Preocupações dispersas ao vento. (Parte Dois)
— Che’er, está delicioso! O melhor é que tem muita carne. Depois de ver tanto verde, Murou Xue quase acreditava que estava destinada à vida de uma monja. Sempre soube aproveitar a vida e nunca se privou do que gostava.
Che’er, atarefada, servia os pratos. — Senhora, coma devagar. — Oh, quanta privação ela deve ter passado... Ao ver carne, os olhos até brilharam de desejo.
— Hehe. — Murou Xue riu, um tanto constrangida, mas não diminuiu o ritmo com os pauzinhos.
— Senhora, enquanto esteve ausente do Palácio Fênix-Luán, Sua Majestade, bem, veio algumas vezes — disse Che’er, testando o terreno. Acabava de regressar do Pavilhão da Meditação, não era hora de receber notícias perturbadoras.
— Ah, e o que veio fazer? — Que relação poderia ter com ela? Afinal, eram apenas marido e mulher no papel.
— Não sei ao certo. Cada vez que vinha, ficava calado, olhando para o nada. Não demorava e ia embora — relatou Che’er com sinceridade. O rei era mesmo estranho: quando a senhora estava, ele não aparecia; ausente, ele vinha.
Murou Xue continuou sua batalha com os pratos, pois o essencial era não deixar a fome falar mais alto.
Algumas coisas não valem tanta curiosidade. No fim, o tempo sempre traz a verdade à tona.
Além disso, depois de ter sido punida e posta em confinamento, arrepender-se agora não seria tarde demais?
— Senhora, ouvi mais uma coisa... — Che’er coçou a cabeça, indecisa. Devia ou não contar? Se calasse, a senhora acabaria sabendo. Contando, sabia que ela ficaria triste. Um dilema.
— Fale. — Murou Xue pousou os pauzinhos, limpou o canto dos lábios e fez sinal para a criada retirar a mesa.
— Ouvi dizer que a Consorte Virtuosa está grávida do herdeiro imperial — sussurrou Che’er, quase inaudível. Mas Murou Xue escutou perfeitamente.
— Preparem um presente generoso para enviar — respondeu Murou Xue com um sorriso sereno, dando instruções a Che’er. Já havia percebido que Qingyi era uma mulher de sorte, diferente dela.
— Senhora... — Che’er a olhou, tomada por compaixão.
— Venha comigo ao jardim — disse Murou Xue, pousando a mão suavemente sobre a de Che’er. Imaginava que a garota já se torturava com conjecturas.
Os passos de Che’er arrastavam um peso invisível, como se carregasse pedras milenares.
— Che’er, veja como as ameixeiras florescem belamente — Murou Xue estendeu a mão para tocar as pequenas flores rubras, sentindo o aroma sutil envolvê-la.
— Que tal colher alguns ramos para o interior? — sugeriu Che’er, já pronta a cortá-los.
— Não, Che’er, deixe-as onde estão. Não é melhor que floresçam em seu lugar de origem?
Num ambiente que não lhes pertence, as flores só murcham mais depressa. Assim também são as pessoas: quando lançadas num mundo estranho, se não conseguem se adaptar ou aceitar, acabam sendo consumidas por ele.
— Senhora, no que está pensando? Será que o favoritismo do rei pela Consorte Virtuosa lhe causa tristeza? — De súbito, Che’er, deixando de lado sua habitual doçura, fez a pergunta que a inquietava. Melhor perguntar diretamente do que viver às voltas com dúvidas.
— Não penso em nada. Apenas aprecio as ameixeiras. Como sentir a perda do que nunca se teve? E como sofrer por algo que não se perdeu? Eu e o rei somos como linhas paralelas, jamais nos encontraremos — explicou Murou Xue, gesticulando para facilitar a compreensão. O frio fez com que suas mãos, antes ocultas nas mangas, ficassem pálidas.
— Está com frio, senhora? Voltemos, vou buscar um aquecedor para suas mãos — disse Che’er, levando as mãos de Murou Xue ao peito para aquecê-las.
— Sim, voltemos. Está realmente frio — consentiu Murou Xue, lançando um olhar de soslaio para a curva do portão do palácio. Seguiu com Che’er para os aposentos. Ele provavelmente ouvira tudo.
Ora, certos assuntos podem ser resolvidos indiretamente.
Saber artes marciais não é nada mau; a audição aguçada é uma das vantagens. Não é à toa que dizem: "Conhecimento nunca é demais".
Nalan Shuyu não sabia há quanto tempo estava junto ao portão do Palácio Fênix-Luán. Talvez desde que Murou Xue começou a admirar as ameixeiras. Chegara ali com o coração inquieto, sem saber se devia entrar ou ir embora. Ao finalmente decidir dar um passo e pedir desculpas, foi quando ouviu a conversa entre ela e a criada. Movido pela curiosidade, ficou parado, ouvindo tudo. Quando escutou as palavras “jamais nos encontraremos”, sorriu em silêncio, sem saber o motivo.
Virou-se e partiu, deixando apenas uma trilha de pegadas na neve, levadas pelo vento para um destino incerto.