Quão profundo é o sentimento de injustiça. (Terceira parte)
Sentado em silêncio no Palácio Rugido do Dragão, Nalan Shuyu fechava os olhos em profunda reflexão, mas em sua mente as cenas se sobrepunham: a agonia de Qingyi lutando entre a vida e a morte, as lágrimas doloridas de Xueyao. Restava-lhe apenas relembrar tudo passo a passo, lentamente.
No início da noite, ele estava na Sala da Sabedoria lendo relatórios oficiais, quando Yixin entrou correndo para avisar que Qingyi havia caído na Piscina do Arroio. Ele imediatamente mandou chamar os médicos do Instituto Real e, sem perder um instante, dirigiu-se ao Palácio Genglu.
Quando chegou lá, o palácio já era um redemoinho de atividade. Por sorte, Qingyi não sofrera ferimentos graves. Assustada demais, fora medicada com calmantes e ainda estava desacordada.
Sentando-se à beira da cama, ele tentou colocar a mão de Qingyi sob a colcha bordada, mas percebeu que ela apertava algo com força. Achou estranho, abriu-lhe a mão à força e encontrou um pedaço de tecido.
Naquele momento, tomado pela ira, não hesitou em concluir que Xueyao era a culpada, condenando-a à morte. Seguiram-se interrogatórios, pontapés, o calabouço, o cárcere do palácio, sem jamais questionar a própria decisão.
Contudo, conhecendo como conhecia Xueyao, sabia que ela era orgulhosa; mesmo diante da morte, jamais abandonaria sua dignidade.
Portanto, havia algo mais por trás disso tudo...
"Huai Shu, Jia Ren," chamou Nalan Shuyu para o salão vazio onde apenas ele próprio se encontrava.
"Mestre!" Duas silhuetas pousaram suavemente, quase como espectros.
Ambas vestiam roupas justas de negro, adornadas apenas por franjas vermelhas. Eram as guarda-costas pessoais de Nalan Shuyu, responsáveis por sua segurança.
Eram gêmeas, treinadas desde a infância de forma especial. O único modo de diferenciá-las era pela pinta vermelha sob o olho direito de Jia Ren, a irmã mais nova.
"O que pensam desse assunto?" indagou Nalan Shuyu, em tom baixo. A perspicácia, a acuidade e a capacidade de análise dessas irmãs superavam as de qualquer pessoa comum.
"Mestre, Huai Shu acha tudo isso estranho. Não parece coisa feita pela Rainha das Neves. Um plano tão mal elaborado, não seria o mesmo que buscar a própria destruição?" A voz suave de Huai Shu transmitia, contudo, uma força convincente.
"Concordo. Pelo que observei, embora a Rainha das Neves seja princesa de um reino inimigo, não tem intenções maléficas. Ela é como um gato, protegendo seu território com unhas e dentes, atacando apenas quem ameaça o que é seu", brincou Jia Ren.
Naturalmente, ela jamais revelaria as travessuras que a Rainha das Neves aprontara com o mestre.
"Ah, é?" Nalan Shuyu arqueou levemente a sobrancelha, esperando que continuassem.
"Além disso, mestre, o senhor não gosta da Rainha das Neves e ela também não tem interesse em vossa pessoa. Não há disputa por afeto; por que então se colocaria em tal situação, ferindo a Consorte Virtuosa e a criança que carrega? E mais: sendo inteligente como é, não sacrificaria seu país pelos próprios interesses", analisou Huai Shu, calma e precisa.
"Pouco frequente é ouvir vocês elogiando alguém. Cuidem dessa questão", disse Nalan Shuyu, com um olhar sério.
Era necessário chegar ao fundo da verdade.
"Às ordens. Seja ou não ela a responsável, não podemos afirmar. Mas, mestre, aquele tapa que deu não foi nada suave." Num piscar de olhos, as gêmeas já haviam desaparecido, restando apenas o eco da voz de Jia Ren no ar.
No vasto salão, só ficou Nalan Shuyu. E aquela dúvida incessante: teria sido certo ou errado aquele tapa? O dilema o consumia, sem cessar.