Talvez, um dia, isso aconteça. (Terceira parte)

Neve Sobre a Cidade Mu Luo Xue, deslumbrante como uma cidade inteira 1911 palavras 2026-02-07 18:36:38

Naquela noite, Murro Xue gastou toda a sua energia para finalmente “convidar” aquele frio e calculista para vir, alguém de quem não se tira nada facilmente. Ela realmente teve que insistir muito, usar de todas as estratégias, sem deixar pedra sobre pedra. Mas aquele sujeito era mesmo pouco colaborativo.

Assim que Mu Qingge pisou no bambuzal, uma chuva de flocos brancos começou a cair do céu. Não, não era neve — eram pedacinhos de papel branco.

— Mu Qingge, feliz aniversário!

— Irmão, feliz aniversário, coelho! — Mu Jun’er saltou de trás de Mu Qingge.

— Feliz...? — Mu Qingge ficou confuso. Mais um “coelho”? Ficou ainda mais perdido.

Antes que Murro Xue pudesse responder, Jun’er se adiantou e explicou, orgulhosa:

— Bobo, significa estar contente!

— Aposto que foi você quem lhe ensinou isso! — suspirou Mu Qingge, resignado. Sua irmã já era travessa por natureza, e agora estava aprendendo ainda mais travessuras.

Murro Xue não deu ouvidos, fazendo caretas elaboradas para Mu Qingge.

— Sabem, isso se parece muito com neve. Algo raro de se ver no sul — comentou Mu Qingge, com um olhar distante, como quem fala consigo mesmo e ao mesmo tempo para os outros.

— Ah, é? Conte-nos mais — disseram Murro Xue e Mu Jun’er, cheios de expectativa, sentando-se em um banco de pedra para ouvir.

Na verdade, neve era algo comum na época em que ela nasceu: todo inverno era possível vê-la.

— Meu pai contou que o Grande Rei Ancestral viu neve uma vez, um presságio de boa sorte. Naquela época, o rei havia acabado de assumir o trono e uma grande seca assolava as terras, não colhiam um só grão, e ele estava desesperado. Sem saber o que fazer, de repente, caiu neve do céu — Mu Qingge lançou um olhar divertido para os dois, cujos olhos brilhavam de curiosidade.

— A neve caiu sem parar durante um dia inteiro e salvou o povo da seca. O Grande Rei Ancestral ficou tão feliz que renomeou os dois grandes palácios de Nancheng para ‘Mil Neves’ e ‘Cidade Encantada’. Desde então, a neve passou a ser vista como uma dádiva dos céus pelo povo de Nancheng.

Já que hoje era uma ocasião especial, decidiu satisfazer a curiosidade desses dois. Vê-los tão atentos, quase babando pela história, era engraçado — e era apenas uma lenda, mas ele também gostava de acreditar nela.

— Que coisa! Tão simples assim?

Mu Jun’er estava encantada, enquanto Murro Xue apenas suspirava resignada. Então a neve virou um tesouro nacional? Era só uma questão de diferença entre norte e sul...

Mu Qingge hesitou, afinal, certas questões não devem ser tratadas levianamente.

— O que foi? — Mu Qingge sorriu, tão radiante como as estrelas.

— Nada. Só pensei que talvez um dia possamos nos conhecer melhor — disse Murro Xue, mudando de assunto no último instante. Era melhor não perguntar nada. Quando ele quisesse falar, o faria.

Mu Qingge sorriu, serviu três taças de vinho e ofereceu-as aos dois.

Naquela noite, por algum motivo, sentia-se inexplicavelmente feliz.

A brisa noturna era suave e agradável.

Ergueram as taças e beberam de um só gole.

Depois, Murro Xue trocou um olhar com Mu Jun’er. Esta, entendendo de imediato, piscou travessa e entregou a Mu Qingge um manto prateado, dobrado cuidadosamente.

— Irmão, é para você.

Mu Qingge se surpreendeu por um instante, mas aceitou o presente. Voltou-se para Murro Xue, sério:

— E o seu presente de aniversário?

Murro Xue pensou que Mu Qingge ficaria aborrecido, mas, surpreendentemente, ele pediu o presente.

— Segredo. As melhores surpresas vêm no fim.

No meio das brincadeiras e risadas, começaram uma animada perseguição, pétalas de osmanthus caíam suavemente no lago, espalhando seu perfume.

Cansados de brincar, Murro Xue recostou-se no bambu e começou a tocar flauta. Mu Qingge sentou-se no chão e dedilhou sua cítara. Ao lado, Mu Jun’er, com mangas longas, dançava suavemente.

O bambuzal, à luz prateada da lua, brilhava com um verde cristalino.

Música após música, os três se harmonizavam perfeitamente, divertindo-se juntos.

De repente, no céu noturno, uma chuva de estrelas cadentes riscou o horizonte. Murro Xue, impressionada, parou de tocar e contemplou as estrelas.

— Talvez sejam solitárias. Por isso escolhem cair.

Mu Qingge, olhando para o perfil melancólico de Murro Xue, respondeu suavemente:

— Não, elas encontrarão um lar, algo que as prenda.

Murro Xue, ainda com a teimosia de uma criança, insistiu:

— Sério? Nunca mais vão vagar sem rumo? — Um brilho estranho surgiu em seu olhar.

— Nunca mais — respondeu Mu Qingge, afagando a cabeça dela. Aquela garota parecia mesmo carente de segurança.

Mu Jun’er, percebendo a cena terna, afastou-se discretamente, com os olhos marejados.

Murro Xue acenou afirmativamente, satisfeita com aquela resposta.

— Na sua cabeça sempre há ideias tão curiosas.

— É mesmo? Eu não sabia — respondeu ela, piscando travessa. — Que tal eu abrir minha cabeça para você ver?

Mu Qingge ficou boquiaberto, genuinamente assustado por um instante, antes de cair na risada.

Depois, puxou as mãos de Murro Xue e Mu Jun’er:

— A noite está escura e vasta, estou com medo. Vamos voltar.

De mãos dadas, os três deixaram o bambuzal de Luo Yuan.

Primeiro, acompanharam Mu Jun’er até seus aposentos e, então, os dois seguiram para o Palácio Mil Neves.

Assim que entrou na câmara interior, Mu Qingge viu uma cortina de contas reluzentes. À luz das velas, brilhavam como estrelas.

— Garota... — Mu Qingge ficou sem palavras de surpresa.

— Estou cansada, vou dormir. Você também deve descansar cedo — respondeu Murro Xue, rindo às escondidas sob as cobertas. Aquilo era o linkdream dos seus sonhos, agora dado a ele.

Mu Qingge acariciou as contas, sentindo cada uma aquecer-lhe o coração. De repente, percebeu que já não desgostava tanto de seu aniversário.

Olhando na direção dos aposentos de Murro Xue, Mu Qingge sorriu suavemente.