Prefácio.
No coração de cada garota, existe um sonho esplêndido e magnífico. Talvez, algum dia, aquela pessoa destinada a você venha buscá-la sobre nuvens coloridas; talvez, algum dia, ele venha num balão de ar quente, flores nas mãos, gritando do alto “eu te amo”; talvez, algum dia, ele, nas profundezas do mar, com golfinhos aos pares, erga um anel de diamante e prometa protegê-la por toda a eternidade. E eu, só desejo passar uma vida tranquila ao lado desse alguém, juntos para sempre.
Se amar você já se tornou um hábito, como posso me libertar dele e, enfim, aprender a me amar?
27 de dezembro, sábado, céu limpo tornando-se neve leve.
Oito horas em ponto. Mu Ruoxue, despenteando os cabelos, lutava para sair da cama e, entre o sono e a vigília, arrumou os lençóis. Vagueou até fora do quarto e percebeu que, naquela casa imensa, só restava ela. Acostumada à solidão, deu de ombros e mergulhou direto no banheiro, onde começou a se ocupar.
Às oito e meia, Mu Ruoxue já estava com uma maquiagem suave e elegante, vestia um sobretudo de caxemira rosa que raramente usava, enrolou ao pescoço um cachecol branco e calçou botas de neve de couro branco. Diante do espelho no hall, sorriu e disse: “Feliz aniversário para mim!”
Às oito e quarenta e cinco, pontualmente, Mu Ruoxue estava em frente ao portão do condomínio, esfregando de leve as mãos geladas. O inverno do norte era, de fato, muito frio.
Depois de cerca de dez minutos, um Audi preto parou diante dela e a levou para longe.
Às nove horas, Mu Ruoxue desfrutava o calor do carro, recostada preguiçosamente num canto, ouvindo música pop ambiente. A assistente lhe disse que, se o trânsito colaborasse, ainda levariam quarenta e cinco minutos até o museu de arte, então ela podia relaxar um pouco.
Às dez e oito, o carro entrou no estacionamento subterrâneo do museu. Restavam vinte e dois minutos para a abertura da exposição. Mu Ruoxue, sentada na sala de descanso, recebeu das mãos da assistente um cappuccino, que aqueceu seu corpo.
Às dez e vinte e um, uma mensagem chegou ao seu celular. O sorriso cúmplice surgiu nos lábios de Mu Ruoxue: era Gu Moyun. Ele disse: “Querida, feliz aniversário. Mais tarde, tenho uma surpresa para você.”
Às dez e meia, a exposição de arte começou. Convidada pelo apresentador e sob vigorosos aplausos, Mu Ruoxue caminhou confiante até o centro dos holofotes, explicando as obras e seus significados. Seu sorriso gentil, a postura imponente, a elegância nos gestos; tudo nela irradiava encanto, e ela brilhou intensamente nesta exposição.
Mu Ruoxue, a joia rara do mundo das artes, havia surgido três anos antes e logo se tornara a queridinha do cenário artístico.
Às dezesseis e quarenta e dois, Mu Ruoxue repousava preguiçosamente numa cadeira da sala de descanso. Após um dia movimentado, sentia o estômago vazio, mas tinha o consolo da surpresa prometida. Com um toque ágil, respondeu a Gu Moyun: “A exposição correu bem, estou morrendo de fome.”
Às dezesseis e quarenta e três, Gu Moyun logo respondeu, cheio de carinho: “Querida, ainda preciso esperar um pouco para sair do trabalho. Vamos nos encontrar às seis, no nosso lugar de sempre. Prometo alimentar você até se fartar!”
Às dezesseis e cinquenta, começou a cair neve fina. Mu Ruoxue deixou o museu, o coração repleto de expectativas. Lembrava-se do presente de dois anos antes: um cachecol felpudo rosa, com um coelhinho desenhado por ele. No ano anterior, plantaram juntos um jardim de macieiras silvestres e, ele dissera: “Quando florescerem, nos casaremos.” Em três meses, entrariam juntos no altar, jurando amor eterno. Pensando nisso, as faces de Mu Ruoxue tingiram-se de um rubor embriagador.
Às dezessete e doze, chegou uma mensagem de Mu Shaojie, o irmão: “Não esqueci seu aniversário, sei que você está ocupada hoje. O presente enviei ontem para a escola.” Sorrindo, Mu Ruoxue fechou o celular e tomou um táxi em direção à escola, perguntando-se se Shaojie estaria bem na Alemanha.
Às dezessete e vinte e nove, caminhava sozinha pelos corredores do ateliê, sob luzes suavemente tênues. Àquela hora, Gu Moyun já não deveria estar na escola. Pensou que melhor teria sido ligar e pedir que a esperasse um pouco.
Às dezessete e trinta e um, Mu Ruoxue parou de repente, o olhar vacilante, desviando o rosto embaraçada. Não muito longe, um casal se abraçava e trocava beijos sob uma luz difusa. Pensou em se afastar para evitar o constrangimento, mas ao olhar de relance, viu o rosto do homem.
Às dezessete e trinta e dois, o choque paralisou Mu Ruoxue no lugar. Os lábios se moviam, mas nenhum som saía; deixou que as lágrimas embaçassem sua visão, os dedos pálidos se cravando nas palmas das mãos, enquanto o sangue pingava no chão, em pequenos e agudos estalos.
Às dezessete e trinta e três, os corpos entrelaçados continuavam alheios, perdidos no beijo apaixonado. O braço magro da mulher envolvia o pescoço do homem, o corpo dela se apoiava languidamente nele. O rosto do homem, parcialmente coberto por ela, mal deixava ver sua expressão.
Às dezessete e trinta e quatro, finalmente, o olhar turvo do homem encontrou os olhos marejados de Mu Ruoxue. O pânico súbito e a confusão brilharam nos olhos dele, tão gritantes!
Às dezessete e trinta e cinco: “Xue, eu...” O homem sentiu claramente o frio que emanava de Mu Ruoxue, apressou-se em afastar a mulher agarrada a ele, recuou vários passos, nervosamente ajeitando as roupas amassadas.
A mulher, quase derrubada pelo gesto brusco, parecia indiferente, com um sorriso zombeteiro nos lábios inchados, observando a cena de braços cruzados.
Às dezessete e trinta e seis: “Gu Moyun...” Mu Ruoxue fixava o olhar no homem de expressão pálida, sentindo o coração se partir. Não queria acreditar, mas o rosto daquela mulher era tão familiar que ela se julgou presa a um delírio.
E o homem que mais amava, tão desorientado! De que ele tinha medo? Que ela divulgasse a traição com Luo Guanying, manchando sua reputação de professor? Ou que o amor de três anos acabasse ali? Sentindo um amargor profundo, Mu Ruoxue excluiu logo a segunda hipótese. Se ele realmente temesse perdê-la, teria feito isso às escondidas?
Às dezessete e trinta e sete: “Xue, não é o que parece, por favor, me escute...” Gu Moyun quase implorava, tentando acalmá-la, mas só conseguiu aumentar ainda mais sua dor.
“Não me explique!” Mu Ruoxue tapou os ouvidos com força, à beira do colapso. Lutava consigo mesma, mas a mulher não pretendia parar ali.
“Xue, gostaria de pedir desculpas, mas é exatamente como você viu! Eu e Yun realmente nos apaixonamos. Íamos esperar seu aniversário passar para contar, mas agora não há mais por que esconder.” Luo Guanying riu, olhando com desprezo para o rosto pálido de Mu Ruoxue. Seu rosto sedutor não mostrava arrependimento algum; os cabelos desarrumados presos de qualquer jeito, exibia-se altiva e orgulhosa.
Às dezessete e trinta e nove: “Luo Guanying, que absurdo está dizendo? Não é assim...”
“Gu Moyun! Por que continuar mentindo?”
Antes que Gu Moyun respondesse, Mu Ruoxue puxou de volta a mão que ele segurava, cortando friamente suas palavras inacabadas.
A preocupação e desculpa nos olhos de Gu Moyun, para Mu Ruoxue, soaram apenas como desculpas para se livrar da culpa. Memórias antigas vieram à tona: a mudança da mãe, as brigas do pai, a família despedaçada, a menina encolhida num canto, chorando sem fim. O olhar vazio de Mu Ruoxue vagava entre Gu Moyun e Luo Guanying, sua voz firme: “Gu Moyun, mais que ninguém eu quis a sua felicidade. Esse desejo virou hábito, me fez acreditar que poderia cuidar de você para sempre. Você podia ter me dito: que não gostava de mim, que queria ficar com Yingying, que eu não era quem te faria feliz. Podia ter dito tudo, só não podia me trair! Depois da traição, não há mais volta!”
Respirou fundo, enxugou as lágrimas teimosas, e continuou, a voz embargada: “Yingying, sempre te considerei a pessoa mais importante para mim depois de Moyun. Agradeço por tudo até aqui, mas não posso mais ser sua amiga. Moyun é um bom homem, espero que o valorize.”
Ao ver o espanto fugaz no rosto de Luo Guanying, Mu Ruoxue admitiu para si mesma a vontade de lhe dar um tapa. Mas as lembranças felizes dos últimos anos repetiam-se em sua mente, tornando pesada e inútil a mão que queria erguer.
Sorriu de si para si: não era capaz de machucar.
Com um olhar profundo dirigido a Gu Moyun, Mu Ruoxue virou-se e correu rapidamente pelo corredor. Lutava para manter a dignidade, dizendo a si mesma que não poderia perder o pouco de orgulho que lhe restava. Mas seu corpo trêmulo a traía completamente, e o sorriso amargo nos lábios, misturado às lágrimas, não conseguia ocultar a dor.
Três anos de amor não resistiram a uma traição. Se amar ou não amar é apenas uma distância entre solidão e traição, então por que continuar esperando por algo chamado felicidade? Melhor seria, doravante, fechar o coração, trancar o amor, viver só e sem feridas.
Às dezessete e quarenta e quatro: “Xue, espere! Deixe-me explicar...” Gu Moyun, frustrado, passou as mãos pelos cabelos, pronto para correr atrás dela, mas foi impedido por Luo Guanying, que o abraçou com força.
“Yun, não vá! Fiz tudo isso porque te amo! Por favor! Fique!” A voz de Luo Guanying já era só soluço, os braços apertados em torno dele. Não podia deixá-lo ir; se ele e Mu Ruoxue se reconciliassem, tudo o que fez hoje teria sido em vão. Não aceitava ser deixada de lado.
“Luo Guanying, nunca vou te perdoar pelo que fez hoje! De agora em diante, não quero mais te ver nem que Xue te veja!” Ignorando as lágrimas de Luo Guanying, o coração de Gu Moyun só pensava em Mu Ruoxue. Desvencilhou-se dela sem hesitar e correu atrás de Mu Ruoxue.
“Moyun... não me abandone... não!”
A silhueta de Gu Moyun desapareceu. Luo Guanying, incrédula, olhou para as próprias mãos dormentes de tanta dor e caiu de joelhos, derrotada.
Perdeu, afinal! Subestimou o amor de Mu Ruoxue e Gu Moyun, superestimou seu próprio encanto.
Encolhida num canto escuro, Luo Guanying enterrou o rosto entre os joelhos, deixando a escuridão envolvê-la. Do outro lado da janela, a neve caía, a umidade tornava as silhuetas indistintas.
Às dezoito horas, a rua fervilhava de pessoas sob luzes de néon. Mu Ruoxue caminhava sem rumo, de cabeça baixa. O vento frio secou suas lágrimas e deixou o narizinho vermelho.
A felicidade alheia, o calor dos outros, nada mais lhe dizia respeito.
Às dezoito e vinte e sete: “Xue! Xue! Por favor, espere. Vamos conversar, pode ser?” Ofegante, Gu Moyun finalmente encontrou Mu Ruoxue após correr cinco quarteirões.
Ao ouvir a voz conhecida, Mu Ruoxue retraiu-se como um ouriço ferido, cada nervo tenso. Sem dizer palavra, saiu correndo. Não queria mais vê-lo!
“Xue, não fuja! Deixe-me explicar, não é como Luo Guanying disse...” Gu Moyun correu atrás dela, decidido: assim que a alcançasse, contaria tudo, abriria aquela cabecinha para ver o que se passava ali. A desconfiança de Mu Ruoxue feria-o como agulhas.
Os dois corriam sob a neve, ignorando os gritos preocupados dos transeuntes.
Às dezoito e quarenta e dois, numa esquina, Mu Ruoxue tropeçou numa pedra e caiu de cabeça num buraco profundo de obras.
O sangue escorria; sua consciência se esvaía. Ouvia, ao longe, os gritos aflitos de Gu Moyun, mas já não sentia mais nada.
27 de fevereiro, sábado, céu limpo tornando-se neve leve.
A vida de Mu Ruoxue estava prestes a começar uma experiência extraordinária.