Ao adentrar os portões do palácio, é como mergulhar nas profundezas de um vasto oceano.

Neve Sobre a Cidade Mu Luo Xue, deslumbrante como uma cidade inteira 1645 palavras 2026-02-07 18:34:51

— Se quiseres persistir, temo apenas que as palavras afiadas dos outros sejam como ouro derretido; o rumor é de temer.

O sol acabara de passar do meio-dia, o céu era alto e límpido, as nuvens rareavam e o vento de outono soprava com vigor. Apesar do calor suave, havia um leve toque de frieza. As folhas dos salgueiros dos lados já começavam a amarelecer, caindo lentamente ao sabor do vento.

Com os olhos semicerrados, Mu Ruoxue sentava-se de lado no banco de pedra do pavilhão das estrelas do jardim dos fundos, lendo um livro. Ao levantar os olhos, via a água verde ondulando suavemente, exalando um perfume discreto e tranquilizante. Ao abaixar o olhar, encontrava chá quente de flores de chuva e alguns delicados e apetitosos doces dispostos à sua frente.

No fundo, era graças à atenção da jovem Che'er que ela conhecia um lugar tão aprazível.

Mas o destino não era tão generoso, pois algumas corriqueiras pardais insistiam em perturbar-lhe o sossego.

— Já ouviram? O rei nunca favoreceu aquela Rainha da Neve. Na noite de núpcias, ele foi até a Senhora Virtuosa! — riam as jovens.

— Ora, olhem para ela: tão frágil e sem graça! É uma desgraça; não é digna nem de calçar as sandálias da nossa Senhora Qingyi.

— Eu ouvi dizer que a aliança com o Norte Qing tem segundas intenções. Nosso rei tão sábio jamais cairia nas armadilhas dela. Veja como ainda tão jovem já é tão sedutora; daqui a alguns anos, vai dominar tudo!

Tsc, tsc... Se a ouvir, parecia que Mu Ruoxue lhes devia uma fortuna. Faltava só insultarem até os ancestrais da família Shangguan.

Ah, melhor continuar lendo.

— Isso mesmo, ela não se compara à beleza da nossa senhora! Como pode ser favorecida assim?

— Que bobagem!

Aquelas criadas já cochichavam há bastante tempo. Os rumores eram tantos que a própria protagonista já se cansara de ouvi-los.

Levantando levemente os olhos, Mu Ruoxue percebeu que até as criadas que a acompanhavam tentavam disfarçar um sorriso sarcástico nos lábios.

— Vocês não têm nada melhor para fazer? O que é essa conversa inútil aí? — Che'er, de pé ao lado, não aguentou mais. — Que olhos viram nossa senhora ser feia? Que ouvidos ouviram falar de conspiração? Que mãos calcularam que ela tem pouca sorte? Isso é puro absurdo! — disse, com o rosto vermelho de raiva, mãos na cintura, argumentando como uma pequena chaleira.

Mu Ruoxue não pôde deixar de sorrir. Ser protegida era uma sensação realmente agradável.

— Somos todas criadas, que direito tens de falar por nós? — rebateu a criada de azul, indignada. A criada de verde também se adiantou, insinuando: — Olha só essa aí, pensa mesmo que tem uma senhora importante? Dou-te um conselho: sob o teto dos outros, é melhor aprender a baixar a cabeça.

Mu Ruoxue pegou a xícara de chá e a lançou casualmente, quebrando-a aos pés da criada de verde. O chá derramado molhou sua saia.

— Palavras devem ser bem medidas. Se eu quiser tua vida, seria como esmagar uma formiga — disse, olhando friamente ao redor, cada palavra clara e incisiva. — Sou a rainha legítima do Reino Dongqing. Mesmo que eu não seja perfeita, ainda sou a senhora desta casa. Quem ousar me menosprezar, estará desrespeitando diretamente o nosso rei. Mu Ruoxue estava realmente furiosa. Que a insultassem, não aceitava! Que insultassem quem era dela, menos ainda! Ela era mesmo protetora dos seus.

— Sim, reconhecemos nosso erro. Pedimos perdão, majestade — responderam as criadas, ajoelhando-se em fila diante de Mu Ruoxue. Ouviram que a Rainha da Neve não era querida, mas não esperavam tamanha autoridade. Olhavam-se, assustadas, mantendo-se muito cautelosas.

Mu Ruoxue só vira cenas assim na televisão. Agora, vivenciando, sentia mil emoções.

— Retirem-se. Não quero ouvir mais rumores — acenou delicadamente, enquanto seu olhar se voltava para a mulher do outro lado do lago.

Vestida com um manto rosado de fumaça esmeralda, saia de flores verde-água, ombros delicados, cintura fina, pele de alabastro, aura de orquídea. No cabelo, um grampo de ouro vazado, adornado com jade verde. Cada movimento, cada sorriso, era de tirar o fôlego.

— Que pureza, como uma flor de lótus na água — exclamou Mu Ruoxue, admirando. Uma beleza impossível de desviar o olhar.

— Majestade, aquela é a Senhora Virtuosa, Qingyi — esclareceu Che'er, acompanhando o olhar de Mu Ruoxue.

Suspirou; até mesmo ela, mulher, sentia-se cativada. Contudo, uma flor tão elegante e única acabou nas mãos de Nalan Shuyu, aquele patife. Era realmente lamentável.

— Senhora, você é superior à Senhora Virtuosa. Não se preocupe. O rei certamente vai se apaixonar por você — Che'er apressou-se a consolar Mu Ruoxue. Aos seus olhos, sua senhora era reservada, mas nunca arrogante.

Mu Ruoxue sorriu suavemente. Certamente Che'er pensava que ela estava aflita por não ser favorecida. Mal sabia que a liberdade era o bem mais raro dentro deste palácio.

Do outro lado do lago, a Senhora Virtuosa percebeu o olhar de Mu Ruoxue, primeiro surpresa, depois sorriu delicadamente, fez uma reverência e se afastou.