Capítulo Oitenta e Cinco: Queimando Zumbis (Parte Final)
— Encontrou alguma coisa? — Aprendendo com a minha lição anterior, Terceirinho entrou engatinhando devagar.
— Shhh, silêncio. Não faça barulho para não assustar ninguém! — gritei em direção ao pequeno buraco — Você entra pelo túnel mais à esquerda, eu vou pelo da direita. Se em dez minutos nenhum de nós achar nada, voltamos para cá e repensamos o plano! — ao terminar, agarrei a mão do Terceirinho e escrevi: — Vamos juntos pelo túnel do meio.
— Por quê? — Terceirinho coçou a cabeça, claramente confuso.
— Seu tonto! Qiwei, aquele tolo, já é um idiota, não me diga que você quer ser igual a ele. — escrevi rapidamente em sua mão — Olhe para as marcas de água no chão, não viu que elas entram direto no túnel do meio? O que falei antes foi só para despistar quem está lá dentro, para que baixem a guarda. — Ainda irritado, dei-lhe um chute e o empurrei para dentro do túnel central.
Sem ousar usar a lanterna, pedi ao Terceirinho que imitasse meus movimentos, tateando cuidadosamente as paredes estreitas, enquanto eu me esforçava para captar qualquer som ao redor.
Mal havíamos avançado quando o caminho se abriu de repente, revelando um amplo espaço. A escuridão era total, impedindo qualquer noção de direção. Ao soltar a parede, senti-me completamente desamparado, como se toda a segurança tivesse desaparecido num instante, deixando minha vida à mercê do acaso.
O túnel interno era um mundo à parte. O ar úmido circulava lentamente, junto com dois odores fétidos e indefiníveis, que se entrelaçavam e torturavam minhas narinas, tornando impossível distinguir do que se tratava.
Um frio úmido e rastejante subia dos meus pés até o topo da cabeça, fazendo-me estremecer involuntariamente. Era uma sensação estranhamente familiar: lembro que das últimas vezes em que a senti, acabava desmaiando por causa de Zhang Wenyí. Pisquei, atento aos arredores, quando de repente avistei um par de olhos verdes e brilhantes bem diante do meu nariz, acompanhados de um cheiro pútrido — o fedor de um corpo em decomposição!
— Terceirinho, é você? Qiwei? — gritei, tomado pelo pavor, esquecendo completamente todas as recomendações dadas minutos antes.
Maldição! Minha consciência estava clara demais para sequer cogitar desmaiar. Meu raciocínio gritava que, embora olhos humanos possam emitir algum brilho no escuro, jamais seriam tão intensos quanto aqueles, tão próximos de mim. Aquilo definitivamente não era humano!
De repente, senti minhas mãos serem agarradas com força por um par de mãos, apertando meu pescoço cada vez mais. Lutando para conter o medo, tentei em vão arrancá-las. Minha força era inútil diante daquele ser.
Desisti. Com um último esforço, tirei do bolso o dispositivo elétrico de defesa, pressionei-o com força contra a criatura e ativei o botão, despejando rajadas de corrente azul através do corpo daquele ser, que ziguezagueavam pelo escuro. O cheiro de queimado misturava-se ao da carne podre.
Mas nada parecia surtir efeito. A coisa só apertava ainda mais meu pescoço! Senti minha consciência se esvaindo, até que, num último ato, saquei a lanterna e apontei diretamente para os dois olhos verdes, ligando-a.
Um facho de luz intensa iluminou o espaço. Assustada, a criatura largou meu pescoço, cobriu os olhos e se encolheu num canto.
Finalmente salvo! Agarrei meu pescoço, respirando com dificuldade, sem me importar se o ar era nauseante. Terceirinho estava parado a poucos metros de mim, lívido de medo, suando frio.
— Transformação cadavérica! Realmente aconteceu! — ele levou um tempo para recobrar os sentidos e então, em pânico, gritou: — Céus! Sempre ouvi minha avó contar, mas é a primeira vez que vejo isso de verdade! Que horror! Se eu não tivesse esvaziado toda a água do corpo antes, teria me urinado e defecado de medo!
— Seu covarde, nem tentou me ajudar, para que serve ser um charlatão? — tossi dolorosamente enquanto observava a criatura. O que vi quase me fez desmaiar de susto.
A coisa que quase me matou era o cadáver de Zhang Xueyun, desaparecida há tanto tempo! Seu corpo inchado já começava a apodrecer e ceder, com vermes rastejando nas fendas da carne. Zhang Wenyí ficou três dias e três noites ao lado de algo tão horripilante? Passei a admirar seu amor pela irmã.
— Você sente outro cheiro forte neste túnel? Consegue identificar? — Mesmo vendo o corpo de Zhang Xueyun imóvel, ainda não me sentia seguro. Mantive a luz sobre ela e perguntei ao Terceirinho.
Ele aspirou profundamente, cuspiu de nojo e disse: — Não sei o que é, mas parece familiar!
— Deixa pra lá, melhor pensarmos em como carregar o corpo de Zhang Xueyun de volta. — Dei de ombros, sentindo a mente clarear aos poucos.
Estranho... Lá fora, havia marcas de água frescas levando até aqui, mas dentro só estava o corpo de Zhang Xueyun. E Qiwei, o tal “raposa”? Será que superestimei suas habilidades? Talvez ele nunca tenha achado nada ou nem tenha vindo até aqui. Então, de quem eram aquelas marcas d’água? Seria Zhang Wenyí?
Examinei o entorno, atento, quando vi um clarão vermelho na saída. Uma faísca riscou o ar, caiu no chão e, num estrondo, transformou-se em chamas que avançaram vorazes na nossa direção.
— Droga! Então era cheiro de gasolina... Alguém espalhou gasolina por todo o chão, por isso o cheiro era tão familiar! — xinguei, arrastando Terceirinho para o fundo do túnel. — Rápido, se demorarmos vamos morrer! — gritei — O ar aqui é absurdamente úmido, deve haver um rio subterrâneo ou poço por perto!
E não deu outra, encontramos logo. Radiante, empurrei Terceirinho para baixo e pulei em seguida. O fogo se espalhava pelo túnel, lambendo o corpo de Zhang Xueyun até envolvê-lo totalmente. O cadáver gritava de raiva, ardendo e exalando um cheiro insuportável de carne queimada, caminhando lentamente em direção à sombra na entrada, que observava tudo, absorta, sem vontade de sair.
— Mulherzinha tola, em vida já te manipulava como queria, e agora, mesmo morta, sigo te usando. O que pode fazer contra mim? — a sombra ria alto — Era a voz de Qishimu. Só então, ao ver o cadáver em chamas se aproximar, saiu calmamente pelo túnel.
O corpo, não resistindo ao calor, tombou ao chão.
Como o local era úmido e não havia nada inflamável, o fogo logo foi se extinguindo após consumir toda a gasolina. Passos apressados soaram, alguém entrou correndo, sentindo que algo estava errado.
— Irmã! — exclamou uma silhueta esguia, surpresa. Era Zhang Wenyí.
— Irmã! Como isso pôde acontecer? O que aconteceu aqui? — ela caiu de joelhos, desesperada, balbuciando, os lábios tremendo de dor.
— Qishimu, aquele desgraçado, jogou gasolina no túnel... — Terceirinho tentou ajudá-la a se levantar.
Zhang Wenyí o empurrou com força e gritou, furiosa: — Não acredito! Foram vocês, só podiam ser vocês! Ouviram boatos, acharam que minha irmã viraria um espírito vingativo e atearam fogo ao corpo dela! Devolvam minha irmã! Ela era tão bondosa em vida, nunca fez mal a ninguém, por que vocês fazem isso com ela?
Ela bateu no meu ombro com força. Segurei sua mão, e, num ímpeto, dei-lhe um tapa e gritei: — Basta! Sua irmã já está morta, morta! Por que insiste em não aceitar?
Zhang Wenyí olhou para mim, vazia, a morte transparecendo no olhar. Por fim, não resistiu e desabou em prantos no meu peito...