Capítulo Oitenta e Quatro: Queimando Zumbis (Parte II)
Mas agora, a única certeza é que todas as dúvidas e pistas apontam para Zhang Weny. Ela levou o corpo da irmã e, ao mesmo tempo, parece tramar algo nas sombras. Se a encontrarmos, talvez tudo seja esclarecido...
A chuva de inverno começou a cair fina e constante, gelada. O vento lançava gotas em meu rosto já ressecado, cortando-o como lâminas, a ponto de quase me fazer chorar de dor.
“O que será que aquele sujeito carrega nas costas? Parece pesado,” murmurou Terceirinho, lançando um olhar desconfiado para Qiwei, que nos seguia devagar.
“Não sei,” respondi, balançando a cabeça com sinceridade.
“Você nem sequer perguntou?” Terceirinho se impacientou.
“Não,” insisti, ainda negando.
Terceirinho ficou indignado. “Esse cara é suspeito! Mandou a gente esperar na pousada, enrolou um tempão e, no fim, voltou com uma trouxa duvidosa nas costas. Não faço ideia do que está tramando!”
“Se você também desconfia, por que não vai perguntar diretamente para ele?” sorri com desprezo.
“Como se ele fosse me dizer a verdade!” Terceirinho bufou, irritado.
“Então não há o que fazer.” Acelerei o passo.
Terceirinho correu atrás de mim. “Quem disse que não há? Nós dois podemos pegar a mochila dele à força e vasculhar!”
Sorri amargamente. “Essa ideia é a mais criativa que ouvi este ano. Vou guardar para uma ocasião especial.” Baixei a cabeça e observei atentamente o terreno, então apontei para a frente: “Chegamos. Tenho certeza, foi ali que desmaiei ontem à noite.”
Qiwei apressou o passo. Naquele instante, vi em seu rosto um leve e difícil de perceber movimento de emoção, uma mistura de surpresa, alegria contida e medo.
Há algo estranho! Ele parece ter descoberto alguma coisa. Será que Zhang Weny deixou alguma pista aqui? Olhei ao redor com atenção, maldição! Nada. O capim amarelado, o solo tão macio que quase engolia o salto do sapato... Tudo muito comum, exatamente como ontem. Que detalhe ele percebeu e eu, não?
“Preciso resolver um problema urgente, posso procurar um canto?” Qiwei sorriu constrangido.
“Fique à vontade.” Olhei para Terceirinho. “Você também não estava apertado? Por que não vai com o Qiwei? Assim para de reclamar que sou insensível.”
Já que a situação chegou a esse ponto, não vou perder tempo fingindo cordialidade com ele. Aquele pequeno raposo quer nos despistar? Que ilusão! Meu raciocínio ainda não chegou a esse nível de ingenuidade.
Terceirinho entendeu meu recado, resmungou algo e acompanhou Qiwei. Aproveitei para observar tudo novamente. Sentia que algo estava errado, como se houvesse uma diferença em relação à noite anterior. Fiquei frustrado, tentando lembrar.
Fiquei ali, parado sob a chuva fria por não sei quanto tempo, até que Terceirinho surgiu correndo, apavorado: “Noite Silenciosa, aquele maldito Qiwei sumiu!”
Fiquei tão chocado que quase caí de costas no chão. “Eu não te disse para ficar de olho nele?” Furioso, agarrei-o pela gola.
Terceirinho protestou, injustiçado: “Eu estava mesmo vigiando! Até na hora de mijar não desgrudei o olho dele. Molhei minha calça por isso!”
Soltei-o rápido, dando dois passos para trás, deprimido. “Então como ele desapareceu?”
“Também não entendi. Só virei um pouco para me limpar e, quando olhei de novo, ele não estava mais lá.”
“Será que se escondeu em algum buraco?” pensei em voz alta.
“Pode ser,” disse Terceirinho, desanimado. “Se ele entrou mesmo num buraco, não vamos achar nunca.”
Dei um tapinha no ombro dele, amargo. “Deixa pra lá, a culpa é minha. Agora o importante é descobrir o que aquele pequeno raposo percebeu e nós não.”
“Ele encontrou algo que nem você percebeu?” Terceirinho arregalou os olhos, incrédulo.
“Cansou de viver, é? Vai me insultar agora?” Dei-lhe um chute, levantando um monte de lama com a bota grossa. Nesse instante, uma ideia relampejou em minha mente e gritei, excitado: “Já sei! Descobri finalmente o que mudou desde ontem: é o solo!”
“O solo?” Terceirinho massageou a parte dolorida, confuso.
“Isso mesmo! Porque fazia dias que não chovia na cidade, então ontem à noite a terra do morro ainda estava dura como concreto. Mas, logo depois de eu desmaiar, começou a chover, e a terra ficou macia. Assim, é natural que as pegadas de Zhang Weny tenham ficado marcadas.
“Se eu for até o local onde desmaiei e seguir os rastros dela, com certeza encontrarei onde ela se escondeu. Maldição, como não pensei nisso antes? É uma pista tão óbvia!” O entusiasmo logo deu lugar ao remorso.
O rosto de Terceirinho empalideceu. “Você quer dizer que aquele Qiwei já percebeu isso e está à nossa frente? Droga, Weny pode estar em perigo!” E saiu correndo morro acima.
“Moleque burro, volta aqui para procurar pegadas! Correr à toa serve de quê?” Agarrei-o pela gola, gritando rude.
Como imaginei, no local onde desmaiei havia marcas claras de pés femininos e também sinais de algo pesado sendo arrastado. Não precisei pensar muito para concluir que o tal peso era eu mesmo. Não é à toa que acordei de manhã com as costas cheias de terra seca.
Ah, aquela garota, que brutalidade!
As pegadas seguiam uma linha torta e desajeitada. Claramente, Zhang Weny quis ir em linha reta, mas, por arrastar algo pesado, tropeçou várias vezes, até desistir e tomar o caminho mais sinuoso. Pobre do meu casaco de grife!
A trilha seguia pelo morro à esquerda por uns trezentos metros até desaparecer de repente.
“Outro mecanismo escondido?” Impaciente, pisei forte onde a trilha sumia. De repente, senti o chão ceder e, ao ouvir o grito de Terceirinho, rolei morro abaixo de modo desajeitado.
Que tipo de buraco é esse, ainda coberto com grama? Cobrir, tudo bem, mas por que não pôr mais camadas? Só para eu me esborrachar todo? É pura maldade, um armadilha perfeita! Irritado, levantei, peguei a lanterna e examinei o lugar.
Não era um espaço muito grande, mas estava seco e o ar era fresco, pois havia muitos orifícios nas paredes que levavam para fora. À direita havia três passagens, estreitas, só para corpos magros como eu e Terceirinho. Realmente era um bom esconderijo.