O amigo de outrora já se tornou um suspiro constante. (I)
— Levantando a cabeça, olhando para o céu num ângulo de 45°, tentando fazer as lágrimas voltarem, percebo que tua imagem já está em minha mente, fluindo contra a corrente e transformando-se em dor.
Desde a batalha no Monte Yan, Mu Qingge permanece acamada, sem sinais de despertar por muito tempo.
A luz do sol atravessa a janela, preenchendo todo o quarto com um calor reconfortante. Ao lado da cama, as cortinas de contas cintilam com um brilho intenso, balançando ao vento e emitindo um som límpido e delicado. Tinlinta, tinlinta...
Sobre o leito, Mu Qingge dorme profundamente, o rosto pálido marcado por traços de desolação. Os cabelos prateados espalham-se sobre o travesseiro. Os lábios se movem suavemente, mas só pronunciam uma palavra, Xier.
A voz é frágil e carrega uma dor que transborda, despertando piedade no coração de quem ouve.
Ao lado da cama, Mu Jun’er não consegue conter as lágrimas diante daquela cena. As mãozinhas apertam o lenço branco, lutando para não cair em prantos.
O irmão e Xier são tudo para ela. Ver qualquer um deles ferido é como sentir a própria dor. Seu coração já está despedaçado, incapaz de suportar ainda mais sofrimento.
Sentada numa cadeira de sândalo escuro, Shangguan Qiongrong vira o rosto, tentando escapar daquela dor pungente que nasce diante de seus olhos.
Lembrando do início, Mu Qingge enviou uma carta ao pai, dizendo que faria de tudo para proteger Bei Qing, e que, no dia da unificação, traria a princesa Xue Yao como esposa, esperando que o tio Shui combinasse os exércitos de Bei Qing e Nan Chen.
Ela pensava que os esforços de Mu Qingge não passavam de uma busca pelo poder, e que Xue Xi era apenas uma peça a ser sacrificada em seu plano. Foi então que começou a odiar Mu Qingge, sentindo pena da irmã.
Depois, no dia do acordo de sete dias, quando ela e Hao Xuan chegaram ao Monte Yan, encontraram Xue Xi caída do penhasco, Mu Qingge com os cabelos brancos abraçado à cítara, desfalecido nos braços de Bao Qin.
O ódio que sentia foi, pouco a pouco, dissolvido por aquele sentimento puro. A irmã caíra do penhasco, mas até hoje seu corpo não foi encontrado. Talvez, isso ainda fosse uma bênção.
Ela acreditava que Xue Xi não morreria tão facilmente.
Tirando do bolso da manga um pente de marfim branco, Shangguan Qiongrong o acariciava repetidas vezes, rezando para que o destino abençoasse Xue Xi com longa felicidade.
Do lado de fora do aposento, um grupo de donzelas enxugava discretamente as lágrimas com lenços, algumas já não conseguiam conter os soluços. Todas as coisas relacionadas a Xue Xi já haviam sido removidas. Mas, vendo o imperador naquele estado de desolação, sabiam que não importava quantas lembranças fossem destruídas, nada apagaria aquela marca indelével.
“Irmã Qiongrong, você nunca nos odiou?”
Mu Jun’er baixou a cabeça, os olhos opacos, sem coragem de encarar Shangguan Qiongrong. O rosto, tão semelhante ao de Xue Xi, a impedia de enfrentar aquilo.
Ela não entendia: a irmã havia caído do penhasco, por que a família Shangguan ainda tratava tão bem os Mu? Poderiam, nesse momento de caos, tomar o país de Chen e unificar o império!
Por quê?
Com uma leve ruga na testa, Shangguan Qiongrong respondeu sem hesitar: “Já odiei.”
A irmã caíra do penhasco — embora estivesse ligada diretamente a Zhang Hao de Xi Li, Mu Qingge também tinha sua parcela de culpa. Ela se perdera sob a guarda dos Mu, mas... odiar? Ainda era possível odiar?
Ao ouvir isso, Mu Jun’er ficou pálida, os olhos marejados, perguntando timidamente: “Então, por que ainda...?”
“Mas o pai disse: acredite na escolha da sua irmã. Se ela pôde morrer por aquela pessoa, é porque amou com toda a força de sua vida. Enquanto cuidarmos bem dele, Xier certamente voltará. Ela não morrerá.” À medida que falava, os olhos de Shangguan Qiongrong se encheram de lágrimas, que caíram sobre a saia e umedeceram seu coração saudoso da irmã.
Duas mãozinhas, desajeitadas mas cuidadosas, tentaram enxugar as lágrimas quentes de Shangguan Qiongrong.
Ao erguer o olhar, viu o rostinho de Mu Jun’er tomado pela culpa.
“Ruoyao.” Com a voz embargada, Shangguan Qiongrong envolveu Mu Jun’er nos braços, acariciando seus cabelos com ternura.
“Irmã Qiongrong, não chore.” Mu Jun’er, envolta no calor daquele abraço, finalmente desabou em prantos.
O vento, trazendo o perfume suave das rosas do jardim, agitava-se levemente. As cortinas de contas continuavam a soar suavemente.
De relance, Shangguan Qiongrong percebeu duas linhas de lágrimas escorrendo pelo rosto de Mu Qingge. Ainda murmurava “Xier”, mas havia algo de diferente naquele tom.
“Ruoyao querida, conte mais histórias do seu irmão e de Xier para a irmã, pode ser?” Shangguan Qiongrong enxugou as lágrimas do rosto de Mu Jun’er, indicando o leito com um gesto gracioso.
Seguindo o movimento, Mu Jun’er percebeu, surpresa, que o irmão estava chorando. Segurando a alegria no coração, assentiu com força, muito séria: “Sim, contarei todos os dias.”
Depois, ficou na ponta dos pés, aproximou-se do ouvido de Shangguan Qiongrong e, como se buscasse certeza, sussurrou: “O irmão vai acordar, e Xier vai voltar, não é?”
“Vai sim.” Olhando para aqueles olhos cheios de esperança, Shangguan Qiongrong também assentiu com firmeza.
“Então vou começar a contar, ouça bem.”
Arrastando a cadeira de madeira para junto do leito, Mu Jun’er sentou-se ereta. Começou, frase por frase, a narrar as histórias de Mu Qingge e Mu Ruoxue.
Sua voz, melodiosa como o canto do rouxinol, ecoou por todo o aposento. Sob o brilho do sol, as palavras pousavam suavemente no coração de cada um.
Aquelas recordações, tão simples e calorosas, faziam com que todos ali prendessem o fôlego, temendo quebrar aquela beleza frágil.
E Mu Qingge, ainda imersa no sono, foi aos poucos se acalmando.