Capítulo Vinte e Nove: A História da Gaivota (Parte Final)

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 3478 palavras 2026-02-09 16:15:24

— Vocês estão enganados, na verdade o diário já mencionou o que era aquilo — declarei com um sorriso astuto.

— O quê?! — exclamaram ambos, surpresos ao mesmo tempo.

— Vocês não perceberam que há algumas contradições na última entrada do diário?

Os dois me olharam, confusos, e balançaram a cabeça, colaborativos.

Satisfeito com minha pequena vitória, sorri e apontei para a linha do diário que dizia “parecia ter vida própria”:

— Por aqui, percebemos que o objeto que a irmã Xiaojie encontrou não era algo vivo. Mas, ao se referir àquela coisinha, ela utiliza vários pronomes femininos, “ela” e “dela”, ao invés de “isso”.

— O que isso prova? É simples. Primeiro, que o objeto era feminino; segundo, que era uma figura humanoide, de tal forma que imediatamente se reconhecia seu gênero, por isso ela usou esses termos sem pensar.

Os dois deram um “ah” ao mesmo tempo.

Yaojia estremeceu um pouco e, com uma expressão intrigada, perguntou:

— Como você pode ter certeza de que tinha forma humana? E se era um gatinho ou cachorrinho?

Rebati:

— Você, sem conhecimento especializado, seria capaz de identificar o sexo de um gato ou cachorro só de olhar, andando pela rua?

Surpreendentemente, Yaojia não retrucou, apenas abaixou a cabeça, pensativa.

Perguntei, curioso:

— Está pensando em algo?

Ela hesitou, depois balançou a cabeça com firmeza.

Franzi a testa, mas não insisti.

Jame, animado, disse:

— Assim fica mais fácil! Se investigarmos a relação desse objeto humanoide com a igreja e o milionário, o círculo se fecha muito. Ótimo! Vamos voltar imediatamente!

— A propósito, alguém viu algo parecido durante a busca pela casa? — questionei.

Ambos negaram.

Yaojia comentou:

— A irmã sempre carregava esse objeto consigo, na bolsa, nunca deixava ninguém tocá-lo. Talvez o tenha perdido no acidente.

Fiquei em silêncio e fui o primeiro a sair daquele quarto que tanto me entristecia.

No corredor, Yaojia tossiu algumas vezes, irritada:

— Cof, cof... Quanta poeira aqui, deviam contratar alguém para limpar.

Estremeci, agarrei sua mão e berrei:

— O que você acabou de dizer?

Assustada, Yaojia respondeu, sem saber o que fazer:

— Eu só disse que há muita poeira...

Era isso! Finalmente entendi por que, ao entrar no quarto de Xiaojie, senti aquele incômodo...

O quarto estava limpo demais. Havia um pouco de poeira, mas parecia proposital, espalhada ali só para dar a impressão de descuido.

Lá fora, olhei para o horizonte ocidental e disse:

— Parece que vai chover. Não muito longe daqui, lembro de uma pousada para jovens. Podemos passar a noite lá e voltar amanhã.

Yaojia e Jame se entreolharam e deram de ombros. Claramente, não entenderam qual a relação entre a chuva e não dirigirmos de volta para casa.

Obviamente, eles não sabiam — e eu não pretendia contar — que dois minutos antes, uma dúvida e uma ideia haviam surgido em minha mente.

O quarto de Xiaojie é limpo com frequência. Mas por quem, e por quê? Que ligação essa pessoa tem com Xiaojie? Isso pode ter algo a ver com a sua morte?

Naquela noite, decidi: visitaria a velha casa em segredo. Talvez eu pudesse desvendar o mistério de sua morte.

Alta madrugada. As nuvens espessas, o vento baixo, nenhuma estrela ou luar. Caía uma chuva leve. Levantei-me em silêncio, certifiquei-me de não acordar ninguém e saí devagarzinho.

A velha casa estava imóvel, de um silêncio inquietante.

Recompus-me e fui até os fundos; escalando pelo tubo de ventilação, alcancei o quarto de Xiaojie no segundo andar. Durante o dia, deixara uma janela encostada.

Entrei sem problemas, mas não sabia o que fazer. Primeiro, não tinha certeza se a pessoa viria esta noite; segundo, havia uma ideia estranha martelando na minha mente, tão absurda que tentei reprimi-la.

Decidi que o melhor seria esconder-me e esperar.

Olhei ao redor, buscando um bom esconderijo. Apesar da noite, o quarto não estava tão escuro. Enquanto vasculhava, percebi algo sob o travesseiro. Peguei: era uma fotografia.

À luz tênue da janela, vi que havia duas pessoas na foto, de mãos dadas, em um lago. A água verde-azulada, agitada pela brisa, realçava o sorriso doce da jovem à direita.

Aquela cena me era familiar. Apesar de estática, trouxe uma onda de emoções. Era a única foto minha com Xiaojie, tirada numa Polaroid. Eu não sabia que ela ainda a guardava...

A dor aumentava, tão intensa quanto as lembranças. Abandonei de vez a ideia de que “homens não choram” e desabei, chorando sobre a cama, esquecendo o propósito de minha visita.

Só então percebi o quanto ela era importante para mim. Se por Xueying eu sentia carinho, por Yaojie era paixão — uma paixão tão profunda que eu mesmo desconhecia.

Chorei até adormecer, exausto.

Não sei quanto tempo passou. Meio acordado, senti algo suave acariciando meu rosto. Acordando melhor, percebi que eram mãos delicadas, macias, quentes.

Quem era? De quem eram aquelas mãos? Mas era tão confortável...

A consciência logo me trouxe de volta à realidade: eu estava sozinho numa casa há muito tempo desabitada. Um arrepio percorreu meu corpo, acordei de vez.

A chuva... Parara, e a luz suave da lua entrava pela janela, revelando uma mulher sentada ao lado da cama. Ela me olhava com ternura, cobrindo-me com o edredom e acariciando meu rosto.

A garota era Annie. Não, havia algo errado. O olhar dela era familiar, cheio de afeição, de doçura — não o olhar de alguém que só me viu duas vezes.

De repente, uma ideia explodiu em minha mente. Sentei-me, incontrolável, e perguntei com voz trêmula:

— Você... você é Xiaojie?

Ela não respondeu. Apenas me olhou em silêncio e, num tom de repreensão, disse:

— Xiao Ye, dormir sem cobertor de novo? Vai acabar resfriado!

Era ela! Era Xiaojie!

As lágrimas voltaram a correr. Só naquele instante, toda racionalidade se desfez, e eu a apertei com força nos braços, sem pensar em mais nada.

— Xiao Ye, por favor, não faça assim. Estou usando o corpo da Annie, você pode causar problemas a ela — sussurrou, ofegante, mas sem resistir.

— Não! Não quero! Nunca mais vou soltar você! — respondi, inflexível.

Ela suspirou, triste.

O tempo passou, envolto nesse silêncio.

— Xiao Ye, vá embora, volte para seu país. Esqueça esse mistério. Não se envolva com aquilo — pediu, depois de muito tempo, ainda em meus braços.

Fiquei surpreso, recuperei a razão.

— Você me conhece. Deixar um enigma pela metade? Não consigo — larguei-a e, tentando organizar os pensamentos, respondi.

Ela suspirou de novo:

— Eu só criei confusão aqui depois de morrer para espantar todos, com medo de que você investigasse. Mas acabou tendo o efeito contrário, só aumentou sua curiosidade. Que tolice a minha!

— Então era você! — exclamei, boquiaberto.

Agora tudo fazia sentido: por isso o tio Yao se mudou, por isso a região estava tão deserta — era assombrada! Como fui ingênuo, não pensei nisso antes!

Porém... Xiaojie assustando pessoas? Ela, tão doce... Ao imaginar, um leve sorriso surgiu em meu rosto.

— Xiao Ye, em que está pensando? — perguntou Xiaojie, curiosa.

Soltei uma risadinha:

— Só imagino como você ficava, tentando assustar os outros. Aposto que era encantadora.

Ela hesitou, sorriu e logo voltou a entristecer-se:

— Ouça-me, Xiao Ye. Vá embora. Não seja teimoso. O ódio e a ira dela não são coisas que qualquer um possa suportar. Por favor, não se envolva mais!

Perguntei, intrigado:

— Afinal, o que era aquilo?

Xiaojie balançou a cabeça:

— Não posso dizer.

Bufei:

— Eu sei que naquele dia você trouxe um boneco de madeira da igreja abandonada. O resto dos detalhes eu mesmo descubro!

Xiaojie estremeceu, exclamando, chocada:

— Como você sabe?!

— Então é mesmo um boneco? — congratulei-me, silenciosamente, por meu palpite. Era humanoide e sem vida, logo, um boneco fazia sentido. Suspeitava, mas não tinha certeza — agora, confirmara.

Disse, calmo:

— Na verdade, já sei quase tudo. Só falta a última peça. Pode me contar o resto?

Xiaojie quase chorou. Balançando a cabeça, murmurou:

— Não é que eu não queira contar, eu não posso. Sobre ela, não posso falar. Não... eu simplesmente não consigo!

— Mas como pode ser assim? — perguntei, atônito.

Xiaojie, de repente, segurou a cabeça, aflita. Empurrou-me, dizendo aos tropeços:

— Ela já começou a agir. Xiao Ye, prometa que vai deixar aquela cidade, leve minha família com você, o mais longe possível... prometa...

No segundo seguinte, Annie, Xiaojie e eu mergulhamos num silêncio sepulcral...

— Não importa o que seja, Xiaojie, juro que vou vingar você! Essa é minha promessa, Xiao Ye!

Na minha mente, esse pensamento, que nunca me abandonara, tornava-se mais forte do que nunca.