Uma travessia inacreditável.

Neve Sobre a Cidade Mu Luo Xue, deslumbrante como uma cidade inteira 5048 palavras 2026-02-07 18:34:23

— Belos sonhos são fáceis de partir, pesadelos fáceis de acordar, melhor seria não sonhar; mas então, como se libertar de sonhos estranhos?

No interior do Palácio Real de Beiqing, no aposento privado do Salão da Lua, as criadas mostravam-se aflitas, sem ousar pronunciar sequer uma palavra a mais.

— Yun... Yun... salve-me...

Sobre o leito, a jovem tinha o rosto pálido, olhos cerrados, balbuciando palavras ininteligíveis.

Sentada à beira da cama, Shangguan Ruo Shui, com os olhos injetados de sangue, não se penteava havia sete dias. Ao ouvir o murmúrio da filha, seu coração tornou-se ainda mais inquieto, apertando com força a mão da filha, já entrelaçada na sua.

Ele, um soberano altivo, impotente diante do sofrimento de sua família, vendo-se incapaz de salvá-la! Diante de si, a filha inconsciente; ao lado, a esposa chorosa. Toda vez que olhava para ambas, sentia uma culpa que o esmagava.

— Xi’er, Xi’er, perdoe teu pai! Suplico, por compaixão aos pais já idosos, não nos abandone antes da hora!

Por fim, Shangguan Ruo Shui não conseguiu mais conter as lágrimas, que lhe inundaram o rosto. A rainha Lanyao, esgotada física e mentalmente, também se desvencilhou do amparo da criada, ajoelhando-se junto ao leito. O casal apertou-se num abraço, buscando consolo um no outro. Diante dos filhos, deixavam de ser monarcas e eram apenas pais, simples e aflitos, aguardando ansiosos o despertar da filha.

Os médicos e criados presentes, ao presenciar a cena, não conseguiram conter as lágrimas. A pequena princesa, com apenas dezesseis anos, mesmo travessa, era amável e cativante.

— Majestade, Majestade, não desespereis! Embora a princesa esteja desacordada há sete dias, o seu pulso mantém-se estável. Deixai que eu receite algo para equilibrar seu qi e sangue. Tenho convicção de que ela superará este momento!

O respeitável médico Zhang Jingqing, de lágrimas caindo pelo rosto, arrastou-se até o leito, fitando a jovem inconsciente com ternura. Fora ele quem a viu crescer. Desde o ventre materno, a saúde da princesa era frágil, sempre sensível ao frio. Por isso, o velho médico tomou para si a responsabilidade de cuidar dela, chegando a amá-la como uma neta, transmitindo-lhe todos os segredos da medicina sem reservas. Ao recordar o sorriso de outrora da princesa, as lágrimas corriam ainda mais intensas.

— Que os céus protejam a nossa princesa Xueyao, e que ela fique bem!

Todos os médicos e criados curvaram-se em uníssono, orando em voz alta, como se quisessem que sua fé chegasse aos céus e tocasse o coração da princesa.

— Hm...

Sobre o leito, a dor de cabeça tornava-se cada vez mais nítida e intensa, levando-a a franzir o cenho. As vozes ao redor a perturbavam, mas, mesmo querendo ignorá-las, não cessavam um instante sequer.

— Majestade, Majestade, olhem, a princesa acordou!

Assim que a jovem abriu levemente os olhos, uma criada atenta à beira do leito percebeu e, com um grito, esqueceu-se de toda etiqueta.

— Xi’er, Xi’er, teu pai está aqui.

— Graças aos céus, nossa filha retornou! Obrigado, céus, obrigado...

Shangguan Ruo Shui, tomado de emoção, quase saltou; a rainha Lanyao juntou as mãos, rezando com fervor. Os médicos e criados, ao verem a princesa desperta, secaram as lágrimas e se retiraram, deixando a família a sós após o sofrimento.

— Hm... onde estou?

Despertando, a garganta seca, observou o ambiente estranho ao redor. Lembrava-se de estar sendo perseguida por Guo Moyun, de correr desesperadamente, até cair em algum abismo, sentindo uma dor lancinante na cabeça.

Semicerrou os olhos, tentando recordar o passado, e duas lágrimas deslizaram inesperadamente.

Estava morta?

Teria subido ao paraíso ou caído ao inferno?

De qualquer forma, pouco importava, desde que tivesse fugido daquele lugar doloroso.

Sim, a jovem no leito era Mu Ruoxue, a mesma que caíra no abismo. Mais precisamente, era uma alma habitando o corpo de Mu Ruoxue.

— Xi’er? Xi’er?

Shangguan Ruo Shui acenava diante de seus olhos, inseguro. Notara que, desde que Xi’er despertara, seus olhos estavam vazios, como se não enxergasse nem ele nem Lanyao.

— Quem são vocês?

Diante do olhar estranho, um instinto de alerta ergueu muralhas no coração de Mu Ruoxue, que rapidamente retirou a mão da de Shangguan Ruo Shui. Por que aquele homem segurava sua mão? Dói! E aquela mulher, por que chorava tão desesperadamente? Não se lembrava de nenhum deles, com aquelas roupas esquisitas e comportamentos ainda mais estranhos! Mas a dor era real, estaria mesmo viva?

Lançou um olhar hostil aos dois, examinando o aposento e bradou:

— Onde estou? Quem são vocês? Respondam!

O quarto era em tons rosados, desde as cortinas até as colchas; tudo sugeria ser o dormitório de uma jovem donzela. Os inúmeros objetos preciosos, jade e bronze antigo, indicavam o lar de uma família nobre.

— Filha! Sou teu pai, e aquela é tua mãe! Este é o teu Salão da Lua. Não se lembra?

A hostilidade e desconfiança de Mu Ruoxue deixaram Shangguan Ruo Shui e Lanyao atônitos.

A lâmina não atingira apenas o abdome? Como poderia afetar a cabeça?

— Pai? Mãe?

Mu Ruoxue arqueou a sobrancelha, um sorriso de desdém curvando-lhe os lábios. Caiu num abismo, e agora estava nesse lugar desconhecido! Fora abandonada pelos próprios pais e, de repente, outros vinham buscá-la como se fosse um fardo! Pai, mãe, Salão da Lua... Que piada!

Mas não teve tempo para se vangloriar. Ao examinar seu corpo, prendeu o fôlego.

Tinha certeza: aquele não era seu corpo!

— Sim, filha, não assuste tua mãe...

Lanyao, sem saber lidar com a filha, chorava ainda mais, agarrando-se à manga de Shangguan Ruo Shui.

— Eu não...

— Pai, mãe, o remédio chegou.

As palavras "não reconheço vocês" mal haviam saído quando uma voz suave a interrompeu.

Interromper alguém era falta de educação; Mu Ruoxue olhou, contrariada, para a recém-chegada.

Era uma jovem de dezessete ou dezoito anos, sobrancelhas delicadas, olhos expressivos, vestida de azul celeste, com um grampo de jade nos cabelos negros; bela, serena, segurando uma tigela de líquido escuro, exalando aroma de ervas. O perfume do remédio a acalmava de forma estranha.

— Pronto, querida Xi’er, o pai vai te dar o remédio.

Shangguan Ruo Shui tomou a tigela, tentando acalmá-la como a uma criança.

— Cuidado, está quente.

Após soprar uma colherada, aproximou-a cautelosamente dos lábios de Mu Ruoxue.

— Não quero!

Estalando os olhos, ela afastou a tigela com desdém. O recipiente voou e, com um estalo, quebrou-se no chão, espalhando o remédio pelo lençol, pelo braço de Shangguan Ruo Shui e pelo assoalho.

Desviou o rosto teimosamente; não era criança, por que precisavam alimentá-la? E, além disso, não ia tomar aquele líquido escuro. No passado, sempre enfrentara as doenças sozinha; quem se importava se ela vivesse ou morresse? Quando pensou ter encontrado em Guo Moyun alguém predestinado, ele a traiu, tal como a mãe traíra o pai!

Shangguan Ruo Shui, pouco se importando com a própria queimadura, preocupou-se apenas em certificar-se de que Mu Ruoxue não se ferira. Chamou Xiangsi para arrumar a cama, mas Lanyao insistiu em fazê-lo ela mesma, deixando Xiangsi à parte. Shangguan Qiongrong, com olhos tristes, retirou-se em silêncio.

— Querida, eu sei que o remédio é amargo, mas é justamente o amargo que cura. Só assim você vai melhorar mais rápido.

Tentou acariciar a cabeça de Mu Ruoxue, mas ela se esquivou discretamente, deixando sua mão suspensa no ar. Tossindo para disfarçar, recolheu a mão, constrangido.

— Xi’er, querida, tua irmã já foi buscar mais remédio. Ouça tua mãe, só assim vais recuperar a saúde.

Lanyao, entendendo o coração do marido, procurou consolar-se. Esforçou-se para conter a tristeza e, com o que restava de ânimo, concentrou-se em arrumar o leito, determinada a se reerguer pela filha.

Mu Ruoxue observava tudo com frieza, sentindo crescer em seu peito uma sede de vingança. Nada daquilo tinha a ver com ela!

— Pai, o remédio chegou. Permita-me alimentar minha irmã.

Pouco depois, Qiongrong retornou com outra tigela. Seu sorriso caloroso irritava Mu Ruoxue, pois aquele mesmo sorriso já vira milhares de vezes no rosto de Guo Moyun!

Mesmo diante do olhar gélido de Mu Ruoxue, Qiongrong esforçava-se para agradar.

— Não, eu mesmo dou.

Shangguan Ruo Shui tomou o remédio, provando antes a temperatura. Xi’er, desde pequena, não tomava remédio de outro modo; só aceitava quando ele mesmo lhe dava. Jamais esquecera desse hábito da filha.

— Venha, Xi’er, abra a boca. Depois do remédio, tem ameixas geladas, azedinhas e doces!

Com expectativa, aproximou a colher. Mu Ruoxue sorriu, encantadora. Esquivou-se da colher, tomou a tigela e, sem avisar, jogou-a aos pés de Qiongrong, manchando-lhe o vestido com o remédio.

Diante do olhar atônito de Shangguan Ruo Shui e Lanyao, Qiongrong apenas retribuiu o olhar desafiador de Mu Ruoxue, sem reclamar. Recusou o auxílio de Xiangsi e, mecanicamente, recolheu os cacos do chão.

Lágrimas escorriam-lhe pelo rosto e, mesmo com as mãos cortadas e sangrando, não sentia dor alguma; a dor maior era no coração. Estava ao lado de Xi’er quando tudo aconteceu, mas falhara em protegê-la. Só podia culpar-se, não a Xi’er.

— Rong’er, Xi’er, o que se passa entre vocês?

Shangguan Ruo Shui e Lanyao olhavam as filhas, perplexos. O gesto de Xi’er fora claramente dirigido a Rong’er! Mas sempre foram unidas... por que isso agora?

— Pai, mãe, não se preocupem. A culpa é minha. Vou buscar mais remédio.

De costas, Qiongrong enxugou rapidamente as lágrimas. Sabia que não tinha o direito de chorar.

— Não se deem ao trabalho! Podem trazer o remédio quantas vezes quiserem, não beberei nem uma gota!

Erguendo o queixo, Mu Ruoxue tentava sufocar uma onda de apego que brotava em seu peito.

— Xi’er?

A fria indiferença de Mu Ruoxue feriu profundamente Shangguan Ruo Shui e Lanyao. Esgotada, Lanyao deixou-se cair numa cadeira, amparada por Xiangsi.

— Mas eu continuarei trazendo, até que você tome.

Qiongrong saiu decidida, sem hesitação.

Vendo o desespero do rei, a impotência da rainha, a hostilidade entre as irmãs, Xiangsi não conseguiu mais se conter.

— Alteza, permita-me dizer uma palavra.

Xiangsi, reunindo coragem, ajoelhou-se respeitosamente diante do leito. Desde menina, servir à segunda princesa era sua missão. Embora princesa, sempre a tratou com bondade, como uma irmã.

— Xiangsi?

Mu Ruoxue sorriu, fria, sem sequer olhar diretamente para a criada.

— Alteza, não sei o que causou tamanha mudança em vossa pessoa, mas, do fundo do coração, só desejo sua felicidade. Nestes dias, a princesa Qiongrong tem preparado o remédio entre lágrimas, sempre murmurando: “Perdoa-me, Xi’er”. Desde o acidente, culpa-se por não ter conseguido protegê-la. Não peço nada, só rogo que cuide de si, por amor ao rei, à rainha e à irmã!

Dizendo isso, Xiangsi enxugou as lágrimas e fez uma saudação profunda, apostando na bondade que sempre vira na princesa.

— Xiangsi, se eu não fosse princesa, se não fosse filha deles, ainda assim te humilharias a meus pés?

A voz de Mu Ruoxue era suave, o olhar baixo, impossível decifrar-lhe as intenções.

— A alteza foi quem reconheceu meu valor. Perdoe a ousadia, mas, para mim, a princesa é mais do que uma senhora: é uma irmã de alma!

As palavras cheias de convicção e o termo “irmã” tocaram um ponto vulnerável de Mu Ruoxue, que explodiu em fúria.

— Saiam! Todos, fora! Hipócritas! Fora daqui!

De que servia tal afeto? Só disfarces! O que sentiam por ela, era deles; nada tinha a ver com Mu Ruoxue!

— Xi’er? — “Princesa!”

Diante da súbita mudança, os três ficaram sem reação. Xiangsi, percebendo seu erro, caiu de joelhos, batendo a cabeça no chão.

— Esta serva é indigna, peço perdão, princesa!

— Fora! Fora!

Mu Ruoxue, furiosa, arremessou uma almofada de jade, e os movimentos bruscos fizeram sangrar o ferimento, manchando as ataduras de vermelho.

Do lado de fora, Qiongrong ouviu os gritos e, sem hesitar, entrou rapidamente.

— Xiangsi, acompanhe o rei e a rainha para descansar; aqui eu cuido.

Com uma leve carranca, Qiongrong, mesmo sem saber o que se passara, sabia que os pais não suportariam mais abalos. Fez um sinal para que se retirassem.

— Sim.

Xiangsi, apressada, ajudou o casal, que relutava em sair.

Na soleira, olharam mais uma vez, preocupados.

— Majestade, Majestade, não se preocupem. A princesa Qiongrong cuidará bem da princesa Xi’er.

Xiangsi suspirou, sem saber onde errara. Mas ver o rei e a rainha assim partia-lhe o coração.

— Vamos até o Salão da Erva-de-Orvalho ouvir os médicos. Nossa filha ficará bem.

Shangguan Ruo Shui, balançando a cabeça, suspirou e tomou a mão de Lanyao, saindo lado a lado, seguidos por Xiangsi.

— Sim. Ela ficará.

Era o mês de julho, o sol brilhava suave, e as flores de lótus brancas desabrochavam nos lagos do palácio.