Aquela canção de despedida. (2)
— O Duque Mu realmente é uma raposa! Quais são as condições? — suspirou Murro Xue, genuinamente surpresa por alguém ter aprendido seu truque e ainda conseguir usá-lo contra ela de forma tão brilhante. De fato, o discípulo supera o mestre.
— A primeira condição: você será minha criada pessoal por quatro meses — disse Mu Qingge, sorrindo com uma inocência desconcertante.
Com os dentes cerrados, ela engoliu em seco. — E as outras duas condições?
— As outras ainda não decidi. Quando chegar a hora, conversaremos — Mu Qingge acenou com desprezo. Não havia pressa; tudo deve ser feito ao seu tempo.
— Então, depois de quatro meses, você vai me deixar partir?
Estava claro que Mu Qingge viera preparada.
— Vai depender do meu humor. Che’er, pode ir agora.
Com gentileza, Mu Qingge ajudou Che’er, que permanecia sentada no chão, atordoada, sem saber como reagir.
Afinal, ele só havia dito que estavam “brincando”. Nunca planejara realmente tirar a vida de alguém.
Afinal, um jogo só tem graça quando se aposta alto, quando se arrisca tudo. Caso contrário, qual seria o sentido?
— Senhora, irmã, cuide-se.
Recobrando-se finalmente, Che’er chorava enquanto corria para fora do grande salão.
Ela mesma havia empurrado sua senhora para o abismo.
Não tinha mais coragem de encará-la, nem de permanecer ao seu lado.
Que as melhores lembranças ficassem com a senhora.
Nem Che’er, nem Murro Xue poderiam imaginar que tudo não passava de uma peça cuidadosamente encenada por Mu Qingge, e que correra de maneira absolutamente perfeita.
— Che’er... Che’er... — murmurava Murro Xue, olhando para a silhueta que se afastava, incapaz de conter sua voz.
O sombrio Salão da Lua Crescente deixou entrar um fiapo de luz quando Che’er abriu as portas.
Assim está bom. Que Che’er esteja a salvo, já basta.
— Garota, qual é seu nome verdadeiro? — A expressão de Mu Qingge era de puro triunfo.
— Xueyao — respondeu Murro Xue, torcendo os lábios com desdém.
Garota? Por que não me chama de senhorita?
— Tola, esse é o seu título! — Mu Qingge moveu a mão e, por acaso, bateu com o leque na cabeça de Murro Xue, arrancando-lhe um grito de protesto.
— Xuexi, Xuexi. Ei, pare de bater na minha cabeça! Já não sou muito esperta, se continuar assim vou ficar ainda mais lerda.
Mas, como é que ele sabia seu nome de batismo? Nem Shuyu sabia.
— De agora em diante, você será Xier. Neste Palácio do Príncipe de Nanchén, não existe mais uma Rainha Xue! — Mu Qingge piscou de modo astuto.
Um calafrio percorreu Murro Xue. O que ele pretendia? Tudo nele era um mistério.
— Tome isto — disse Mu Qingge, lançando algo que caiu na palma de Murro Xue.
— O que é isso? — Ela aproximou o objeto do nariz. Um aroma suave.
A pequena pílula de um vermelho escuro fez Murro Xue lembrar de uma bolinha de gude.
— Se tomar, eu te conto — O leque, “sem querer”, voltou a acertar a sua cabeça. Aquela cabecinha era mesmo irresistível.
Recebendo o remédio e ainda sendo provocada, Murro Xue lançou um olhar fulminante ao sorriso detestável de Mu Qingge.
— É uma pílula que sela seus poderes internos. Tenho medo que, por descuido, Xier acabe escapando, e, quem sabe, algum dia resolva me matar. Seria um grande prejuízo para mim — Mu Qingge continuava sorrindo, sereno, como se nada o preocupasse.
Que fosse, pensou ela, sentindo o corpo pesar. Não adiantava resistir: mesmo com suas habilidades, não era páreo para ele. Melhor economizar forças.
— Não está surpresa? Que tédio.
Mu Qingge, aborrecido, bateu de novo com o leque na cabeça de Murro Xue. Descobriu que esse hábito podia ser viciante.
— Mu Qingge, se bater em mim de novo, vou queimar seu leque maldito! — Murro Xue pulava de raiva, sentindo dor de verdade.
— Hahaha. Aqui, use isto. — Virando-se com elegância, Mu Qingge retirou de si um pingente de jade e o lançou para Murro Xue.
Sem motivo algum, apenas quis lhe dar.
Instintivamente, Murro Xue estendeu a mão e pegou o objeto no ar.
Ao abri-la, viu um pendente de jade branco translúcido, com delicados entalhes de dragão e o caráter de “Mu”.
Devia ser algo de grande valor e significado. Por que ele a presentearia?
Mal pensou em perguntar, Mu Qingge já se afastava.
Observando aquela figura alta que se distanciava, Murro Xue sentiu um traço de melancolia nele.
Abaixando-se, recolheu a flauta de jade esverdeada e a acariciou com delicadeza.
Tudo parecia estar mudando.
Saía, pouco a pouco, do controle de suas mãos.