era convencê-lo.

— Tão grave assim? Não estaria exagerando? — Terceirinho começou a suar frio.

Fiz um sorriso sincero: — Tem coragem de apostar a vida de Zhang Wenyi? Dou-lhe três minutos para decidir: buscar a verdade e salvar sua amada ou deixar-se dominar por ideias antiquadas, arrependendo-se para sempre.

Terceirinho segurou a cabeça e sorriu amargamente, parecendo um galo derrotado e molhado. — Eu te levo. — Pouco depois, ergueu a cabeça e declarou com determinação.

O templo ancestral, local de culto aos antepassados ou sábios, está presente em todas as regiões da China, tanto nas cidades quanto nos campos.

O maior templo de um lugar é chamado de templo principal, importante edifício público, geralmente localizado nas extremidades da vila, junto a montes ou terrenos elevados, com amplo espaço, podendo ter dois ou até cinco pátios, construído em níveis ascendentes conforme o relevo. O edifício principal fica ao fundo, variando bastante. Às vezes, vários pátios se conectam em eixo central, com arcos e portais; os templos menores costumam ser em formato de pátio quadrado.

O local onde repousavam os corpos do Senhor Qi e de Qishi Mu, figuras notáveis do vilarejo, era, naturalmente, o templo principal.

Dizia-se que a causa da morte de Qishi Mu era idêntica à do pai, Senhor Qi: o pescoço fora quebrado com uma corda, e, após a morte, o assassino cortara-lhe a traqueia para drenar o sangue. Não se sabe o que a delegacia local estava fazendo, pois um caso tão grave não foi investigado com rigor, apenas colocaram o corpo no templo, um claro sinal de irregularidade!

O templo principal da vila tinha uma estrutura tradicional de quatro pátios.