Capítulo Cinquenta e Cinco: A Morte de Ní Mei
Os mortos também têm um passado, que representa as provas de que um dia viveram. Mas, eles jamais terão futuro; o futuro é privilégio apenas daqueles que ainda respiram. A história de Yang Shan Shan começa com este estranho prelúdio. Ela, com o olhar perdido, encostada ao tronco de uma árvore, contou lentamente: “Na verdade, ontem o que te contei não estava completo... porque Ni Mei, ela morreu de medo por nossa causa!”
“O quê?” Fiquei completamente atônito.
Yang Shan Shan sorriu com uma tristeza pungente: “Você não ouviu errado. E tudo isso é culpa de Mi Jing Yun!”
Há dois anos, naquele dia...
“Ni Mei, por que você aceitou o desafio daquela garota?” Yang Shan Shan perguntou aflita à amiga ao seu lado.
Ni Mei sorriu cansada: “Eu podia recusar? A Yun disse que, se eu a vencesse, se tornaria minha amiga!”
Yang Shan Shan suspirou: “Você é gentil demais, por isso ela sempre te faz de vítima.”
“Mas eu realmente a admiro. Inteligente, bonita, com notas excelentes... Ela é perfeita!” Ni Mei olhou ao longe, com um olhar sonhador: “Eu queria tanto, tanto ser amiga dela.”
“Boba! Você sabe que ela não precisa de amigos, só se aproxima das pessoas que pode usar, suga tudo e vai atrás da próxima vítima. Esse tipo de pessoa é falsa e ridícula, e você a inveja?”
“Mas eu imagino que ela seja muito solitária.”
“Solitária? Aquela garota? Todo dia está rodeada de rapazes arrogantes. Parece até que é muito feliz!” Yang Shan Shan falou, desdenhosa.
“Será? De qualquer forma, vou vencer!” Ni Mei sorriu de repente, confiante, abrindo os braços e deitando-se na relva.
Yang Shan Shan suspirou de novo. O que será que encantava tanto Ni Mei em Mi Jing Yun, a ponto de parecer enfeitiçada?
Aquela tarde passou depressa, e Mi Jing Yun, casualmente ou não, apareceu no caminho que Yang Shan Shan tomava para casa.
“Desculpa, semana passada achei um papel que parecia uma carta de amor. Não sei de quem era!” Ela sorriu com doçura, entregando algumas folhas de papel para Yang Shan Shan.
Yang Shan Shan ficou petrificada. Era, sem dúvida, sua própria letra. Ela sempre teve o hábito de escrever seus pensamentos e angústias, depois queimá-los. Sabia que esse método de desabafo era perigoso, pois podia virar arma contra si mesma, mas nunca conseguira parar.
Aquela carta era de fato uma declaração de amor, mas não para um rapaz, e sim para sua melhor amiga, Ni Mei. Yang Shan Shan não se considerava atraída por mulheres, mas, sem perceber, a imagem de Ni Mei ocupou profundamente sua mente.
Quando notou que seus sentimentos ultrapassavam a amizade, já era tarde demais — estava completamente envolvida! Yang Shan Shan começou a temer sua própria “anormalidade”, mas não conseguia controlar seu coração. Escreveu a carta, que jamais enviaria, mas não teve coragem de queimá-la imediatamente, carregando-a consigo de forma imprudente.
Uma semana antes, perdeu a carta no pátio da escola. Procurou aflita, mas como não estava assinada, acabou esquecendo o assunto. Agora, o pior aconteceu: a carta caiu nas mãos de Mi Jing Yun! Meu Deus, quem sabe o que ela faria?
“Essa carta de amor é tão interessante!” Mi Jing Yun ainda sorria, inocente, inclinando a cabeça e perguntando: “Desde quando você virou ‘do time’? Hehe, não me admira que tantos rapazes te declarem amor e você nunca dê bola, é porque tem esse tipo de gosto!”
“E você?” Yang Shan Shan, furiosa, lançou um olhar fulminante. “Os rapazes que querem sair com você são ainda mais numerosos. Por que você sempre rejeita? Também tem esse gosto?”
Mi Jing Yun não se ofendeu. Piscou os olhos grandes e belos, dizendo, animada: “Calma, somos amigas, nunca espalharia boatos sobre minha amiga. Claro, isso depende de meu bom humor. Hehe, você sabe que quando estou de mau humor falo demais, minha boca não é nada discreta.”
“Chega de rodeios, o que você quer de mim?” Yang Shan Shan não era ingênua. Sabia bem que Mi Jing Yun tinha outros interesses.
O sorriso radiante de Mi Jing Yun desapareceu. Ela arrancou uma folha de plátano, jogou-a no chão e pisou lentamente, dizendo: “Sua apaixonada é irritante, parece um parasita grudado em mim todos os dias. Acho que devemos pensar em uma punição leve para ela, não?”
Em seguida, abaixou a voz e murmurou algo para Yang Shan Shan.
“Eu... eu não consigo!” Yang Shan Shan ficou apavorada.
Mi Jing Yun sorriu friamente: “Decisões precipitadas raramente são boas. Quer que eu explique as consequências dessa escolha?”
“Você sabe, sempre fui mais passiva, não entendo essas estratégias. No máximo, posso colar a carta no mural da escola, e depois explicar para todos os curiosos o que significa, como se comporta um psicopata, hehe, seria divertido. Mas, e Ni Mei, como reagiria? Ela ainda aceitaria você como ‘amiga’?”
Yang Shan Shan ficou paralisada. Não se importava com o que pensassem dela, mas se Ni Mei soubesse, será que ainda permitiria sua aproximação? Certamente a odiaria!
“Pense bem! Ser odiado por alguém pode ser perdoado um dia, mas se tornar objeto de repulsa e desprezo...”, Mi Jing Yun sorriu levemente, sabendo que estava prestes a vencer. “Então, não há mais amanhã.”
Sim, se Ni Mei nunca mais falasse com ela, seria pior que morrer!
“Errei! Errei terrivelmente!” Yang Shan Shan finalmente cedeu, murmurando: “Você não é só uma garota desagradável, é um demônio!”
“Obrigada pelo elogio.” Mi Jing Yun voltou a sorrir radiante.
Na tarde seguinte.
“Ni Mei, hoje seus pais estão viajando a trabalho e não voltarão, certo?” No caminho de casa, Yang Shan Shan perguntou casualmente à amiga.
Ni Mei assentiu: “Sim, que chato!”
“Pensei que você poderia sentir medo, então já avisei em casa que vou dormir na sua casa hoje para te fazer companhia!”
“Não precisa. Meus pais viajam sempre, estou acostumada.” Ni Mei respondeu suavemente.
“Boba, somos amigas, não precisa ser tão formal.” Yang Shan Shan fingiu estar zangada.
Ni Mei apressou-se a acenar: “Está bem, está bem. Eu aceito. Não fique brava, senão vai ficar cheia de rugas e ninguém vai te querer!”
“Então me caso com Ni Mei!” Yang Shan Shan brincou, rindo.
Ni Mei corou profundamente e respondeu: “Eu não quero casar com Shan Shan, que é preguiçosa e dorminhoca, e ainda tem tantos admiradores perigosos!”
“Só brincando, Ni Mei! Por que levar tão a sério?”
Naquela noite...
O velho campanário tocou doze vezes, lenta e sombriamente. Era chegada a hora da aposta com Mi Jing Yun...
No silêncio absoluto, Ni Mei, temendo acordar a adormecida Yang Shan Shan, levantou-se e foi ao banheiro. Encheu-se de coragem, apagou a luz, e diante do espelho do lavatório, acendeu uma vela branca e assustadora.
Sob a luz trêmula, seu rosto tenso parecia assustador.
“Pronto! Vai começar!” A garota respirou fundo, encorajando-se. Pegou uma faca de frutas e uma maçã vermelha.
“OK! Não vou me apavorar, vai dar tudo certo, Mi Jing Yun vai perder!” Murmurava enquanto começava a descascar a maçã.
A lâmina separava meticulosamente a pele da fruta, nem grossa nem fina, apenas o suficiente para manter a casca unida. Era claro que ela havia praticado muito para aquele momento.
Em espiral, a casca vermelha se alongava sob a luz da vela, Ni Mei concentrada, sem perceber o estranho, arrepiante odor que emanava...
“Quase acabei!” Ela enxugou o suor da testa, sentindo-se mais cansada que após uma corrida de cinco quilômetros.
Faltava apenas uma volta para separar completamente a casca da maçã. Ni Mei estava ainda mais cautelosa.
Com delicadeza, descascava como se fosse uma joia rara.
De repente, um rato saiu de um canto do banheiro! Ni Mei, já nervosa, se assustou e, por reflexo, atirou tudo contra o animal. Quando percebeu, tudo estava destruído — o fruto do seu esforço, partido em pedaços.
Silêncio... Um silêncio absoluto sufocava o ambiente, como uma garra invisível apertando o pescoço.
Ni Mei ficou imóvel, sem ousar se mover. Não se sabe quanto tempo passou, até que ela começou a rir, alto e descontrolada!
“Viu só, nada aconteceu! Essas lendas são pura enganação, e eu quase caí nessa! Amanhã vou dar um jeito naquele rato nojento!”
Ela ria, ria como nunca, mas no fundo de sua alma permanecia um medo inescapável...