O pesadelo acompanha-me como uma sombra.
— O futuro inesperado, que não se pode prever, aquilo que chamamos de força, nada mais é do que esconder as feridas do passado com um sorriso. Quando a noite cai e os sonhos retornam, o que está destinado a acontecer não pode ser evitado.
— Ah! — Murmúrios de terror escaparam de Muriel Xue, que despertou abruptamente em seu leito. O suor frio encharcava suas roupas internas. Apertando com força o edredom bordado, esforçava-se para acalmar a respiração descompassada, mas as imagens do pesadelo ainda a atormentavam, tão vívidas e arrebatadoras.
Desde que chegara ao Reino do Norte, quase todas as noites eram insones. Ao princípio, sonhava frequentemente com uma jovem vestida de rosa, que lhe ensinava a reconhecer as cem ervas, praticar medicina, exercitar-se nas artes marciais. No entanto, envolta em névoa, jamais conseguia distinguir com clareza o rosto da jovem, restando apenas uma vaga lembrança de sua voz. Com o tempo, porém, essas aparições tornaram-se cada vez mais raras, levando Muriel Xue a crer que não passavam de um belo encontro onírico.
Contudo, desde a partida de Shangguan Haoxuan da capital, há pouco mais de dez dias, os pesadelos voltaram com força, roubando-lhe o sono. Apertando o peito, sentia o coração disparado, tomada por um pressentimento inexplicável de que algo ruim estava por acontecer.
— Princesa, o que foi que aconteceu? — A criada Nostalgia, que dormia no aposento ao lado, ouvira o grito de Muriel Xue e correu até a porta sem se preocupar em vestir-se adequadamente. Sabia que, ultimamente, a princesa não conseguia repousar e não deixava de se preocupar.
— Não é nada — respondeu em voz baixa, limpando o suor da testa. Era apenas um pesadelo, por que não conseguia esquecê-lo?
— Princesa, espere um instante, vou buscar um pouco de incenso calmante. — Muriel Xue tentou impedi-la, mas já não houve resposta do lado de fora. Logo, Nostalgia retornou, entrando suavemente com um incensário nas mãos.
— Princesa, este incenso de artemísia acalma o espírito. Não se preocupe tanto, tente dormir — disse, colocando o incensário sobre a mesa antes de se aproximar do leito para ajudar Muriel Xue a deitar-se e ajeitar-lhe as cobertas.
— Nostalgia, pode dormir comigo esta noite? — O rosto de Muriel Xue corou levemente, hesitando ao fazer o pedido. Não sabia se Nostalgia aceitaria, mas aquele quarto solitário era por demais desolador.
— Cla... claro... — Nostalgia estremeceu, surpresa demais para conseguir responder de imediato. Pensara que a princesa jamais se lembraria do passado das duas, mas o destino, caprichoso, parecia acender uma tênue esperança.
Desde os nove anos, quando fora convocada ao palácio como jovem criada, servia a segunda princesa. Esta, de natureza bondosa e inocente, era um tanto travessa, mas sem qualquer arrogância. Tratava-a com gentileza, e nos momentos de saudade da terra natal, era a princesa que a abraçava e fazia companhia até adormecer. Entretanto, desde que a princesa sobrevivera ao atentado, despertando de forma miraculosa, parecia ter mudado, afastando-se de todos e tornando-se inalcançável, o que doía no coração de Nostalgia.
— Nostalgia, por que fica aí parada, tão distraída? — Muriel Xue semicerrava os olhos, observando a criada ao lado da cama. O que se passava? Não queria dormir com ela, mas aceitava por ser sua princesa, sua senhora, sem coragem de recusar?
— Princesa, só estou tão feliz que fiquei sem saber o que fazer. Faz tanto tempo que não dormimos juntas — respondeu Nostalgia, batendo na própria testa, e subiu na cama, deitando-se ao lado de Muriel Xue.
— Hã? — Muriel Xue se surpreendeu. Será que Shangguan Xuexi também sofria com pesadelos?
— Princesa, talvez já não se recorde? — Nostalgia ajeitou a coberta, tentando esconder o amargor que lhe subiu ao peito. Quantas lembranças aquela lâmina enterrara junto com a princesa?
De olhos baixos, Muriel Xue perguntou, fingindo descaso: — Do quê?
— Nostalgia deixou sua casa aos oito anos e entrou no palácio, sendo designada aos nove para servir na Ala do Luar à segunda princesa. Era pequena e sentia muita saudade de casa, o que a impedia de dormir. Foi a princesa que, noite após noite, mandava chamá-la para dormir junto, consolando-a com palavras doces, até que eu finalmente encontrei paz — Nostalgia riu baixinho, continuando a rememorar. — Naquela época, Vossa Alteza também era só uma menininha de seis anos. Que graça...
Muriel Xue sorriu levemente diante das recordações, e ao ver o sorriso gentil da princesa, Nostalgia se animou ainda mais para contar.
— No primeiro dia em que entrei na Ala do Luar, a princesa perguntou o nome da criada. Respondi: “Pãozinho.” A princesa cuspiu o chá, perguntando como alguém tão delicada poderia se chamar Pãozinho, por que não Pão no Vapor ou Biscoitinho? Expliquei que fora nome dado pelos meus pais, nada podia fazer. A princesa lembra como me rebatizou?
— Nostalgia.
— Vossa Alteza é mesmo perspicaz. Isso mesmo, Nostalgia. — Nostalgia olhava para Muriel Xue com admiração, e esta revirou discretamente os olhos.
— Disse que, já que meus pais me chamaram de Pãozinho, que tal Nostalgia? Nostalgia de Flor de Lótus, que era o seu doce favorito. Flor de Lótus é muito comum! Nostalgia, Nostalgia... Sim, perfeito. Ficou Nostalgia!
Muriel Xue mal podia acreditar. Que tipo de princesa dava nome de Nostalgia a uma criada só porque gostava de doces de lótus chamados assim?
Ao notar o semblante de estranhamento de Muriel Xue, Nostalgia apressou-se em garantir:
— Tenho muito orgulho de carregar o nome Nostalgia.
— Quem entra pela porta da Nostalgia, conhece a amargura da saudade. Conhecendo a dor, ainda assim entra, tornando-se da linhagem Nostalgia — murmurou Muriel Xue, de repente.
— O que significa isso, princesa? Não entendi.
— Melhor assim. Durma. Estou cansada — respondeu Muriel Xue, sentindo o coração finalmente repousar, sendo tomada pelo sono.
E assim, nos braços de Nostalgia, adormeceu.