Capítulo Trinta: A Peste (Parte Um)
— Por que você veio junto? — perguntei, inclinando a cabeça para Annie, sentada ao meu lado durante a viagem de volta a Seattle.
Após aquela noite, perdemos mais três dias por motivos que nem vale a pena mencionar, antes de finalmente seguirmos para casa. No entanto, há alguns acontecimentos que preciso relatar.
Primeiro, quem limpou o quarto da irmã Xiaojie não foi outra pessoa além dela mesma. Isso confirmou um pensamento que eu havia reprimido profundamente. Mas por que ela não apareceu diante de mim em forma espiritual?
Segundo Annie, há um odor em mim que impede espíritos puros de se aproximarem — claro, não é algo que humanos possam sentir. Annie possui uma sensibilidade de médium, e por isso a irmã Xiaojie implorou para se manifestar através dela, apenas para me ver. Enfim, sejam pessoas ou fantasmas, tudo é dito por Annie, mas eu não acredito muito.
Outra surpresa: Yaojia também conhecia Annie. Segundo ela, quando moravam em Vancouver, as duas famílias eram vizinhas próximas. A avó de Annie era uma médium famosa na região, e Annie parece ter uma sensibilidade ainda maior, embora lhe falte experiência. Mas, desde que se mudaram para Seattle, o contato entre elas diminuiu muito.
Ao lembrar disso, não pude deixar de rir. Imagine só: uma chinesa de pele amarela, num quarto escuro, vestindo roupas de sacerdotisa negras, sentada diante de uma enorme bola de cristal... Não é engraçado?
Annie pareceu perceber o que eu pensava e lançou-me um olhar irritado:
— Eu e minha avó seguimos as tradições mediúnicas chinesas, não aquelas coisas ocidentais!
Provavelmente irritada por não saber de nada, resmunguei:
— Quem sabe o que vocês fazem. Só de ver, você até trocou de nome para um inglês, Annie! Hmph!
Ela ficou tão furiosa que seu rosto ficou roxo:
— Você é impossível! Quem disse que não tenho nome chinês?!
Olhei friamente para ela:
— Você nunca mencionou.
Ela ficou sem palavras, virou o rosto e murmurou:
— Huang Shiya... Meu nome é Huang Shiya.
— Não ouvi nada! — aproximei o ouvido e gritei de propósito.
— Você... — ela ficou tão irritada que não conseguiu mais falar.
— Vocês se dão bem, hein! — Yaojia virou-se sorrindo para nós.
Eu e Huang Shiya olhamos para ela e, ao mesmo tempo, exclamamos:
— Você tem problemas de visão!
A viagem de volta parecia passar mais rápido. Entre brincadeiras e discussões, as horas voaram.
— Será que Jone já conseguiu descobrir algo? — Jame comentou casualmente.
Franzi o cenho. As últimas palavras da irmã Xiaojie ainda ecoavam em minha mente: “Ela já começou a agir...” Agir! O que significa essa ação? Contra quem? Será que...
De repente, um pensamento me atravessou. Claro! Desde que encontrei o broche de pedra preciosa de Xiaojie na igreja, insisti que ela estava ligada ao incidente do templo. Mas nunca associei o boneco com o ser que convocamos.
Comparando com a natureza do círculo de exorcismo de Abuculus que me recordava, senti um calafrio. Um terrível raciocínio se formou em minha mente...
Se minha hipótese estiver correta, então aquele boneco deveria estar naquele lugar...
O carro entrou na única estrada da cidade, mas encontramos o caminho bloqueado. Policiais armados estavam de guarda na barreira.
Um homem de uniforme chamativo nos deteve:
— A frente está fechada, não podem passar.
Jame, surpreso, esticou a cabeça:
— O que aconteceu? Somos moradores da cidade, saímos há quatro dias!
— O quê?! — O homem mudou de expressão e nos obrigou a sair do carro, colocando-nos numa ambulância enorme.
Após um longo exame, constatou que não havia problemas e então explicou:
— Sua cidade natal foi acometida por uma epidemia há dois dias, a maioria adoeceu. Até que isso seja resolvido, ninguém pode entrar.
Uma onda de choque nos atingiu.
— Meus pais... Como eles estão? — Yaojia perguntou, quase chorando.
— Não sei — respondeu o homem, olhando-a com compaixão. — Mas há alguns não contaminados, alojados em casas provisórias do governo; talvez seus pais estejam lá. — Ele então nos deu um endereço.
O carro voltou a andar, e o silêncio reinou.
— DCUI — murmurei após muito tempo.
— DCUI?! — Jame se virou assustado. — Deal with the Centre in Urgent Incident? — perguntou, repetindo o nome: Centro de Tratamento de Incidentes Urgentes.
— Exato. — Assenti. — Não são policiais comuns, nem do centro de controle de epidemias. São do centro militar de emergências dos Estados Unidos.
— Como sabe disso? — Jame perguntou, tenso.
— Dentro da ambulância, reparei que alguns equipamentos tinham o selo DCUI em locais discretos, não DCP — o selo do Centro de Controle de Epidemias.
Yaojia, confusa, tentou justificar:
— Talvez o DCP estivesse ocupado e mandou o DCUI para cuidar disso.
— Você não entende... — Jame balançou a cabeça. — O DCUI é uma divisão militar permanente, raramente mobilizada. E eles são totalmente diferentes do DCP! Estranho que o DCUI esteja onde há uma epidemia...
— É simples — falei friamente. — Porque o que aconteceu na cidade não é uma epidemia. Se estou certo, ela começou a agir.
— Ela?!
Sim, ela, o boneco. Enfim, compreendi as palavras finais de Xiaojie...
Os supostos não infectados estavam todos alojados num grande hotel fornecido pelo governo. Por sorte, o tio Yao e a tia Yao estavam bem; quando os encontramos, estavam jantando animadamente.
Depois de perguntar de maneira indireta, percebi que ninguém sabia ao certo o que acontecera na cidade, apenas acreditavam no motivo oficial da epidemia fornecido pelo DCUI.
Sem pistas, nós nos reunimos novamente.
Mark também apareceu. Segundo ele, setenta por cento da população adoeceu, e dos vinte e um membros do clube de fenômenos paranormais da escola, restavam apenas três: ele, Jame e Yaojia.
— Vocês ligaram há três dias pedindo para investigar a ligação entre o boneco e o milionário. Soube que Jone teve grandes descobertas, mas ele adoeceu dois dias atrás — lamentou Mark.
— Parece que teremos que nos infiltrar na cidade — pensei em voz alta.
— Mas todas as estradas estão bloqueadas, há patrulhas na floresta, não dá para entrar — Jame estava muito frustrado.
— Conheço um caminho — Mark sorriu. — Mas tenho uma condição.
— Se quiser que eu o leve junto, esqueça. — Olhei firme para ele. — Desta vez irei sozinho, não posso arriscar vocês.
— O quê? Vai sozinho?! — Jame protestou. — Não! Este é um problema da nossa cidade, nós devemos resolvê-lo. Não podemos deixar um estrangeiro assumir o risco!
Olhei para ele, sem saber se ria ou chorava:
— Vocês não perceberam algo?
— O quê? — todos perguntaram, intrigados.
— Pela minha investigação, os moradores que não adoeceram são quase todos recém-chegados nos últimos cinquenta anos. Os antigos moradores estão todos doentes. Isso indica algo óbvio, não acham?
Jame exclamou:
— Você quer dizer que a maldição dela só afeta os moradores originais?
— Sim. Tudo indica que ela guarda rancor apenas dos antigos residentes. Por isso insisto em investigar sozinho; é mais seguro e sensato.
— Nesse caso... Eu não sou daqui, vou com você — Shiya olhou para mim.
— Eu também! — Yaojia, sem querer ficar para trás, levantou a mão.
— Está decidido: Shiya vai comigo — concluí.
— Por que não posso ir?! — Yaojia protestou.
— Simples: você deve ficar com seu tio e tia, para que não se preocupem — falei decidido.
— Que injustiça! Está favorecendo ela! — ela reclamou, emburrada.
Olhei para os quatro ao redor, estendi a mão:
— Amigos!
— Amigos!
Cinco pessoas, dez mãos, uniram-se firmemente...