Um visitante tão inesperado.

Neve Sobre a Cidade Mu Luo Xue, deslumbrante como uma cidade inteira 2551 palavras 2026-02-07 18:35:02

No pátio do Salão da Meditação Silenciosa, o som suave da flauta percorria o ar, não se podia culpar Murroa Neve por incomodar os outros. Passara metade do dia pintando, tarefa que se revelara deveras enfadonha.

Mais uma vez, tocava a melodia da Canção das Águas. A música da flauta, acompanhada pelas flores caindo ao sabor do vento, parecia impregnada de uma melancolia tocante.

— A rainha das neves está mesmo de ótimo humor. Presa nesta situação, ainda consegue manter tamanha serenidade. Isso realmente me impressiona. — A voz era irônica, o semblante frio; verdadeiramente, como um espectro que não se dissipava.

— E qual seria a alternativa? — Deveria ela chorar, fazer escândalo ou ameaçar se matar? Seria vulgar demais.

— Tenho refletido sobre uma questão nestes dois últimos dias. Por mais que pense, não consigo encontrar resposta. Por isso, ouso pedir esclarecimento à rainha das neves. — O visitante abriu seu leque de plumas brancas, revelando o caractere “Mu”.

— O príncipe Mu pode perguntar. Nada esconderei se estiver ao meu alcance responder. — Murroa Neve semicerrava os olhos, sem conseguir desvendar, naquele instante, as intenções daquele homem perigoso. Ah, dizem que os bons não vêm, e os que vêm não são bons.

— Então, serei direto. Peço que não leve a mal qualquer impertinência. — Mu Qingge já tomara a decisão de perguntar, mas ainda assim fazia pose.

Sorriu levemente.

— Permita-me uma curiosidade: nunca sentiu ódio em seu coração? — Mu Qingge balançava o leque, perguntando pausadamente.

— Ódio? Não compreendo o que quer dizer, príncipe Mu. — Frieza, era preciso manter-se calma. Murroa Neve repetia para si mesma. O homem diante dela, embora parecesse tranquilo, possuía um coração tumultuado.

— Que pena, rainha das neves, tens mesmo uma grandeza incomparável. Se eu fosse você, já teria desmoronado há tempos. — Mu Qingge contornou Murroa Neve e sentou-se no banco de pedra. Continuava com aquele ar de despreocupação.

— É mesmo? — Murroa Neve lançou-lhe um olhar de soslaio, estudando-o. O que ele pretendia? Maldito!

— Heh, o rei de Jade tem a sorte de possuir beleza como a sua, mas não sabe valorizar. Se fosse eu, amaria você até os ossos. — Apesar do tom ligeiramente provocador, a expressão de Mu Qingge era de absoluta seriedade.

— Sou tola demais para captar as entrelinhas de suas palavras, príncipe Mu. Por isso, peço que seja franco. — Murroa Neve não era ingênua; preferia não gastar energia tentando adivinhar, era melhor fingir ignorância desde o início.

— O rei de Jade permitiu o casamento com o reino dos Setentrionais apenas para fortalecer sua posição e consolidar o poder de Dongqing. Uma mente astuta como a da princesa Neve não percebe isso? — Mu Qingge notou que Murroa Neve mergulhara em reflexão e continuou.

— Dizem que é uma aliança, mas exigiram que a princesa viesse sozinha, sem poder trazer sequer uma pessoa de Beiqing. Não considera isso um excesso do rei? — Mu Qingge trocou deliberadamente o título de rainha para princesa, tentando despertar o ressentimento adormecido no coração dela. Não acreditava que, em tal perigo, ela ainda pudesse manter-se indiferente.

— E daí? — Murroa Neve arqueou as sobrancelhas, esperando que ele prosseguisse. Não viera apenas revelar-lhe a verdade; certamente tinha algo mais a dizer.

— E daí? Uma princesa nobre, transformada em peça de barganha política por capricho dele. Viver sozinha neste palácio, não sente solidão? Eu, ao menos, sentiria pena! — Mu Qingge falava com tamanha emoção que qualquer um ao ouvir deveria comover-se.

Murroa Neve, porém, lamentava por ele em silêncio. Se tivesse nascido em outra época, certamente ganharia um prêmio da Academia.

— Heh. — Se Nalan Suyu agiu por interesse próprio, ela, Murroa Neve, também tinha seus motivos.

— Por que ri, rainha das neves? — O espanto no rosto de Mu Qingge era quase cômico.

Ela ria por quê? Porque Mu Qingge tampouco era tão grandioso quanto parecia.

— Apenas estava pensando. O príncipe me trata com tanta dificuldade porque tomei o lugar originalmente destinado à princesa Ruoyao, não é? Mas por que insiste em semear discórdia entre mim e o rei? Que intenção há nisso? — Seu sorriso era elegante enquanto observava o rosto de Mu Qingge escurecer.

Ah, ele podia expor suas feridas, mas ela também podia devolver em dobro.

— Heh, subestimei sua inteligência, rainha das neves. Mas você acertou apenas em parte. — Dito isso, ele já estava diante de Murroa Neve, prendendo firmemente seu queixo, obrigando-a a encará-lo.

— Sim, eu te odeio profundamente. Sabes, eu e o rei de Jade fomos grandes amigos desde pequenos. Sempre acreditei que poderíamos conviver em paz. Mas foi justamente tua chegada que me obrigou a encarar o que eu evitava. Se ao menos ele tivesse se casado com Ruoyao, tudo seria tão melhor! — As palavras finais vieram quase como um sussurro. A tristeza e a raiva em seus olhos deixaram Murroa Neve surpreendida.

— A atitude do príncipe Mu me faz lembrar uma tartaruga. Por mais que se esconda no casco, ao estender a cabeça, terá de encarar o que vem. — Murroa Neve sustentou o olhar profundo dele, devolvendo as palavras cortantes com suavidade.

— Você! — Mu Qingge apertou ainda mais o queixo dela.

Entre um gemido de dor, Murroa Neve não deixou de retrucar.

— Um soberano deve pôr o país acima de tudo. Já pensou, príncipe Mu, que durante décadas poderiam viver em paz? Mas e após um século? Quem garante que os descendentes não desejarão dominar o mundo? Se, por amizade pessoal, negligenciarem o povo, será que podem encarar os cidadãos do Sul Celeste? — Murroa Neve admitia para si mesma que tinha o desejo de incitar conflitos entre os dois reinos. Afinal, seus familiares e conterrâneos de Beiqing também estavam em perigo. Não era uma santa salvadora, apenas uma mulher humilde que rezava pela segurança daqueles que amava.

— E daí? — Mu Qingge não afrouxou a pressão. Deveria admitir que seu empenho estava errado? Que tudo o que viveram não valia mais que um poder ilusório? Ele não conseguia aceitar.

— Não pode ser egoísta a ponto de não pensar na princesa Ruoyao. Em caso de guerra, o príncipe pretende deixá-la em que situação? — Murroa Neve revidou, invertendo os papéis.

Ao ouvir isso, Mu Qingge ficou atônito, os lábios se movendo sem emitir som por um tempo.

De um lado, um amigo de longa data; do outro, a irmã de sangue. Qual escolha faria?

— Não, não acredito que Suyu faria isso.

Não, não faria. Suyu não o decepcionaria. Suyu seria feliz ao lado da irmã.

— Não sei se o rei agiria assim, mas não podemos excluir a possibilidade, não é? — Ela sorriu encantadora, tão bela quanto uma flor. O coração humano é insondável; ninguém sabe por quem será traído na próxima esquina.

— E por que, então, a rainha das neves ainda se coloca em perigo? — O olhar de Mu Qingge se estreitou, o sorriso sumiu, e ele recuperou rapidamente a lucidez.

— Para proteger meu país. — A serenidade de Mu Qingge era surpreendente.

Se ela não viesse, o rei e a rainha, seus pais, estariam angustiados. Se não viesse, Rong’er arriscaria a própria vida. Se não viesse, Haoxuan poderia morrer no campo de batalha. Por isso, ela veio. Sabia exatamente o que fazia, mas, às vezes, preferia se enxergar como uma simples espectadora, alguém sem envolvimento.

— Não creio que uma mulher tenha capacidade para proteger um país. — Ajustando as mangas, Mu Qingge retomou o ar despreocupado. Para uma mulher, bastaria cuidar do marido e educar os filhos. Quanto mais se destaca, mais inveja desperta.

— Se houvesse outra escolha... — Um sorriso amargo delineou o rosto de Murroa Neve. Algumas coisas não estão ao alcance de certas pessoas. Todos têm dívidas a pagar, apenas o modo de quitá-las é diferente. E, no mundo, as duas palavras mais supérfluas são “se ao menos”.

— Amanhã retorno ao Sul Celeste. Agradeço ao rei e à rainha de Dongqing pela calorosa hospitalidade. — Evidentemente, Mu Qingge não queria prolongar a conversa. Fez uma breve reverência e saiu do pátio.

Aquela conversa deixou ambos inquietos em seus corações.

Instantes depois, o som da flauta voltou a se espalhar suavemente. A melodia era a mesma. Só as cenas que haviam acabado de ocorrer pareciam um sonho distante.