O chamado casamento diplomático. (2)
— Pai, Hao Xuan já sofreu o bastante na fronteira — Mu Ruoxue percebeu o olhar inquieto de Shangguan Rushui e, com naturalidade, desviou o assunto.
— O pai sabe, mas a aspiração de um homem está em proteger o seu país. Melhor morrer no campo de batalha do que abandonar o mundo por egoísmo. Só enfrentando tempestades se aprende a assumir responsabilidades.
A voz de Shangguan Rushui carregava uma tristeza e desolação profundas. Mu Ruoxue fitou o rosto dele, notando como parecia ter envelhecido. Não era para menos: o filho passava anos fora, enfrentando perigos; que pai ou mãe não se preocuparia?
— Então, peço ao pai que permita que eu vá selar a aliança matrimonial — Shangguan Qiongrong se postou à frente de Mu Ruoxue, protegendo-a com seriedade. Era a irmã mais velha; cabia a ela enfrentar o perigo.
— Rong’er? — Mu Ruoxue murmurou, assustada. Sabia que Shangguan Qiongrong compreendia que aquele era um caminho sem volta. Se sabia, por que insistia? Afinal, a própria felicidade não deveria ser o mais importante?
Shangguan Qiongrong ignorou o murmúrio de Mu Ruoxue e ajoelhou-se diante dos pais.
— Pai, mãe, minha irmã é ainda jovem, talvez não consiga cumprir tão grande missão. Deixe que eu vá; assim, poderei agir conforme as circunstâncias e nos apoiarmos mutuamente.
— Enganas-te, irmã. Somos gêmeas; como poderia eu ser mais jovem? Ademais, tens um temperamento dócil e não suportarias viver submissa em terra alheia. Pai, minha mente se alinha à sua estratégia; é melhor que eu vá — Mu Ruoxue abaixou os olhos e falou suavemente.
Velhos conceitos e a situação presente se entrelaçavam em seu íntimo. Além disso, ela nem pertencia verdadeiramente àquele lugar; por que hesitar em partir? Era um ambiente demasiado caloroso para uma alma solitária.
— Irmã, por que insistes em disputar comigo? Por que esse sofrimento? — lágrimas brilhavam nos olhos de Shangguan Qiongrong.
— Minhas filhas, não falem mais! A culpa é toda minha! — a Rainha Lanyang, tomada pela emoção, abraçou as duas com força. Quanto mais elas lutavam para proteger o futuro uma da outra, mais o coração da mãe se despedaçava, quase a ponto de sufocá-la. Como poderia escolher qual das filhas deveria correr tamanho risco, se ambas eram parte de sua carne?
— Mãe, acalme-se. Tudo ficará bem — mesmo tentando confortar a Rainha Lanyang com doçura, as lágrimas de Shangguan Qiongrong caíam sem cessar. Por que não podiam viver em paz? Por que sempre havia quem cobiçasse seu país? O poder absoluto valia tanto assim?
— Pai, não hesite mais. Permita que eu vá — respirando fundo, tentando acalmar o coração acelerado, Mu Ruoxue falou palavra por palavra. Não suportava aquela atmosfera de despedida e luto.
— Não. Sou a irmã mais velha; escutem-me — Shangguan Qiongrong manteve-se firme, sem ceder um passo. Será que Xi’er sabia realmente o que estava fazendo? Não era brincadeira; um erro poderia custar-lhe a vida.
— Pai, Xi’er se dispõe a partir. Peço sua permissão — dobrando os joelhos, Mu Ruoxue ajoelhou-se solenemente diante de Shangguan Rushui e fez uma profunda reverência. Era a primeira vez que o chamava de pai com tamanha seriedade, e esse gesto a deixava confusa. No entanto, não era uma sensação desagradável.
— Ah… — ao ouvir aquele chamado, Shangguan Rushui ficou tão surpreso que não soube responder. Esperara por esse momento por três meses, mas, ao mesmo tempo, sabia que, ao ouvi-lo, perderia sua filha amada. Céus cruéis! Já em idade avançada, teria de suportar novamente a dor da separação.
— Peço sua permissão — curvando-se ainda mais, Mu Ruoxue fez outra reverência. Tinha seus próprios princípios e não queria dar muitas explicações. Para quem merece, palavras não são necessárias; quem precisa, saberá entender.
Shangguan Rushui hesitou brevemente antes de tomar, com dificuldade, sua decisão.
— Filha, levante-se. O pai permite que vás. A culpa é toda minha!
Com carinho, afagou a cabeça de Mu Ruoxue e a ajudou a levantar-se. De cabeça levemente inclinada, as lágrimas correram por seu rosto marcado pelo tempo. Sabia que passaria o resto da vida arrependido por aquela decisão.
A Rainha Lanyang, ao lado, chorava em desespero, quase desmaiando. Por que suas filhas tinham de carregar tal destino? Ela não compreendia, não compreendia!
— Não permito! Não permito! Tenho apenas esta irmã. Se alguém deve arriscar a vida, que seja eu. Pai, retire sua ordem! — Shangguan Qiongrong ajoelhou-se aos pés de Shangguan Rushui, agarrando-se desesperadamente às vestes dele. Não podia assistir, impotente, à irmã marchando para a morte.
— Não se preocupe — abraçando Shangguan Qiongrong, Mu Ruoxue sentiu uma dor estranha no coração. Pensara que seu peito estava congelado desde aquele inverno. Por que, então, ainda sentia tamanha dor?
— Filhas, no fim, somos eu e a mãe de vocês que ficamos em dívida — Shangguan Rushui secou as lágrimas, forçando um sorriso ao acenar para ambas.
Os quatro se abraçaram, unidos e apertados.
Mu Ruoxue compreendia a tristeza de Shangguan Rushui e a dor da Rainha Lanyang. Mas, como flores gêmeas, uma era real, a outra, sombra. Era preciso que uma delas enfrentasse tal escolha. Já ocupava tudo que pertencia a Shangguan Xuexi; não podia ser ainda mais egoísta. Salvar Shangguan Qiongrong era o mínimo que podia fazer por eles.