Entre a vida e a morte, o destino pendia por um fio. (Parte II)
“Mãe, não estamos sendo cruéis demais?”
A delicada jovem de vestes azul-claras mostrava-se profundamente inquieta.
“Criança tola, se não a eliminarmos agora, vai esperar que aquela mulher se recupere e acabe com você?”
A resposta veio em um tom calmo, porém permeado de frieza.
Era a própria Imperatriz-Mãe Yaxian, mãe de Nalan Shuyu. Tinha acabado de ultrapassar os quarenta anos, vestia uma saia plissada azul-lago, com peônias douradas desabrochando graciosamente nas mangas. Seus longos cabelos negros estavam presos em um coque frouxo, adornado por uma coroa de fênix e dragão, que parecia ganhar vida entre os fios. No centro das sobrancelhas, um delicado adorno dourado em forma de flor ressaltava ainda mais sua aura majestosa.
“Mãe, acredito que Xuehou não seja uma mulher maquiavélica!”
Qingyi franziu levemente o cenho ao se lembrar de Xueyao, aquela mulher de brilho radiante, com quem teve apenas um breve contato.
Quando caiu na água, ela foi a primeira a correr em seu auxílio; em nada parecia uma pessoa má.
“Criança ingênua, não se deixe enganar pela aparência inocente dela! Existem muitos rostos belos e inofensivos. E mais: ela é uma princesa do reino inimigo. Como poderia permitir que aquela mulher manchasse o sangue nobre da nossa família Nalan?”
A Imperatriz-Mãe Yaxian lutava para conter a fúria que lhe queimava o peito, os dedos ficando brancos de tanto apertar as mãos.
Não fosse por aquele plano, aquela mulher jamais teria a menor chance de ser sua nora; era pura ilusão dela!
Só de pensar naquela mulher, seus dentes rangiam de ódio!
Teve a ousadia de brincar repetidas vezes com seu filho, o imperador.
Achava que, por estar enclausurada no palácio, Yaxian não saberia de seus truques mesquinhos?
Realmente achava que ninguém poderia detê-la?
Enquanto Yaxian vivesse, aquela mulher não conheceria a paz!
“Mãe, a Rainha Xuehou não me representa ameaça alguma! Ela está reclusa e comportada no Palácio Fengluan.”
Qingyi sentia-se cada vez mais culpada.
Nunca teve desavenças com Xueyao, nem no passado, nem agora. Por que sua mãe insistia em levá-las a esse extremo?
“Não a chame de rainha! Ela não é digna! Se eu não tivesse agido primeiro, aquela mulher ainda estaria livre e impune!”
Já sem se importar com a compostura, Yaxian explodiu em insultos.
A luz das velas alongava sua sombra, tornando-a ainda mais sinistra.
Percebendo a expressão confusa da filha, Yaxian respirou fundo, tentando se acalmar, e falou com suavidade:
“Minha querida, faço tudo isso por você. Se aquela mulher morrer, o trono de rainha será seu, e de mais ninguém. O coração de mãe se compadece; não posso suportar que você sofra. Você é a nora que escolhi para mim.”
Levantando-se, com um ar de quem não aceitava objeções, deu um leve tapinha no ombro da filha:
“Não pense demais. Está decidido. Não fale disso com ninguém, nem mesmo com Yu’er.”
O império de seu filho jamais poderia ser manchado por aquela mulher.
Lá fora, a noite era profunda, o orvalho pesava, e o vento uivante trazia uma inquietação inexplicável. Qingyi também não conseguia dormir.
O rei sempre amou sua simplicidade e desapego, viver em paz lhe dava tranquilidade.
Mas, sem perceber, ela própria transformou-se em alguém cruel, capaz de ferir outros pelo poder.
Por que, afinal, obedecera tão docilmente e se lançara ao lago?
Será que sua mãe só se importava com o trono do rei, sem pensar nela e na criança que carregava no ventre?
Não queria mais pensar nisso.
“Majestade, Rainha Xuehou, me perdoem.” As lágrimas escorriam pelo rosto enquanto Qingyi murmurava.
Do lado de fora da janela, uma figura se afastou rapidamente, desaparecendo na escuridão da noite.