Capítulo Sessenta e Quatro: A Maldição Misteriosa

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 2928 palavras 2026-02-09 16:19:04

O telefone tocou novamente. Era Shen Ke, que ficou em silêncio por um tempo até dizer, com voz grave:
— Não importa o que aconteça, a vida precisa continuar, não é mesmo?

Eu sorri, um sorriso entorpecido e vazio.

A noite caiu mais uma vez. Olhei para o céu acima de mim, já completamente devastado pela poluição da civilização, e contive o peso do desânimo no peito. Peguei uma maçã vermelha e saí de casa.

Eu precisava ir até aquele prédio descascar a maçã; era o único método que encontrei nos últimos dias para me libertar de toda a dor.

Não me importava se aquele prédio era ou não uma entidade viva. Se quisesse me matar, que me levasse junto!

Olhei o relógio: já era onze e meia. Mais uma noite escura, silenciosa, completamente deserta. O prédio amaldiçoado se erguia feroz na escuridão, ameaçador, mas em silêncio.

Respirei fundo, sentindo uma impressão sutil de que o edifício sussurrava meu nome. Parecia que sabia, há muito tempo, que eu viria; parecia que sempre esperou por mim.

Soltei uma risada fria e pensei: ora, quem não dá mais valor à própria vida tem medo de quê?

Sem hesitar, entrei passo a passo, subi até o quarto andar e abri com um chute a primeira porta à direita.

Dentro do dormitório, todas as coisas preparadas por Mi Jingyun estavam intactas. Empurrei, de uma só vez, mesa, espelho, cadeiras e o que mais havia para dentro do banheiro. Sentei, acendi uma vela e então encarei meu reflexo no espelho.

À luz trêmula e fraca da vela, meu rosto parecia pálido, sem um traço de cor. De repente, o sino da torre tocou, profundo e estridente, o som metálico tornando-se cada vez mais cortante.

O sino soou doze vezes, devagar. Olhei no relógio, era meia-noite em ponto. Que ironia! Não esperava que aquele relógio velho acertasse desta vez.

Peguei a faca de fruta, medi algumas vezes sobre a maçã e comecei a descascar com concentração.

A casca vermelha, em espiral, ia se alongando aos poucos sob a luz fraca da vela. Para falar a verdade, eu não tinha prática nenhuma em descascar maçã; antes, sempre alguém fazia isso por mim, ou então eu a comia com casca mesmo, sob o pretexto de aumentar a ingestão de vitaminas. Por isso, ao começar, a casca saiu grossa e larga, e foi quase um milagre não ter se rompido até então.

Com muito esforço, cheguei até a metade. Enxuguei o suor da testa. Não sei por quê, mas parecia que a casca exalava algo estranho, uma sensação que arrepiava até os ossos. Seria apenas impressão?

— Não aguento mais, estou exausta! — larguei a tarefa, com a cabeça latejando, e resolvi descansar. O processo todo não levou nem três minutos, mas parecia muito mais cansativo que correr uma maratona.

Ao menos faltava só um pequeno pedaço para terminar e separar totalmente a casca da polpa. Espreguicei-me, respirei fundo, e peguei de novo a faca.

De repente, um rato saiu correndo de um canto do banheiro! Assustada, num reflexo, lancei a faca que tinha nas mãos contra o animal.

A lâmina cravou-se com precisão no corpo do rato, pregando-o no assoalho de madeira. Ele se debateu um pouco e em seguida ficou imóvel.

Soltei um longo suspiro. Nesse instante, senti um frio percorrer o corpo inteiro; o banheiro parecia cada vez mais iluminado, certamente mais do que a pequena chama da vela poderia produzir. Levantei a cabeça para ver se, por acaso, a luz do teto tinha acendido, mas o pescoço recusou-se a se mover.

Fiquei paralisada de susto: era o espelho! Dele emanava uma luz branca, espessa e pegajosa.

E aquela luz só aumentava, mesmo com os olhos fechados não adiantava de nada; ela atravessava sem obstáculos e se projetava direto na minha retina. Tudo escureceu subitamente, e vi, dentro do espelho, novamente o banheiro.

Não! Algo estava errado... Não era o mesmo banheiro. O do espelho não estava vazio como o meu; havia vários objetos ali. Havia vaso sanitário, pia e até um toucador, e, embora também sombrio, no espelho, uma vela ardia diante do espelho do toucador.

Uma menina delicada e encantadora estava sentada tranquilamente na cadeira, concentrada em descascar uma maçã.

Faltava apenas uma volta para separar toda a casca da polpa, e ela parecia ainda mais cuidadosa. Segurava a faca com esmero, como se esculpisse uma joia inestimável.

Nesse momento, um rato correu de um canto do banheiro! A menina, já nervosa, soltou um grito agudo e, no reflexo, lançou o objeto que segurava contra o animal...

Logo depois, ao recobrar os sentidos, tudo já estava acabado. O fruto de seu esforço estava despedaçado em vários pedaços.

A menina ficou paralisada, sem ousar mover-se. Não sei quanto tempo passou, até que ela começou a rir alto, incontrolavelmente!

— Veja só, não aconteceu nada afinal. Essas histórias são todas mentiras, e eu quase acreditei! Ha, aquele rato nojento, amanhã vou dar um jeito em você!

Ela ria e ria, como se nunca tivesse sentido tamanha alegria, mas seu rosto, contraído pelo medo, denunciava um terror profundo que não conseguia afastar.

De repente, pareceu ouvir algum som. Estremeceu, apavorada, e virou-se lentamente.

— Amei, o que você está fazendo? — Uma menina surgiu da escuridão do outro lado.

Nimei soltou um suspiro de alívio, levou a mão ao peito e disse:
— Ah, era só você, Shanshan. Quase me matou de susto.

— Você levou a sério a aposta com Mi Jingyun? — Yang Shanshan estava com o rosto muito pálido.

— Claro! Ela disse que, se eu ganhasse, seria minha amiga. — Nimei, com pesar, agachou-se para recolher a maçã despedaçada e suspirou: — Acho que terei que tentar de novo.

— Mas eu sempre disse que Mi Jingyun não precisa de amigos. Ela nunca vai aceitar você! — Yang Shanshan gritou, furiosa.

— Eu sei. — Nimei olhou para ela, sorrindo docemente. — Mas sinto que ela é muito solitária. Quero fazê-la feliz, um pouco que seja.

— Eu nunca vou entender você! — O rosto de Yang Shanshan se contorceu em raiva. — O que você vê nela, naquela mulher detestável? Eu morro de inveja, muita inveja! — Ela agarrou o pescoço de Nimei, sacudindo-a com força. — Você não percebe? Só eu me importo com você, só eu te amo! Só eu!

Nimei começou a tossir:
— Solta, Shanshan, está doendo...

Ela tentou, em vão, afastar as mãos de Yang Shanshan.

— Você nunca entendeu meus sentimentos. — O rosto de Yang Shanshan ficou tomado de veias salientes. Ela empurrou Nimei ao chão, gritando, tomada pela ira: — Sua tola, depois de tudo o que sinto por você, por que vive correndo atrás de outras? Em que sou inferior àquela Mi Jingyun? Fale!

Nimei, sufocada, com expressão de dor, ficou cada vez mais fraca até perder todas as forças.

Só então Yang Shanshan percebeu o que fizera. Bateu levemente em Nimei, nervosa:
— Amei, você está bem? Desculpe, eu não sei o que me deu...

Mas não obteve resposta. Yang Shanshan falou, chorosa:
— Amei, não me assuste! Foi sem querer, juro que foi sem querer...

Aproximou o ouvido do peito de Nimei — nenhum batimento. Nimei fora estrangulada até a morte! Yang Shanshan soltou um grito e fugiu do banheiro às pressas, tropeçando e caindo.

Logo depois, ouviu-se o som dela telefonando:
— Pai, venha até a casa de Nimei, rápido. Eu... eu fiz uma besteira!

Tudo escureceu de novo, a luz no espelho foi se contraindo até sumir...

Fiquei sentada, atônita, sem conseguir reagir, muito menos organizar na mente tudo o que acabara de presenciar.

De repente, uma figura saiu de um canto escuro do banheiro: uma mulher! Era Yang Shanshan.

Ela sorriu docemente para mim:
— Ayê, parece que segui você pelo caminho certo. Agora você já sabe a verdade sobre a morte de Nimei, não sabe?

— Você... me enganou duas vezes! — sorri amargamente. Sempre me considerei esperta, mas, afinal, caí nas armadilhas dela, e não foi só uma vez.

— Mas agora você sabe de tudo — ela riu, belíssima —, estamos quites então.

Yang Shanshan ajoelhou-se diante de mim, ergueu levemente o rosto e seus olhos brilharam intensamente:
— Vamos fazer um acordo, pode ser? Se você guardar este segredo, pode me ter, pode me usar como uma escrava, mandar em mim, fazer de mim o que quiser.

Sorri, sem dar resposta direta:
— Parece um bom negócio, mas, não seria como negociar com o próprio lobo?

— Claro que não. — Yang Shanshan sorriu docemente. — Não sou um lobo, apenas uma ovelhinha indefesa.

Seu rosto era pura alegria. Com a mão direita escondida atrás das costas, pegou discretamente o punhal preso à cintura e, num movimento rápido, cravou-o na minha direção, que estava tão perto...