O antigo amigo tornou-se apenas um suspiro constante. (II)
— Uma pessoa, dois espelhos, três vidas de lembranças, eternamente unidos, geração após geração.
Ao amanhecer, o céu clareava suavemente, gotas de orvalho pendiam nas folhas, exalando uma fragrância sutil. O vento murmurava, enquanto as sombras das árvores dançavam delicadamente.
Sobre a muralha da cidade, Mu Qingge estava de pé, com as mãos às costas. O laço branco de sua roupa esvoaçava, os cabelos grisalhos reluziam com uma luz suave e gentil; o sol, ao se erguer, alongava sua sombra, tornando-o ainda mais solitário.
Com os olhos semicerrados, Mu Qingge permanecia em silêncio, observando a cena harmoniosa da cidade. Era mais um dia de prosperidade, as pessoas se moviam, suas silhuetas entrelaçadas sob o brilho matinal.
Jun’er costumava dizer: “Irmão, você dormiu profundamente por muitos dias.” Mas Mu Qingge sentia que havia dormido ainda mais tempo.
Em um lugar de extrema confusão, perdera a noção do tempo, sem conseguir distinguir o caminho.
Apesar do cansaço exaustivo, como se algo essencial lhe tivesse sido arrancado, jamais pensara em desistir.
Com a mão, acariciou levemente a têmpora. Deveria ele recordar algo?
Lembrava vagamente daquela manhã: ao despertar de uma grave doença, Jun’er, emocionada, chorava enquanto arrumava seus cabelos.
No reflexo do espelho de bronze, um brilho misterioso cintilava. Era o reflexo de seus cabelos, brancos como neve.
“Irmã, você se esforçou muito durante a minha doença. Obrigado.”
Mu Qingge ergueu o olhar e viu nos olhos de Jun’er uma ternura profunda, misturada com compaixão.
Sim, era mesmo compaixão, sem dúvida.
“Irmão, se você está bem, eu estou em paz.”
O rosto de Mu Jun’er mostrava um lampejo de hesitação, mordia o lábio inferior e arrumava seus cabelos de maneira um tanto desconcertada.
Ele apenas respondeu com um murmúrio, sem mais palavras, deixando que Jun’er cuidasse de seus cabelos.
A dor aguda na cabeça fazia as veias de sua testa pulsarem. Respirando com dificuldade, esforçou-se para se desvencilhar das lembranças.
Por que não conseguia recordar como adoecera tão gravemente? E de onde vinha a compaixão de Jun’er?
A paisagem diante de seus olhos tornava-se cada vez mais nítida; as ruas começavam a se agitar. Gritos de vendedores, conversas, movimentação constante preenchiam o ambiente.
O sol brilhava intensamente, mas Mu Qingge sentia um frio que lhe penetrava os ossos, abraçando-se fortemente. Esse frio, misturado a uma dor lancinante, parecia uma agulha a perfurar-lhe o corpo; gotas de suor escorriam por sua testa.
Uma capa de pele negra cobriu seus ombros, aquecendo-o no momento em que seu corpo tremia.
Mu Qingge virou-se silenciosamente, surpreso.
Atrás dele estava uma mulher: vestia um longo vestido lilás com flores, uma faixa de cabelo em tons de roxo e branco, sua pele era como porcelana, os olhos profundos e cintilantes como estrelas na noite, carregando uma ternura discreta. Os lábios, de um vermelho intenso, formavam um sorriso delicado.
“Quem é você?” Mu Qingge baixou o olhar, os dedos pálidos apertando inconscientemente a capa. Por que aquele rosto lhe era tão familiar?
A mulher de lilás sorriu suavemente, sem responder. Mas a expressão de concentração em seu rosto lhe impelia a recordar.
De repente, uma imagem se formou em sua mente.
Num meio-dia ensolarado, sobre um balanço envolto em flores de glicínia, sentava-se uma mulher radiante como a primavera; ao seu lado, uma jovem adorável a empurrava.
A jovem era Jun’er, mas e aquela mulher?
“Diga-me, qual é o seu nome.” Com os lábios apertados, o sentimento de familiaridade crescia no coração de Mu Qingge.
Ansioso, tímido e esperançoso, desejava desesperadamente saber quem ela era.
Sobre a muralha, os dois se olhavam profundamente.