As preocupações do coração caem no pátio de quem? (Parte II)
Ao longo do caminho à beira do lago, ela contava as estrelas no céu: uma, duas, três. Murong Ruoxue sentia-se mais leve do que nunca e soltou um longo suspiro.
Mas, espere, havia algo estranho. De repente, notou junto à rocha ornamental duas figuras que se esgueiravam furtivamente.
Havia uma reunião naquela noite, e, em vez de aparecerem onde estava a multidão, encontravam-se num local isolado. Que comportamento suspeito!
Murong Ruoxue semicerrrou os olhos, tocou levemente o chão com a ponta dos pés e, como uma sombra, deslizou até os vultos próximos à rocha, brandindo sua flauta de jade em direção ao rosto de um deles.
O vulto pareceu antever o ataque e, num movimento ágil, desviou a flauta de Murong Ruoxue, colocando-se logo à frente da outra figura para protegê-la.
Com um gesto elegante da manga, Murong Ruoxue exclamou em tom severo:
— Quem ousa?
A luz suave da lua permitiu-lhe finalmente distinguir o rosto que lhe era tão familiar.
— Alteza, so... sou eu, Che’er — a voz trêmula soou hesitante.
— Já não sentes nenhum mal-estar? — Murong Ruoxue arqueou as sobrancelhas, com um sorriso de quem se diverte. Ora, ainda há pouco dizia estar doente, que não podia acompanhá-la ao banquete. Quem diria que se escondia aqui para um encontro secreto!
— Alteza, eu... eu... — Che’er fez beicinho, e logo as lágrimas começaram a cair.
— Por favor, não a assuste — pediu friamente o vulto masculino que a protegia.
O olhar de Murong Ruoxue pousou então sobre o homem. Ele vestia uma túnica azul-escura, a expressão atenta e defensiva. Era de uma beleza sóbria, mas exalava uma aura de coragem.
— E você... quem é? — Agora sim, a coisa estava interessante.
— Sou o General Guardião das Fronteiras do Reino de Nanchén, Nong Yue — respondeu o homem, sem arrogância nem submissão.
— Traindo o país? — brincou ela, interessada. Aquele rapaz tinha personalidade e, de certa forma, era do seu agrado. Senti-se tentada a brincar um pouco mais.
— Não, não é isso! Nong Yue é... é meu... — Che’er tentou argumentar, mas sua voz foi sumindo. Sendo uma jovem tímida, não teve coragem de se explicar.
— Ah, é o quê então? — O rosto da moça ficou ainda mais corado. Segredos de moça são difíceis de esconder.
— Desde pequenos, Nong Yue e eu fomos prometidos um ao outro. Mas o destino nos separou e só há pouco tempo nos reencontramos. Agora, cada um serve a uma casa diferente. Por isso, para evitar rumores, só podemos nos encontrar em segredo. Peço à Rainha que compreenda — nos olhos de Nong Yue havia uma ternura infinita.
— Que situação delicada! Também fico confusa — murmurou Murong Ruoxue. Uma mulher que recebe o amor absoluto de um homem é, sem dúvida, afortunada. Pena que ela mesma não tivera essa sorte.
— Alteza, eu e Nong Yue realmente nos amamos. Jamais conspiraríamos contra o reino! — Che’er declarou com firmeza, apertando ainda mais a mão dele.
Murong Ruoxue observou em silêncio por um momento e, com astúcia, disse: — Suponhamos, se eu agir como rainha, devo pôr os interesses do país acima de tudo. Se agir como irmã, aceito Nong Yue como cunhado. Está claro o que quero dizer? — Não queria dificultar para os outros, nem para si própria.
— Nong Yue, chame-a de irmã — pediu Che’er, puxando o braço dele, trocando olhares cúmplices.
Ah, as moças crescem e logo querem voar para longe!
— Irmã — Nong Yue fez uma reverência, e por fim um sorriso iluminou seu rosto.
Satisfeita, Murong Ruoxue sorriu suavemente, mas logo ouviu Nong Yue perguntar:
— Só não entendo, irmã, por que nos perdoou tão facilmente?
— Encontrar alguém que se ama e ser correspondido, mantendo o sentimento até o fim da vida, é uma dádiva rara. Se vocês estão dispostos a dar a vida um pelo outro, quem sou eu para privá-los da felicidade? — Murong Ruoxue apanhou uma pétala de flor de pessegueiro que caía e, com um tom saudoso, continuou: — Se algum dia eu ainda tiver poder, hei de abençoar a união de vocês dois.
Só não sabia se viveria tanto para cumprir essa promessa. Talvez toda a sua juventude, um dia, também se perdesse como aquelas flores espalhadas ao vento. Aquilo que ela não pôde desfrutar, desejava que eles pudessem aproveitar plenamente.
— Jamais esqueceremos tamanha bondade, alteza — disseram ambos, aproximando-se e cumprimentando-a com respeito. Aquela gratidão ficaria para sempre em seus corações.
— Não precisam carregar um fardo tão pesado. Isso é apenas a vontade de uma irmã — disse Murong Ruoxue, segurando a mão trêmula de Che’er. — Vamos, voltemos ao Palácio Fengluan. Este lugar não é seguro. Por sorte fui eu quem os encontrou. Se fosse outra pessoa, nem com mil explicações conseguiriam escapar.
— Sim, alteza — responderam.
Naquela noite, antes do fim do banquete, Nong Yue já havia partido para onde devia ir. Che’er ficou sentada nos degraus de pedra diante da porta, ouvindo Murong Ruoxue tocar a flauta.
A melodia de “Balada da Água: Quando terás de novo a Lua Brilhante?” antes não lhe parecia triste, mas naquela noite, carregava consigo um toque de solidão.