Será que é realmente uma armadilha? (Terceira parte)
— No caminho de volta de Bei Qing para Dong Qing, foi planejado um ataque dos chamados “assassinos de Xi Li”. A rainha Xueyao foi infeliz vítima desse atentado, restando apenas um corpo gelado a ser devolvido ao soberano de Dong Qing, Nalan Shuyu. Shuyu, por sua vez, acreditando tratar-se de uma trama de Zhang Hao, iniciaria uma ofensiva, aliando-se a Bei Qing para atacar Xi Li. E, nesse momento, Bei Qing fingiria fraqueza, enviando apenas uma pequena fração de suas tropas para se unir a Shuyu, enquanto a maioria de seus soldados marcharia contra o desprevenido Dong Qing. E esta sua viagem de volta a Bei Qing, não é justamente para discutir esse plano perfeito? Estou certo? — Mu Qingge falava com serenidade, como se a tempestade lhe fosse brisa.
— Se Vossa Alteza já sabe de tudo, por que ainda me pergunta? — Murmurou Muruo Xue, sobrancelha erguida, um sorriso brincando nos lábios, como se o assunto não lhe dissesse respeito. Por dentro, porém, ela se indagava: até onde, afinal, ele sabia?
— Mas, Senhora Xue, como você pode ter certeza de que Shuyu realmente enviará suas tropas? E como sabe que eu mesmo não irei protegê-lo? Em seus cálculos, nunca houve espaço para Shuyu. Não cogitou que pudesse falhar? — O olhar de Mu Qingge tornou-se agudo.
Aquela mulher, que antes lhe fazia sermões de retidão, como podia agora revelar-se tão mesquinha?
— Se fracassar, não terei perdido nada, não é? — Muruo Xue sorriu, encantadora, como quem já previra o revés. Se Shuyu marchasse à guerra, Bei Qing teria a chance de agir. Se ele não marchasse, por consideração aos laços do matrimônio, ao menos não se tornaria arrogante tão cedo. De um modo ou de outro, Bei Qing ganharia uma oportunidade. Por que desperdiçá-la? — Sabe, Vossa Alteza? Quem deseja conquistar algo, precisa antes aprender a perder. A perfeição é ilusória.
— Senhora Xue, há coisas que não se conquistam sacrificando outros. E mesmo que conquiste, viverá em paz consigo mesma? — Sua voz era leve, mas incontestável.
— Ora, esse discurso não combina com Vossa Alteza. — Murmurou Muruo Xue, o canto dos lábios arqueado, em franca discordância. Mu Qingge falava como se fosse exemplo de virtude. Errar, ao menos, exige coragem para admitir.
— Ah, percebeu, não é? E agora, o que fazer? — Mu Qingge fingiu susto, apontando para o chão, onde duas espadas reluziam. Seu olhar tornou-se gélido. — Sei que a Senhora Xue é exímia na arte da espada. Que tal um duelo entre você e minha dama de companhia? Quem vencer, sobrevive. Que tal apostarmos?
— Mu Qingge! — Muruo Xue explodiu, incrédula consigo mesma por ainda ter ânimo para insultá-lo. Vidas humanas, brinquedos em suas mãos?
Mas, afinal, ela própria não menosprezara a vida alheia?
— Ora, não me chame assim, Senhora Xue, ou vou acabar achando que se apaixonou por mim. — Ele fez um sinal com os olhos para Che'er.
O espetáculo estava apenas começando.
Che'er aproximou-se, hesitante, e apanhou uma das espadas. Não queria voltar sua lâmina contra a Senhora, não queria, mas... sua vida, tudo o que era, pertencia ao seu senhor.
— Mu Qingge, desgraçado! — Muruo Xue mal podia acreditar que ainda lhe restava energia para xingá-lo.
Contudo, ao ver a espada nas mãos de Che'er, sentiu seu coração despedaçar-se em mil fragmentos.
Naquele palácio profundo, teria algum afeto restado?
Que ironia, pensar que ela própria um dia acreditou nesse sentimento chamado “amor”.
Quando, afinal, começara essa ilusão?
— Comecem. — A voz de Mu Qingge soou como uma sedução demoníaca, cortante e fria.