Preocupações dispersam-se ao vento. (Parte Um)
Num piscar de olhos, o inverno profundo já havia chegado, e o período de reflexão de três meses, marcado pelas pequenas flores de ameixeira vermelha desafiando a neve, também chegara ao fim.
Exceto pela visita inesperada de Mu Qingge, ninguém mais a incomodara. Muróxia pensava que três meses seriam longos o bastante para fazê-la esquecer as tribulações deste mundo em conflito. Contudo, ao vivê-los, pareceram breves, tão breves quanto o dia anterior.
Durante o tempo no Salão da Meditação, embora todos os dias fossem marcados por vestes e alimentos simples, seu coração esteve mais sereno do que em qualquer outro momento desde que se casara. Era, afinal, uma mulher comum, a mais comum de todas, mas o destino a empurrara para um abismo sem fim. Não sabia se aquilo era uma artimanha do destino ou mais uma brincadeira dos céus.
Ao cruzar o limiar do Salão da Meditação, Muróxia não pôde deixar de olhar para trás. Ao sair dali, voltaria a vestir sua armadura de batalhas. Talvez, para ela, aquele período de tranquilidade não passasse de um sonho luxuoso e belo, porém efêmero.
— Senhora, finalmente saiu! Eu... eu senti tanto a sua falta, fiquei realmente preocupada! — mal Muróxia firmara os pés fora do salão, foi surpreendida por um abraço súbito, tão forte quanto o de um coala.
— Ah! — com um grito surpreso, as duas caíram ao chão, em meio a risos e braços entrelaçados.
— Digo, Che’er, tanto tempo sem nos vermos, e você continua a mesma? Sempre tão impulsiva — Muróxia abraçou Che’er, sentindo-se inesperadamente feliz, ainda que resmungasse com a voz. Naquele palácio, não se sentia solitária, pois tinha Che’er. Algumas pessoas não se sabe ao certo o motivo, mas aquecem o coração desde o primeiro olhar.
— Só estava tentando ser gentil e vir recebê-la. Mas é sempre assim, minha boa intenção é tratada como se fosse coisa ruim! — Che’er fez biquinho, enquanto seus olhos percorriam Muróxia com atenção. Parecia mesmo mais magra. Naquele lugar horrível, não era de se admirar. Precisava pensar num jeito de cuidar melhor dela.
— Você? Gentil? Ha! — Muróxia fingiu franzir o cenho, como se ponderasse seriamente.
O bom humor era raro, e ela não pôde evitar brincar.
— Claro que sim! Pena que a senhora não entende! — Che’er não deixou barato e armou uma pequena armadilha, o rosto corado de animação.
— Hehe, é verdade, eu sou você — Muróxia respondeu com um tom ambíguo. Che’er, porém, não percebeu a provocação e apenas a apressou para que voltassem logo ao Palácio Fengluan.
O frio era cortante. Já avistavam a entrada do palácio quando Che’er, de repente, exclamou:
— Ah, senhora! Então queria dizer que Che’er é como um cão, certo? Já sabia, não é? — o grito inesperado assustou Muróxia. Ao virar-se, viu Che’er de punhos fechados, claramente contrariada.
— Ei, ei, alguém poderia ser mais razoável? Quem começou com as provocações? Só porque foi pega na própria armadilha, agora quer reclamar? — Muróxia virou-se elegantemente, o rosto quase contorcido de tanto conter o riso.
Não aguentou nem um instante e caiu na gargalhada. As demais criadas que as acompanhavam também se desmancharam em risos.
— Senhora é má, vive a implicar com esta criada. Muito injusto! — corou ainda mais, correndo em direção ao Palácio Fengluan. Admitia que tinha segundas intenções, mas só um pouquinho! Como pôde a senhora fazê-la passar vergonha diante de todos? Absurdo! No entanto, era a primeira vez que via Muróxia rir com tanta alegria.
Enquanto pensava nisso, Che’er não conteve um sorriso no canto dos lábios.
— Che’er, Che’er! Ei, não fique brava, está bem? Eu errei, não foi? — Muróxia correu atrás, tentando agradá-la. Desde o ocorrido da última vez, haviam se tornado ainda mais próximas. Mas, segundo a lógica de Muróxia, se cometesse um erro, arrastaria outras consigo.
Na verdade, era uma charada. "Não entende a boa intenção?" Era sobre o Cão Celestial. Che’er dissera que ela não reconhecia boa intenção, então Muróxia respondeu ser Che’er, ou seja, Che’er também seria o cão. Bem, talvez não fosse muito elegante.
Mas era só uma brincadeira, ainda que talvez um pouco exagerada.
— Senhora teimosa, Che’er vai preparar o almoço para si. Está muito magra — Che’er respondeu, ajeitando as roupas, um pouco sem jeito.
— Aposto que só Che’er chamaria sua senhora de teimosa, ou até de má. Cada senhora tem a criada que merece. Mas não, eu, Muróxia, sou muito elegante, sim.
— Vamos, vamos entrar. Ficar aqui fora por muito tempo é um gelo só.
Embora não sentisse saudades daquele lugar, era inevitável voltar.