Capítulo Quatro: A Caverna dos Espíritos

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 3984 palavras 2026-02-09 16:13:37

Dizem que o maior inimigo do ser humano não é ele próprio, mas sim a sua incapacidade de conter a vaidade. Naquela noite, a vaidade do Pato acabou por vencer o medo que sentia, e, à meia-noite em ponto, ele foi, como combinado, com aquele grupo de garotos até o bosque de cânforas junto ao quiosque.

O que segue é o relato que ouvi dias depois do chefe daquela turma de alunos do primeiro ano, chamado Lyu Ying. Sempre que chegava em certos pontos da história, suas mãos tremiam levemente, como se ainda hoje estivesse tomado pelo medo. Não sei se ele mentiu para mim, pois alguns detalhes pareciam exagerados demais. Peço atenção: vou registrar esta história em primeira pessoa; o “eu” a seguir refere-se sempre a Lyu Ying.

Assim que o relógio bateu meia-noite, fui até o antigo quiosque da escola. Para minha surpresa, todos aqueles que costumavam se atrasar já estavam lá. O Pato... digo, o veterano Wang Wei também chegou, mas parecia desanimado, talvez não tivesse dormido bem na noite anterior. Não dei muita importância.

Na verdade, depois de ter me separado dos veteranos e voltado ao dormitório na noite anterior, já havia descoberto a lenda sobre o bebê chorão. Contei aos outros sobre isso. Eles ficaram eletrizados; alguns até levaram pás e ferramentas, jurando que iriam desenterrá-lo para uma aula de anatomia humana.

“Já faz tantos anos, deve ter restado só os ossos”, disse um colega. Imediatamente, alguém discordou: “Mesmo assim dá para dissecar, podemos separar os ossos com as mãos. E aí a gente vê se o esqueleto humano é igual ao que está nos livros.” Falavam animados, como se o corpo do bebê já estivesse em suas mãos, pronto para ser manipulado.

No fundo, nem sabíamos o porquê de tanta empolgação, como se algo nos agitasse por dentro. Notei, porém, que Wang Wei apenas observava tudo em silêncio, com um olhar frio. De repente, ele perguntou: “Querem desenterrar o bebê? Mas sabem onde ele está enterrado?” Ficamos todos calados.

De fato, só sabíamos que ele estava no bosque de cânforas, mas não exatamente onde. O que mais me surpreendia era a atitude de Wang Wei, pois ouvira muitos rumores sobre ele — diziam que era interesseiro e covarde. Para ser sincero, parte do motivo dessa aventura era ver o veterano passar vergonha, mas ele estava surpreendentemente calmo.

O vento aumentava, soprando um frio pela espinha; a noite estava escura, não havia lua. Estranho, pouco antes a lua brilhava alto. “Você sabe, por acaso?” alguém perguntou. O veterano resmungou: “Com veteranos, fale com respeito!” O rapaz se irritou, mas não conseguiu conter a curiosidade e, fingindo respeito, perguntou: “O senhor sabe, veterano?” “Não sei”, ele respondeu lentamente.

“Então por que esse ar de sabichão?” alguns não resistiram e gritaram. Mas Wang Wei não se abalou: “Mesmo sem saber, posso deduzir o local.” “Deduzir?”, zombou o rapaz, “Por acaso o senhor acha que é Sherlock Holmes?” O veterano ignorou, dizendo com tranquilidade: “É simples. Imaginem: dois indivíduos, um nervoso e distraído; o outro, exausto e fraco. Eles querem esconder algo neste bosque, algo que nunca mais desejam ver nem que outros encontrem. Onde esconderiam?”

“Num lugar que ninguém frequenta...” murmurou alguém, de repente tendo um estalo: “Ah! No extremo sul do bosque!” Ali havia duas tumbas solitárias, que por algum motivo a escola ainda mantinha. O local era sempre sombrio e assustador, raramente alguém se aproximava.

A turma, animada, pegou suas ferramentas e correu para lá. Eu fiquei ainda mais intrigado, pois nunca ouvira falar das habilidades dedutivas do veterano Wang Wei, nem que fosse tão corajoso; afinal, ele corria na frente de todos.

Será então que os rumores eram enganosos? Mas o veterano que vi ontem era como um sujeito vulgar, daqueles que nem se destacam na multidão. Agora, parecia um verdadeiro erudito! Em poucas horas, uma pessoa mudara tanto o caráter? Cheio de dúvidas, segui junto com o grupo.

Chegando lá, todos começaram a examinar o lugar: era uma clareira de uns vinte metros quadrados, com duas tumbas antigas em posições estranhamente dispersas. Não era a primeira vez que íamos ali, mas nunca havíamos prestado atenção de verdade aos detalhes do entorno, nem percebido que havia tantas cânforas — tantas que não sabíamos por onde começar.

Diante da indecisão, muitos voltaram o olhar para o veterano. Ele disse devagar: “Numa situação dessas, você esconderia o objeto no lugar mais seguro possível, que seria...” “Já sei, está dentro de uma dessas tumbas!”, alguém exclamou, e logo todos concordaram em coro.

O veterano lançou-lhe um olhar fulminante, incomodado por terem interrompido seu raciocínio: “Acha mesmo? Então tente!” O rapaz resmungou, pegou a pá e se aproximou de uma das tumbas, mas ao começar a cavar, hesitou, e depois voltou em silêncio, arrastando a pá.

“O que houve?” alguém perguntou curioso. “Impossível estar ali”, murmurou. O veterano explicou: “Você ao menos pensou. Claro que não seria ali, a terra do túmulo é dura demais para aqueles dois, e o mais importante: a luz do poste.”

“O poste?”, todos se espantaram. “Sim. Há décadas, os postes da escola mudaram de óleo para eletricidade, mas a posição basicamente não mudou. Aqui, mesmo sendo isolado, a luz ainda alcança as tumbas. Qualquer claridade poderia expor o segredo — arriscado demais. Se fosse comigo, escolheria solo macio, longe da luz.”

“Neste lugar, só há um ponto assim.” O veterano olhou ao norte. No limite do poste, uma grande cânfora branca se erguia na escuridão. “Está ali!” Todos correram animados, cavando freneticamente sob a árvore.

Até hoje não entendo por que ficamos tão envolvidos, era a primeira vez que sentia tamanha euforia, como se, em vez de restos mortais, estivéssemos prestes a encontrar um tesouro fabuloso. Não consegui manter a calma e cavei sem parar. Por acaso, ao erguer o rosto, vi que Wang Wei não ajudava; apenas assistia, com um sorriso estranho nos lábios...

Fiquei atônito, mas antes de raciocinar, ouvi o som da pá batendo em algo duro. “O que é isso? Parece concreto.”, murmurou quem cavava. “Quebre isso”, ordenei sem hesitar, sem ao menos pensar por que haveria concreto ali; apenas sentia que os ossos deviam estar abaixo.

Com um estalo, a terra dura finalmente cedeu sob o esforço coletivo, e uma rajada de vento frio nos atingiu, causando calafrios. De repente, um som estranho começou a ecoar — era o choro de um bebê! O som, assustador, reverberava pelo bosque, mas o pior era que não vinha do buraco, mas de cima, sobre nossas cabeças.

Nosso entusiasmo se dissipou imediatamente diante do pavor. Nesse momento, o veterano começou a rir com um tom sinistro. Ágil como um gato, escalou a cânfora branca, subindo quase sem galhos com uma velocidade impossível até para um alpinista profissional.

No topo, entre a folhagem densa, tirou um saco azul-claro e, em seguida, saltou de mais de dez metros de altura até o chão. Acredite, não estou exagerando: ele realmente pulou e não se machucou, apenas riu e nos disse: “Não queriam ver os ossos do bebê?” Erguendo aquele saco, já muito danificado pelo tempo, começou a abri-lo...

Céus! Lá dentro havia um bebê vivo, ainda em desenvolvimento! O bebê chorava sem parar, agitava as mãozinhas. De repente, sangue escorreu de seu rosto, vermelho, horripilante. Mas ele continuava a chorar e a se debater...

“Mamãe!” — alguém gritou, e todos nós, como se obedecendo a uma ordem, saímos correndo em disparada. De volta ao dormitório, quanto mais eu pensava, mais estranho parecia. Será que o veterano estava pregando uma peça? Será que ele sabia do nosso plano e quis nos fazer passar vergonha?

Mesmo assim, sua atuação foi perfeita — ninguém desconfiaria! Fiquei ao mesmo tempo admirado e aliviado do medo, e passei a noite elaborando estratégias para remediar o vexame. A vergonha já estava certa, só precisava diminuir o prejuízo.

Na manhã seguinte, fui à sala do veterano, tentando pegar a dianteira e exigir explicações por nos assustar daquela maneira. Talvez ele se atrapalhasse e desse o assunto por encerrado. Mas o veterano não apareceu na aula.

Será que estava em casa, escrevendo um relato para espalhar pela escola? Pensei comigo. Não satisfeito, depois da aula, juntei dois colegas e voltamos ao cemitério para procurar falhas no plano do veterano — ao menos encontrar algum cúmplice que tivesse ajudado.

Para nosso espanto, não havia qualquer sinal de escavação sob a cânfora branca. Tomado pelo espanto, olhei para o topo da árvore. No local onde o veterano pegou o saco, parecia haver ainda um objeto azul.

Nenhum de nós teve coragem de pegá-lo. Achamos que tudo acabaria aí, mas poucos dias depois, fui procurado pela polícia e descobri que o veterano estava desaparecido.

Aquilo já era uma infração às regras da escola; com alguém desaparecido, não ousamos contar nada — corríamos o risco de sofrer uma sanção grave.

Lyu Ying terminou de contar tudo de uma vez só, e por fim disse: “Droga! Quem pode me explicar o que aconteceu afinal?” Dei de ombros, com a cabeça cheia de dúvidas, e fiz mais algumas perguntas, mas suas respostas não traziam esclarecimento algum.

Lyu Ying, ofegante, exausto, suplicou: “Veterano, pelo amor de Deus, não me pergunte mais nada. De hoje em diante, não quero mais ouvir falar desse assunto!” E foi embora, com as costas arqueadas, como alguém completamente esgotado.

A curiosidade é como um vício, que tortura o espírito; por mais que eu pensasse, não encontrava explicação. Se Lyu Ying disse a verdade, quem apareceu naquela noite com certeza não era o Pato — aquele idiota jamais teria tamanha inteligência. Mas se minha suspeita estiver certa, surge uma questão:

Afinal, quem foi que aqueles garotos do primeiro ano viram naquela noite? Ah, esta história se torna cada vez mais inexplicável! De repente, lembrei da frase que disse sem pensar dias atrás: “Mesmo que o Pato morresse de maneira inesperada e se tornasse um fantasma, ele ainda cumpriria o combinado.” Um calafrio percorreu meu corpo.

Não, não existem fantasmas no mundo. Será que ainda há algo oculto nessa história que desconheço?