Aqueles passados adormecidos. (Parte II)
Não sei ao certo quando aprendi a ser indiferente, quando comecei a olhar para tudo com frieza e, ao final, nem mesmo sabia mais o que realmente me importava. Cada dia era como vestir uma máscara; ainda que fosse eu, não vivia a vida que desejava.
Mu Qingge baixou os olhos, fitando o vasto salão interior. Este palácio real era um lugar que aprisionava a alma. Para realizar grandes feitos, é preciso primeiro carregar grandes responsabilidades.
— Qingge, lembra-se de quando eras criança? Na primeira vez que apareceste aqui, fui atraído pela solidão que fluía em teus olhos. Desde então, soube que, tal como eu, tens uma alma solitária e sedenta de calor.
Nalan Suyu recordava bem: tinha seis anos quando o príncipe Chu Huai, Mu Zhanyang, trouxe o jovem Mu Qingge, então com cinco anos, para visitar Dongqing. Num instante, apaixonou-se pela figura do menino em branco.
— Eu me lembro. A primeira frase que disseste ao me ver foi: “Ao te encontrar, sei que nunca mais serei sozinho.” E foi naquele momento que decidi: Nalan Suyu seria o meu confidente.
— E quanto a San Yue, ainda se recorda?
Ao mencionar aquela pessoa, uma ternura suave se espalhou pelo rosto de Nalan Suyu.
— Sim, lembro.
Se no início alguém falasse de San Yue, o coração de Mu Qingge ainda sentiria uma leve dor. Mas agora, ele já havia se libertado de tudo aquilo.
— San Yue foi a mulher que mais amei nesta vida. Eu sabia que ela gostava mais de ti, mas mesmo assim, não desistia de persegui-la. Naquele amor, tu recuaste sem lutar. Por quê? Não gostavas dela também?
Nalan Suyu era perspicaz; percebia muito do que acontecia ao seu redor.
— Como disseste, eu a amei. Mas, em comparação comigo, tu a amavas mais.
Mu Qingge deslizou a mão sobre o frio jade da mesa e continuou:
— O tempo provou que eu não estava enganado. Ela, ao teu lado, foi feliz. Mesmo quando, mais tarde, sucumbiu à doença, viveu uma vida sem arrependimentos.
As palavras de Mu Qingge fluíam como água, silenciosas, preenchendo cada canto do grande salão.
— Por quê? Por que nunca competiste comigo? Não importa o que eu goste, tu sempre cedes sem reclamar.
Nalan Suyu não suportava mais a serenidade de Mu Qingge.
Desde que se conheceram, tudo o que ele desejava, Mu Qingge entregava sem hesitar. Isso o fazia sentir-se miserável.
— Somos amigos íntimos, não somos?
Mu Qingge semicerrava os olhos; ele apenas temia perder.
Se aquelas coisas pudessem manter Suyu ao seu lado, faria qualquer concessão. Não queria perder o único amigo a quem podia revelar seu coração.
— Claro.
— Hum.
— Não falemos mais disso. E ela, está bem?
A voz de Nalan Suyu tornou-se rouca, abafada pela emoção.
O passado sempre encontra um modo de tocar os pontos mais frágeis do coração.
— Está bem.
Mu Qingge sorriu, sabendo exatamente de quem Nalan Suyu falava.
— Não tem curiosidade de como sei que ela ainda está viva?
Mu Qingge sorriu de leve, respondendo com tranquilidade:
— Não tenho.
O que há para se perguntar? Nunca pensou em esconder isso dele.
— Tu, sempre és assim. Somente ela tem o direito de estar ao teu lado.
Desde o início, ao ouvir falar da marcha de Mu Qingge contra as fronteiras, Nalan Suyu já imaginava o motivo.
— Finalmente foste mais perspicaz que eu desta vez.
Mu Qingge brincou, um sorriso de interesse nos lábios.
— Tu… realmente a amas?
Nalan Suyu perguntou, meio perdido, sem saber por quem buscava confirmação.