Capítulo Trinta e Cinco: Amor Deformado

Arquivos Misteriosos de Ye Buyu Noite Sem Palavras 4620 palavras 2026-02-09 16:15:54

Quando recobrei a consciência, só percebia o vento ao meu redor. Minha mente estava completamente confusa, quase um vazio absoluto.
O vento, de origem desconhecida, soprava sem aviso e, de repente, tornou-se forte. Sem entender o motivo, estava sentado sozinho na encosta atrás da casa dos Yao, tocando flauta para a floresta aos meus pés.
De repente, lembrei que meu pai, aquele intelectual pedante, costumava dizer que o som da flauta tem vida própria; ele transmite o estado de espírito de quem toca e afeta quem ouve. Meu pai muitas vezes exagerava, mas, como dizem, até os dentes de cachorro têm seu valor. Pelo menos, essa frase fazia sentido para mim.
Por algum motivo, meu humor estava péssimo. E, sob esse estado deplorável, a melodia que fluía da minha flauta, embora alta, era desordenada, impossível de formar um tema coerente.
O vento, silencioso, acompanhava esse som de flauta triste, e sua força, capaz de virar o mundo, agora se manifestava com suavidade, como se quisesse acalmar um coração perdido na incerteza...
De repente, como se tivesse recordado algo, parei por um instante e só então percebi que já não lembrava desde quando estava naquele lugar sombrio. Meu corpo todo estava cansado, o humor irritadiço. Eu realmente não queria continuar tocando, mas não conseguia afastar a flauta dos lábios.
E assim, a melodia profunda e opressiva, que só piorava meu ânimo, continuava a soar entre meus suspiros.
Maldição! Não sei quanto tempo passou, mas finalmente esse estado torturante cessou.
Soltei um longo suspiro, pronto para jogar longe o instrumento que quase me enlouquecia, mas, para minha surpresa, minhas mãos levaram a flauta novamente à boca.
Desta vez, o som tornou-se de súbito suave, como se quisesse rivalizar com o vento. A melodia indesejada misturou-se sutilmente ao ar, ecoando sobre a floresta.
Ao longe, o último vermelho pálido do entardecer ainda cumpria fielmente seu papel de iluminar a terra. A luz fraca, constrangida por sua própria impotência, escondia-se atrás das árvores tingidas de carmim. Olhei e não pude evitar admirar: era uma árvore erguida com altivez, que não se curvava ao vento forte; mesmo tendo galhos despedaçados e dilacerados pelo vendaval, não demonstrava submissão alguma.
A flauta mudou de tom novamente; reconheci a melodia — era “Pequena Relva”. Não podia ser, essa canção que mal ouvira uma ou duas vezes, como seria capaz de tocá-la?
Finalmente consegui afastar a flauta dos lábios e, ofegante, quis jogá-la longe, mas, ao erguer o braço, ouvi aplausos atrás de mim.
O susto foi tal que quase rolei morro abaixo. Virei-me surpreso e vi que toda a família do tio Yao estava atrás de mim, junto de Huang Shiya.
Hoje, ela vestia um conjunto branco, a pele incrivelmente alva. Sempre bela e delicada, não sei por quê, estava ainda mais deslumbrante; suas curvas e graça irradiavam um encantamento indescritível. E, o mais marcante, aquele grande laço rosa em seus cabelos, que, sob a luz tênue do entardecer, emitia um brilho pálido e cativante.
Shiya, com as mãos nas costas, sorriu para mim — um sorriso lindo, verdadeiramente lindo...
— Tocaste muito bem! — elogiou ela, piscando de modo travesso. — Antes dizias que eu não tinha nenhum encanto de garota oriental, que só ficaria bonita com um laço. E agora? — Shiya abaixou a cabeça, balançando-a de leve.
Sem saber por quê, senti-me repentinamente mais leve, como se um peso guardado há tempos tivesse finalmente se dissipado. Alonguei as pernas doloridas e, só então, levantei-me com calma.
— Vocês conversem à vontade, nós, velas acesas, já vamos nos retirar! — disse o tio Yao, lançando-nos um olhar maroto e, rindo, puxou a esposa e a filha para dentro da casa.
Olhei para Shiya, divertido. Desde quando minha relação com ela se tornara tão próxima?
Vi Huang Shiya, inquieta, apertando a barra da saia, hesitante. Demorou, mas finalmente falou:
— Hoje é meu aniversário. Quero te convidar para a festa de hoje à noite. Se não puderes, eu...
Ela não completou a frase, pois abaixei a cabeça. No fundo do peito, algo se agitava de maneira inquieta. Sem motivo, sentia que havia algo errado nesse momento de harmonia.
Ficamos assim, frente a frente, como se competíssemos em silêncio para ver quem aguentava mais.
O vento aumentou, agitando continuamente o vestido branco de Shiya. Ela parecia não sentir nada, imóvel, os olhos marejados. Reconheci a cena: em novelas românticas, quando a protagonista exibe tal expressão, lágrimas são inevitáveis na cena seguinte!

Sempre temendo ver uma garota chorar, levantei as mãos, rendido:
— Nunca disse que não iria. Convites de belas garotas, eu, Noite Silenciosa, jamais recuso! — Escolhi as palavras com cautela e, vendo o rosto prestes a chorar de Huang Shiya, acrescentei:
— Vai me esperar no carro, preciso pegar umas coisas.
Claro, aniversário pede presente. Revirei todos os bolsos e só encontrei uma caixinha de bijuteria. Ora essa, quando fiquei tão pobre assim? Não havia jeito! Olhei ao redor, peguei uma pedra razoável do chão, coloquei na caixa e planejei confiar na minha lábia para enganá-la.
— Aconteceu algo que te deixou triste? Hoje tua flauta estava cheia de melancolia. — O carro deslizava pela estrada escura. Ao redor, só trevas, o farol cortando o breu à frente. Shiya, talvez querendo romper o silêncio entre nós, finalmente perguntou.
— Nada demais. — Sorri sem jeito. Não podia dizer que estava irritado com uma flauta que não largava? Para mudar de assunto, estendi o presente improvisado:
— Aqui, para ti.
— Que maravilha! Posso abrir agora? — Shiya recebeu com as duas mãos, radiante.
— Melhor não. Só faz sentido abrir sob a luz do luar.
— Está bem... mas, quando abrir, quero que estejas comigo. — Ela sorriu, os olhos brilhando como límpidas águas outonais. Por um instante, parecia que o carro inteiro se iluminara.
— Temes que eu te dei uma Caixa de Pandora? — Ri, desviando o olhar para o céu estrelado. Esperava que ela não criasse grandes expectativas. Quanto maior a esperança, maior a decepção. Se visse que eu lhe dera só uma pedra, será que me caçaria com uma faca? Conhecendo sua personalidade, provavelmente sim!
Por outro lado, ela sempre foi tão doce...
O silêncio voltou ao carro. Ficamos, cada um, imersos em nossos pensamentos. Logo, avistava-se ao longe uma casa toda iluminada — o local da festa de Shiya.
Ao entrar, assustei-me com o barulho. A sala cheia de gente dançava loucamente ao som da música. Shiya, naturalmente, puxou-me pela mão, apresentando-me a todos os amigos.
O que havia com ela hoje? Estaria fora de si? Minha cabeça ficava ainda mais confusa. Shiya sempre foi gentil e sociável, mas eu sentia algo estranho.
— Ei, no que tanto pensas? Nem me dás atenção! — Ela me puxou para fora da multidão e apontou um sofá: — Estás cansado? Vamos sentar um pouco.
— Não precisa se preocupar comigo, vai lá cuidar dos teus convidados. — Sugeri educadamente.
— Não faz mal, eles se viram. Ou não queres ficar comigo? — Ela sorriu misteriosa, os olhos brilhando de modo que acelerava o coração. Fiquei sem reação e sentei-me ao seu lado.
— Que tal dançarmos juntos? — perguntou baixinho.
— Não sei dançar. — Recusei, aflito.
— Mas tua flauta soa tão bem!
— Ora, moça! O que tem a ver tocar flauta com dançar?!
— Os talentos se atraem! Não importa, quero dançar contigo! — Ela quase me arrastou para a pista, rindo travessa. Suspirei, resignado:
— Vais te arrepender.
A música começou. Eu, desajeitado, pisava em seus pés com a frequência de um piano tocando "Jingle Bells" em dó maior. Varias vezes quis fugir de vergonha, mas ela me segurava firme, suportando meus tropeços sem reclamar. Por fim, encostou a cabeça em meu ombro e sussurrou:
— Calma, eu conto o ritmo para ti, só segue minha voz...
Passou um século ou um segundo? Não sei, apenas a música terminou. Senti-me exausto e quente, então saí sozinho para o jardim dos fundos.
A lua estava cheia, derramando luz amarela sobre a terra, envolvendo tudo numa aura misteriosa. Um chafariz jorrava água ao longe, como se quisesse alcançá-la no céu.
Naquele silêncio, finalmente meu coração inquieto encontrou alguma paz. Sentei-me à beira do chafariz, olhando para o alto, e comecei a contar estrelas. Foi quando ouvi passos suaves se aproximando.

— Lembro que, quando criança, minha avó me ensinava a contar estrelas. Dizia que assim eu esqueceria os aborrecimentos. Mas ela morreu quando eu tinha seis anos, numa casinha ao lado do curral. Dizem que morreu em paz. E, desde então, sempre usei esse método... até hoje. — Suspirei, fitando o céu coalhado de estrelas. Este céu, quase intocado pela civilização, era puro, sem mancha alguma.
As estrelas cintilavam, sugerindo que algo se perdia e, ao mesmo tempo, se ganhava. No oeste, uma longa faixa luminosa — a Via Láctea!
— Faz mais de seis anos que não via a Via Láctea. Na minha memória, ela desapareceu de uma noite para outra. — Baixei a cabeça, fitando a água do lago. Sentia-me estranho, por que hoje estava tão melancólico?
Shiya me olhava, atenta, ouvindo sem interromper. Só quando me calei, ela ergueu o olhar para a lua, tirou do bolso da saia a caixinha e a sacudiu diante de mim:
— Posso abrir agora?
Assenti, pronto para inventar que aquela pedra comum era de grande valor para mim. Mas antes que dissesse algo, Shiya exclamou:
— Que lindo! — Era um elogio genuíno. Olhei curioso e fiquei pasmo: em sua mão repousava uma pequena pedra redonda, translúcida, irradiando um brilho dourado sob o luar. Apagada, mas intensa, parecia guardar uma energia vital poderosa.
Até um idiota perceberia que não era a pedra que eu pegara ao acaso na encosta! O que estava acontecendo? Será que minha sinceridade comoveu Deus? Milagre? Nada disso, eu, tão preguiçoso, jamais seria devoto, muito menos religioso!
Pouco importava, o importante era agradar quem estava diante de mim:
— É minha pedra da sorte. Era um par, mas deixei uma na minha terra natal. Elas me acompanharam por mais de dez anos. Espero que gostes. — Menti sem pestanejar.
Shiya ficou radiante, acariciando a pedra com tanto cuidado quanto se segurasse uma vida frágil. Depois, olhou-me com olhos límpidos e sorriu:
— Obrigada. Um presente tão precioso, vou cuidar dele como à minha própria vida.
Depois disso, o silêncio voltou entre nós. Ao redor, só tranquilidade. O luar banhava a terra, como se sussurrasse ternura. Uma brisa leve passou, agitando as roseiras próximas e espalhando pétalas vermelhas.
Inalei profundamente, sentindo o aroma melancólico das rosas preencher meus pulmões.
Shiya falou de repente:
— Se uma garota dissesse que gosta de ti, o que responderias? — Sentou-se ao meu lado, fingindo indiferença. Pensei seriamente e, olhando para ela, respondi:
— Depende. Se eu gostar dela, aceito.
— E tu, já gostaste de alguém? — perguntou, ansiosa, desviando o rosto.
Sorri, joguei uma moeda na água e só falei quando as ondas sumiram:
— Já gostei, mas agora não mais.
— E se te disser que essa garota sou eu? — Nos olhos dela havia esperança e preocupação.
— Depende, se for sincera... — Meu coração disparou.
— Eu te amo. — Shiya levantou-se, veio até mim, fitou-me profundamente e declarou.
Também me levantei, passei a mão em seus cabelos negros e a abracei forte, aproximando meu rosto do seu. Shiya respirava ofegante, sem fugir nem resistir, apenas fechou os olhos, com um sorriso estranho e terno nos lábios.
Ri alto e, de súbito, a afastei, dizendo:
— Embora sejas perfeita, nunca poderei te amar!
Shiya estremeceu, abriu os olhos e, com voz embargada, protestou:
— Por quê? Eu te amo mais do que à minha própria vida. Por que não podes me amar?
Olhei-a fixamente e resmunguei:
— Porque tu não és Huang Shiya!