Tu és, de fato, uma bela dama de Chu, graciosa e encantadora.
— Tu és o meu mais belo encontro, o meu renascimento; o cenário mais formoso é reencontrar-te uma vez mais. Diante de ti, estou disposta a despir qualquer máscara de força forjada.
Em setembro, as laranjeiras amadurecem e as flores de lilás cobrem toda a Cidade de Beiqing, exalando fragrância delicada e envolvente.
Shangguan Qiongrong conduzia Xiangsi alegremente até o Palácio da Contemplação da Lua.
— Irmã, o jardim está esplêndido! Que tal passearmos juntas? — Embora a ferida de Mu Ruoxue estivesse curada há mais de quinze dias, ela não deixara seus aposentos.
Ao ouvir a sugestão de Shangguan Qiongrong, Mu Ruoxue apenas acenou displicente, sem demonstrar interesse.
— Alteza, se ficar trancada no quarto por tanto tempo, vai acabar adoecendo. Venha conosco apreciar a paisagem! — Xiangsi, ao ver o semblante apático de Mu Ruoxue, também tentou convencê-la. Normalmente, bastava mencionar um passeio para que a princesa saltasse de alegria; nunca estivera tão abatida.
— Não quero ir! Vão vocês! — Mu Ruoxue teimava, recusando-se a sair. Não queria levantar-se da cama, nem sair do quarto, nem ver ninguém.
Shangguan Qiongrong não se irritou com a recusa. Sorriu maliciosamente e trocou um olhar cúmplice com Xiangsi. As duas, em perfeita sintonia, se lançaram sobre a cama, puxando Mu Ruoxue até que ela, relutante, foi arrastada.
— Parem! Soltem-me! Isso é demais! — O corpo frágil, a voz doce e lamuriosa, até as tentativas de se livrar eram débeis. Derrotada, Mu Ruoxue finalmente entendeu o significado de estar completamente à mercê dos outros.
— Depressa. Vai te arrumar para sairmos. — Shangguan Qiongrong não deu espaço para recusas e empurrou Mu Ruoxue para frente do espelho de bronze. Afinal, recebera notícias de que Haoxuan compareceria hoje à corte.
Mu Ruoxue sentou-se emburrada diante do espelho, desviando o olhar, incerta se conseguiria encarar aquele rosto e aquele corpo.
— Irmã! — Shangguan Qiongrong, divertida, virou o rosto de Mu Ruoxue para o espelho. Sem ter escolha, sob o olhar atento das duas, Mu Ruoxue finalmente espiou sua "nova" aparência.
A imagem refletida era de uma jovem de dezesseis ou dezessete anos. Os olhos brilhavam como águas de primavera, a pele era alva como jade, a respiração suave como a fragrância de orquídeas. Vestia-se apenas com uma roupa simples, sem maquiagem, mas já se percebia ali a beleza em formação. Era muito parecida com Shangguan Qiongrong; a única diferença era a palidez de sua pele, conferindo-lhe um ar etéreo.
Um suspiro baixo e amargo escapou de seus lábios. Pensar que, após mais de vinte anos de vida, tornara-se o substituto de outrem!
Na vida moderna, Mu Ruoxue era do tipo astuta e eficiente, transparecendo inteligência, enquanto, em Beiqing, Shangguan Xuexi era do tipo delicada e reservada, uma típica jovem de família nobre. Em aparência e temperamento, eram opostos absolutos.
— Alteza, que tal aquela veste cor-de-rosa? — Xiangsi apontou para a roupa rosa no topo do armário. Era, afinal, a favorita da princesa. Contudo, o olhar de Mu Ruoxue deteve-se no vestido roxo, guardado na parte mais baixa.
— Não, prefiro o roxo — disse ela.
— Roxo? — Shangguan Qiongrong repetiu, incrédula. Desde que aquela roupa chegara do Pavilhão de Roupas, nunca vira a irmã usá-la. Além disso, a irmã sempre fora fã do cor-de-rosa. Teria perdido a memória a ponto de mudar até seus gostos?
Mu Ruoxue assentiu com firmeza. Desde pequena, sempre gostara do roxo; para ela, tons profundos eram capazes de esconder todos os sentimentos.
Afastando a preocupação dos olhos, Shangguan Qiongrong passou delicadamente o pente nos longos cabelos da irmã. Se aquilo seria bom ou mau, nem ela mesma ousava pensar.
Xiangsi, mesmo preocupada, não se atreveu a dizer mais nada. Caminhou até o armário e pegou o vestido roxo.
Mu Ruoxue permaneceu sentada, o olhar distante e vago fixo em um ponto qualquer, deixando que cuidassem de tudo. Após cerca de meia hora, Shangguan Qiongrong foi a primeira a puxar Mu Ruoxue, examinando-a de cima a baixo.
— Pronto, podemos ir. — Ela, satisfeita com seu trabalho, ainda mais por ter Xiangsi como ajudante, não escondia o orgulho diante da beleza natural da irmã.
— Para onde? — Mu Ruoxue franziu as sobrancelhas, sentindo que já lhe haviam desmontado todos os ossos de tanto a arrumarem.
— Ao Pavilhão Liran. — Shangguan Qiongrong tomou-lhe a mão, prestes a sair, mas voltou-se para Xiangsi, quase esquecendo.
— Xiangsi, traga uma chaleira de chá Yuhua e duas ou três porções de bolinhos de flor-de-osmanthus, deixe tudo pronto no pavilhão.
Xiangsi sorriu, fez uma reverência e saiu para providenciar tudo.
O céu era de um azul profundo e sem fim, com nuvens brancas esparsas e o sol derramando um calor suave. Assim que deixou o grande salão, Mu Ruoxue semicerrava os olhos, protegendo a testa com a mão. Depois de tanto tempo confinada, realmente já não se acostumava ao mundo lá fora.
— Está vendo? Eu disse que devia sair mais vezes. Se caminhasses todos os dias, te recuperarias muito mais rápido. — Shangguan Qiongrong apertou de leve o nariz avermelhado da irmã, arrancando risadinhas das criadas que as acompanhavam.
— Respirar ar fresco faz bem ao ânimo. Se te trancas num quarto, o céu que enxergas não passa do teto! — Mu Ruoxue ouviu as palavras de Shangguan Qiongrong, que tagarelava como uma velhinha, sem retrucar, deixando-se levar.
Na véspera chovido, o cheiro da terra misturava-se ao perfume das ervas. As flores de lilás estavam exuberantes, os arbustos densos. O conjunto do palácio, embora não ostentasse luxo, exalava elegância e sobriedade.
Mu Ruoxue tocou as flores; um som de risada, como um "có có", escapou das lilases. De repente, como se uma lembrança quisesse aflorar, murmurou:
— Lilás, sabor úmido, natureza equilibrada, ativa a circulação, desintoxica e reduz inchaço.
— Irmã, recordaste de algo? — Shangguan Qiongrong, animada, aproximou-se com as criadas.
— Não... nada... — Como recordar o que nunca se viveu? Ainda assim, Mu Ruoxue sentia-se confusa. Por que aquelas palavras lhe vinham à mente? Teriam a ver com aquele sonho?
— Ah... — Shangguan Qiongrong deixou escapar um suspiro longo, logo forçando um sorriso. — Que tola sou eu. Vamos logo ao pavilhão, Xiangsi já deve ter preparado tudo.
Mu Ruoxue, pensativa, seguiu a irmã até um pequeno quiosque.
O quiosque era delicado, com uma placa dourada e verniz vermelho onde se lia "Pavilhão Liran". À sua frente, um espelho d’água profundo, onde flores de lótus brancas boiavam, espalhando uma fragrância sutil. Em ambos os lados, árvores altas e lilases dançavam ao vento, misturando tons de púrpura, rosa e branco, formando um espetáculo para os olhos.
Ao longe, viam-se criadas recolhendo as pétalas que a chuva havia derrubado durante a noite.
No interior do quiosque, uma mesa redonda de pedra, alguns banquinhos. Sobre a mesa, uma chaleira de chá Yuhua exalando aroma, docinhos quentes e duas xícaras de jade esverdeada.
Um leve sorriso surgiu nos lábios de Mu Ruoxue. Aquele lugar lhe provocava uma alegria inexplicável.
— Entre. Daqui se pode admirar toda a paisagem da Plataforma Xiyao. E, com chá, o encanto é ainda maior. — Mandando as criadas se afastarem, Shangguan Qiongrong, bem-humorada, empurrou Mu Ruoxue para dentro.
Ficou pensando em como, antigamente, aquele era o lugar onde os três irmãos mais brincavam juntos. Agora, porém, Xier estava naquela situação. A vida era incerta; tudo mudava de um dia para o outro. Como Haoxuan reagiria ao ver aquilo?
Mu Ruoxue sentou-se obediente, enquanto Shangguan Qiongrong servia o chá. Silenciosas, cada uma imersa em seus pensamentos, ergueram as xícaras de jade.
O vento agitava as pétalas, que bailavam e caíam suavemente, como pequenas embarcações sem rumo, entregues à correnteza. Vendo a cena, Mu Ruoxue sentiu uma melancolia apertar-lhe o peito.
— Chuva fina desliza, vento sussurra, pétalas descem na água, para onde irão? Meu coração tece mil laços, mas entre lágrimas e vinho, não sei como contar. — Terminando o verso, Mu Ruoxue baixou os olhos e sorveu um gole de chá.
Pensar que, há tão pouco tempo, ela e Gu Moyun pareciam um casal apaixonado, e agora, em poucos dias, tudo se desfez. Restava-lhe apenas o silêncio.
Shangguan Qiongrong, ouvindo o lamento da irmã, sentiu-se impotente. Sua irmã estava mudada, tão diferente que parecia uma estranha. Ergueu e baixou a xícara, suspirando discretamente. E assim, ambas, absortas em suas preocupações, tomaram o chá em silêncio.
Sem que percebessem, o vento voltou a soprar, trazendo uma garoa fina. Shangguan Qiongrong estava prestes a perguntar se a irmã sentia frio quando ouviram, ao longe, alguém chamar do lado de fora do pavilhão.