Um acidente inesperado. (Parte I)

Neve Sobre a Cidade Mu Luo Xue, deslumbrante como uma cidade inteira 1424 palavras 2026-02-07 18:36:18

Um mês se passou e Murro Xue pensava que Lu Wanqing viria provocá-la novamente, mas, na verdade, desde aquele encontro, elas não se viram mais. Ela imaginava que entre ela e Mu Qingge só haveria discussões e intermináveis dificuldades. Nunca pensou que também poderiam viver dias tão tranquilos, como agora...

Tudo estava tão calmo, de maneira quase sinistra.

Mu Qingge passava suavemente a mão pela testa, fingindo estar absorvido nos livros. Só Deus sabia que ele já estava à beira de um colapso. Aqueles dois, um grande e outro pequeno, à sua frente, estavam claramente pondo à prova o limite de sua paciência.

Mantenha a calma, mantenha a calma, repetia para si mesmo, mas as veias salientes revelavam o quanto estava irritado.

Veja só o que elas aprontaram!

Num canto do salão esquerdo, Murro Xue abraçava um objeto macio, quadrado, deitada sobre a “mesa” e escrevendo com afinco. E aquela mesa nada mais era do que o assento de sândalo roxo dele, desmontado. Não que sentisse pena do móvel; se ela quisesse uma mesa, ele poderia dar-lhe uma. Mas por que ela teve que desmontar o assento dele e, ainda por cima, fabricar aquela coisa estranha durante a madrugada, fazendo tanto barulho?

E ainda conspirou com Jun’er, aquela pequena traquinas, para puxar suas roupas, rasgar seu manto acolchoado e costurar aquelas coisas de utilidade duvidosa! Que vontade de dar-lhe uma lição!

E agora, lá estavam as duas, sentadas de costas uma para a outra, trocando bilhetes de vez em quando, sabe-se lá tramando o quê.

Rangendo os dentes, ele jamais admitiria que estava curioso!

— Isso é verdade mesmo? Dia doze é o aniversário de Mu Qingge? Não é só uma desculpa sua para sair do palácio? Crianças não podem mentir! — Murro Xue coçava a cabeça.

— Jun’er jura por sua honra! É a mais pura verdade! Doze de julho, se não acredita, vá perguntar a ele! — Jun’er fez biquinho, inflando as bochechas.

— Não vou perguntar nada. Só um bobo acreditaria que você vai sair só para comprar fios! E se você fugir, o que eu faço? — resmungou Murro Xue, mordendo o cabo da pena. Ela não admitiria jamais que era desorientada, apenas tinha o hábito de se perder.

— Irmã querida, Jun’er não vai fazer isso — Jun’er lançou mais um bilhete amassado ao lado de Murro Xue.

Ela abriu o papel, alisou-o, pegou a pena e começou a se preocupar. Cuidar de uma criança precoce era mesmo um desafio.

— Nada de correr por aí, obedeça às ordens, está bem?

— Sim, prometo! — Jun’er respondeu apressada. Pensava nas comidas deliciosas, nas paisagens maravilhosas, mas por ora, melhor disfarçar. Jamais sairia correndo sem rumo, só faria fugas bem planejadas. Obedeceria, claro, às ordens de seu próprio coração. Jun’er arquitetava seus planos com zelo.

— Mesmo que eu concorde em sair, não é tão fácil sair do palácio. Não é como passar pela porta da cidade, tão livre assim!

Agora aquela pestinha veria que não era fácil e desistiria.

— Aquele pingente de jade rubra — Jun’er apontou para o pescoço. Ver a jade era como ver o próprio rei; será que o irmão dela não lhe contou? Se aquele jade estivesse em suas mãos, sairia mil vezes por dia até se cansar.

— Isso... — Murro Xue ficou muda. Realmente não sabia que aquela jade poderia servir de salvo-conduto. Afinal, ela era uma prisioneira dele...

Olhou para Mu Qingge, sentindo que aquele não era o momento de refletir sobre isso.

Quem imaginaria que aquela menina nutria uma paixão secreta por Mu Qingge, tendo como objetivo de vida ser sua consorte?

Que dilema! Como o mundo podia ser tão obscuro?

— Por favor, irmã. Eu prometo me comportar. Se você concordar, dou aquele par de brincos que usei hoje de manhã, está bem? — Jun’er lançou mão de todos os argumentos possíveis para convencer Murro Xue.

— Fechado! — pensou Murro Xue, pois aqueles brincos de jade roxa de Jun’er eram realmente delicados e a encantaram à primeira vista.

Mas não ficava bem pedir um presente a uma criança. Ah, por um par de brincos, estava vendendo a própria alma. Buda, perdoe-a, não era sua intenção extorquir uma criança, foi a menina quem ofereceu, amém!

— Hum, hum — Mu Qingge pigarreou de propósito. O significado era claro: elas já o estavam incomodando há bastante tempo! E ainda riam de maneira tão maldosa!

Sem esperar, as duas rapidamente guardaram papel e caneta, agarraram o travesseiro fofo e saíram correndo do salão, deixando-o ali, atônito.

Ora, que coisa estranha! Todos os anos acontecem esquisitices, mas este ano, em especial, vieram em dobro!