A vida pode ser tão insignificante. (II)
Nalan Shuyu esforçava-se ao máximo para manter a mente lúcida. Quanto mais crítico o momento, menos deveria perder o controle.
— Huaishu, Bela.
Mal terminou de falar e duas figuras graciosas já haviam pousado suavemente no grande salão.
— Sim, mestre.
— O que descobriram? Há algo de estranho nessa história?
Aquilo não parecia obra do acaso, tampouco do inevitável; assemelhava-se a um plano meticulosamente arquitetado.
— Conforme nossas investigações, Xueyao foi atacada logo após entrar nos domínios de Dongqing. Ao que tudo indica, a luta foi feroz. Vários assassinos encapuzados tombaram ali mesmo, todos com vestes estampadas com o símbolo do tigre branco — relatou Huaishu em tom suave, descrevendo os acontecimentos em detalhes.
— Minha irmã e eu examinamos os cadáveres — acrescentou Bela, agora sem o habitual sorriso, com expressão carregada de seriedade. — Havia claras marcas de resistência. Pela aparência e porte, não diferiam de Xueyao, mas o rosto estava irreconhecível, impossível confirmar se era de fato ela.
— O brasão do tigre branco não é prova de que foi obra de Xili; pode muito bem ter sido uma armação. Xili nega qualquer envolvimento. Contudo, há coisas que não consigo entender — ponderou Nalan Shuyu, intrigado. — Se foi Zhang Hao quem matou Xueyao, qual seria sua motivação? Provocar uma guerra entre Dongqing e Beiqing, para então conquistar ambos? Mas, se não foi Zhang Hao, o que busca quem tenta incriminá-lo?
— Mestre, é difícil descobrir se foi Xili. Zhang Hao tem muitos aliados, qualquer um deles pode estar envolvido. Talvez seja uma provocação deliberada, talvez uma tentativa de incitar conflitos. Nestes tempos turbulentos, tudo é possível — respondeu Huaishu. Os quatro reinos se equilibravam mutuamente, qualquer cenário podia se tornar realidade.
— Mas se não foi Zhang Hao, quem você supõe que poderia ter sido?
Nalan Shuyu refletiu por um instante e balançou a cabeça. Se fossem listar suspeitos, todos seriam suspeitos.
Diante disso, as irmãs gêmeas trocaram olhares incertos.
— Em Nanchen, Mu Qingge reforçou as defesas. Talvez ele também esteja à espreita, aguardando o momento certo para agir.
Nalan Shuyu inspirou fundo, resignando-se à realidade. Mas, afinal, que direito tinha ele de culpar Mu Qingge? Quando, no passado, ouvira os conselheiros e desposara Xueyao por conveniência, já previa que este dia chegaria.
Sob qualquer prisma, fora ele próprio quem se deixara guiar pelo interesse. Não havia como culpar Mu Qingge.
— Sim, mestre. Diante dessa situação — Mu Qingge com o exército às portas, Zhang Hao negando tudo — resta-nos apenas preparar outros planos.
— Melhor garantir a Xueyao um enterro digno de rainha, para que Beiqing não tenha motivos para reclamar.
Huaishu suspirou silenciosamente. O confronto entre os quatro reinos parecia inevitável.
— Mas, Xueyao...
Mesmo agora, Nalan Shuyu não conseguia acreditar que Xueyao tivesse perecido tão facilmente. No entanto, tampouco sabia como poderia reverter aquela situação.
— Mestre, talvez fosse mesmo o destino trágico de uma beldade. Se houver uma próxima vida, espero que possa viver sem tantas amarras.
Bela não escondia a tristeza, embora nada pudesse fazer. Nascer em tempos conturbados era aceitar uma morte trágica como algo comum.
Nalan Shuyu acenou levemente com a cabeça. Ainda sentia que havia algo oculto que não conseguia alcançar, mas, por ora, nada mais podia fazer.