Quantos segredos se escondem no fundo do coração? (Parte Um)
O vasto Palácio do Rugido do Dragão encontrava-se silencioso, ecoando apenas o som do vento. Nalan Suyu estava sentado, absorto em seus próprios pensamentos. Nascido em uma família imperial, desde o primeiro suspiro jamais pôde escapar dos desígnios do destino. Havia momentos em que até ele se sentia perdido, sem saber distinguir o certo do errado, e não havia ninguém que lhe dissesse o caminho; restava-lhe apenas ponderar incessantemente, sozinho.
— Senhor — duas silhuetas, sem que ele percebesse quando, já se ajoelhavam no salão. Eram Huai Shu e Bela.
— Conseguiram descobrir algo? — Nalan Suyu girava entre os dedos uma conta de jade vermelha, seus olhos penetrantes semicerrados. O desalento de antes desaparecera num instante.
— A verdade veio à tona — a voz suave de Huai Shu soou, pausada, articulando as quatro palavras que encerravam seis dias de investigação. Se não tivessem descoberto nada, não teriam sido de grande serventia.
— Mas, senhor, entre a imperatriz-mãe e Xueyao, de que lado irá se colocar? — Bela ergueu o rosto curioso, os olhos brilhando de expectativa.
Se não fosse pela extrema cautela da imperatriz-mãe, não teriam levado seis dias para desvendar tudo. Ainda assim, a jovem não conseguia conter a curiosidade: de que lado o senhor ficaria?
— Isso envolve a imperatriz-mãe? — Nalan Suyu arqueou levemente as sobrancelhas, um traço de surpresa cruzando-lhe os lábios.
Já suspeitava que o caso não seria simples; não esperava, porém, que tivesse relação direta com a imperatriz-mãe.
— O senhor sabe, desde o início a imperatriz-mãe se opôs com veemência ao seu casamento com a princesa do Norte. Depois, passou a desaprovar cada vez mais o temperamento obstinado de Xueyao. Ela teme que o senhor caia vítima das tramas do Norte, por isso tentou eliminá-la — Huai Shu viu que Nalan Suyu mergulhava em profunda reflexão, e percebeu que ele já intuía parte da resposta, mas ainda assim explicou.
— Assim, subornou uma das damas de companhia de Xueyao, ordenando que roubasse uma de suas vestes e entregasse um pedaço à Consorte Virtuosa, criando o cenário do suposto acidente no lago — Bela falou sem medo, os lábios se movendo rapidamente.
O semblante de Nalan Suyu ficou sombrio, mudando do azul ao verde, depois ao púrpura, terrivelmente transtornado.
O vento roçou seu rosto, fazendo seus cabelos negros esvoaçarem — uma beleza singular e fria.
Então, um brado grave ecoou, e a força do seu interior partiu a mesa de jade diante dele.
As duas ajoelhadas, os olhos arregalados, perderam todo traço de irreverência. O silêncio se impôs, e nenhuma ousou pronunciar mais uma palavra. Depois de tantos anos ao lado de Nalan Suyu, era a primeira vez que assistiam a uma explosão de fúria tão intensa do senhor.
— A dama de companhia? Foi a Che’er, aquela que sempre esteve ao lado dela? — Nalan Suyu inspirou fundo, tentando controlar o turbilhão de emoções.
Conseguia compreender o zelo da mãe em proteger o império, mas não podia perdoar métodos tão absurdos e cruéis. Xueyao não era apenas rainha de Dongqing, era também princesa do Norte. Apesar das fragilidades do país vizinho, uma guerra no momento de tensão só beneficiaria Zhang Hao, que se aproveitaria do conflito. Como a sábia imperatriz-mãe não percebia as consequências?
— Não, foi a nova dama de companhia, Huan’er, que entrou há pouco no Palácio Fengluan — informou Huai Shu, com sua precisão habitual.
— E o senhor, o que pretende fazer? Dizem que Xueyao está desacordada no calabouço há dois dias. Após seis dias sem comida ou água, não será preciso executar a sentença, pois ela poderá morrer sozinha — disse Bela, disfarçando a verdade com um “dizem”, embora soubesse que era fato. Desta vez, conteve seu atrevimento e falou com seriedade.
— Imagine uma jovem frágil, confinada num lugar sombrio e aterrador; não é apenas o corpo que é posto à prova — acrescentou Huai Shu, sempre imparcial, pois era assim que os melhores desfechos se desenrolavam.
— Quanto à minha mãe, darei uma resposta pessoalmente. Por ora, tragam Xueyao de volta ao Palácio Fengluan para se recuperar — ordenou Nalan Suyu, após breve reflexão, em tom contido.
Apesar de tudo, nutria por ela uma compaixão que nem mesmo ele percebia.
Huai Shu e Bela sorriram, em perfeita compreensão.
Sabiam, desde sempre, que por mais que o senhor se enfurecesse ou tentasse se mostrar frio, não conseguia esconder aquele coração bondoso e sedento de afeto.