Prólogo Um
Dizem que, neste mundo, cada grão de terra e cada pedra possuem um significado especial. Seu valor não é tão simples quanto os humanos imaginam. Talvez seja verdade; quando objetos inanimados recebem o afeto íntimo das pessoas e passam a ter alegrias, tristezas, raiva e sofrimento, como será que este mundo se transforma? Não sei ao certo, talvez você queira descobrir…
Já testemunhei muitas mortes, mas a morte deste conto foi a mais trágica, estranha e inesquecível. Tudo começa há mais de cem anos, nos Estados Unidos.
“Eu te amo... eu te amo...”
Uma voz doce ressoava no quarto escuro daquela meia-noite, mas não vinha de uma bela jovem, e sim de um recém-criado boneco de madeira.
Sem dúvidas, era um boneco belíssimo: cabelos dourados, vestido branco, corpo delicado, com um laço cor-de-rosa nas costas — um mecanismo oculto de mola. Sempre que o mestre dava corda, o boneco ganhava vida, expressando alegria e paixão ao criador que dedicou tanto esforço à sua construção, repetindo incessantemente aquelas três palavras: eu te amo.
Seu dono era um artesão de bonecos de madeira, solteiro e com mais de quarenta anos, talentoso, mas nunca reconhecido, o que o impedia de conquistar o coração de qualquer mulher.
Dez anos atrás, chegou a considerar o matrimônio, mas quando a pretendente viu seu quarto sujo e sem nenhum objeto de valor, saiu sem olhar para trás.
Desde então, o pobre artesão abandonou a ideia de casar e passou a se dedicar inteiramente à criação dos bonecos de seus sonhos, recluso em seu próprio quarto.
Até que, finalmente, num dia, ele terminou sua obra-prima: Filha, o melhor boneco que já construíra. Deitou-se excitado em sua cama velha de solteiro, segurou o boneco chamado Filha diante dos olhos e ouviu, repetidamente, sua declaração.
Os olhos esculpidos de Filha pareciam carregar vida, sempre olhando para ele com profundo carinho, como se estivesse repleta de amor infinito.
O artesão suspirou longamente: “Ah, Filha, como seria maravilhoso se tivesses vida! Será que te casarias comigo...?”
O rosto do boneco pareceu escurecer, demonstrando uma expressão de pesar, como se lamentasse ser apenas um boneco, capaz de dizer apenas três palavras.
O artesão não percebeu essa expressão; apenas sorriu e murmurou: “Ah, sou mesmo um tolo. No fim das contas, ter ou não uma esposa, que diferença faz? A partir de hoje, és minha esposa... Uma esposa de cinco anos de convivência. Desde que escolhi teu corpo no mercado de madeira usada, até esculpir teu torso lentamente no cedro perfumado, passaram-se cinco anos. Ninguém te conhece melhor que eu, ninguém me compreende melhor que tu!”
Enquanto falava, colocou o boneco sobre o peito.
Filha continuava a declarar seu amor para aquele que lhe dedicara tudo, apoiando-se no peito magro dele, transmitindo calor, até que o mecanismo nas costas fez um “clic” e chegou ao fim, obrigando-a a parar, a contragosto.
Os dias passaram, monótonos, enquanto o artesão de bonecos ficava cada vez mais pobre, a ponto de não conseguir resolver nem as necessidades básicas.
“Você está devendo seis meses de aluguel. Se não pagar este mês, temo que terá de sair.”
O proprietário, normalmente gentil, veio novamente cobrar; o artesão concordou timidamente, mas estava totalmente perdido. Há dois meses ninguém encomendava bonecos, e ele não sabia fazer outra coisa além disso.
“Filha, o que devo fazer? Sou mesmo tão inútil?” Olhava o boneco com tristeza, por fim sorrindo amargamente: “Desculpe, quase esqueci que, além de repetir três palavras, não sabes fazer nada...”
Nos olhos de Filha transpareciam compaixão e tristeza, como se odiasse sua própria incapacidade.
De repente, ela tombou para a esquerda e caiu da mesa.
O artesão exclamou assustado, pegando-a apressado, examinando-a cuidadosamente até suspirar de alívio: “Ainda bem que não aconteceu nada. Se algo te acontecesse... eu não teria mais nada.”
Então, seus olhos se fixaram casualmente no local onde o boneco caíra.
Era o jornal do dia, estampando um grande anúncio: “Concurso de Bonecos! Qualquer um confiante em sua obra pode participar. Inscrições em...”
“Excelente! Era exatamente o que eu precisava!” O artesão, animado, beijou Filha: “Tenho certeza de que ganharás o primeiro lugar! Eu acredito! O prêmio é generoso, suficiente para pagar o aluguel e todas aquelas contas sobre a mesa.”
Cuidadosamente, levou seu boneco consigo, cheio de esperança para o futuro, e saiu.
Do lado de fora, o sol era intenso e belíssimo. Ele, porém, não sabia que, ao cruzar aquela porta sem hesitar, estava iniciando uma tragédia que se prolongaria por séculos...