Em uma única noite, tornei-me uma preciosidade. (I)

Neve Sobre a Cidade Mu Luo Xue, deslumbrante como uma cidade inteira 3672 palavras 2026-02-07 18:34:25

— Sempre soube que esquecer é muito mais fácil do que recordar, mas neste momento, tudo o que desejo é, sob um outro céu, tornar-me alguém novo.

“Fora! Fora! Todos saiam daqui!”

Murong Ruoxue só se acalmou um pouco depois de gritar até sentir a garganta seca e dolorida.

Desde o instante em que despertou, mesmo mantendo uma fachada fria, não conseguira ignorar aqueles rostos cheios de preocupação. O calor de um lar sempre fora o maior anseio de Murong Ruoxue. Porém, agora que esse calor estava tão próximo, ela simplesmente não conseguia suportá-lo.

O mundo é inconstante por natureza; ao invés de exigir o impossível, melhor é se anestesiar e não se importar.

Uma taça de água foi-lhe estendida. Murong Ruoxue semicerrava os olhos, gélida.

“Mandei você sair. Não ouviu?”

Shangguan Qiongrong, com os olhos baixos e marejados, trouxe o copo ainda mais para perto, em silêncio.

“Está surda? Não tente ser gentil comigo, porque eu simplesmente não conheço vocês! Se têm juízo, sumam daqui, quanto mais longe, melhor!”

A expressão submissa de Shangguan Qiongrong inexplicavelmente incendiava ainda mais a fúria de Murong Ruoxue.

De repente, Shangguan Qiongrong largou o copo e lançou-se para abraçar Murong Ruoxue com força, as lágrimas rolando copiosamente, como pérolas de um colar rompido.

“Xier, irmã errou... Xier, por favor... por favor, me perdoe. Eu não devia... estando tão perto de você, não consegui... te proteger... me desculpe... me desculpe... Xier... me perdoe... Xier...”

Apertando com força as roupas de Murong Ruoxue, Shangguan Qiongrong não cessava de se penitenciar. Preferia ter sido ela mesma a se ferir, jamais permitindo que Xier sofresse qualquer dano. Mas, ainda assim, falhara em proteger sua irmã. Tudo culpa sua, só sua!

Os gritos dilacerantes de Shangguan Qiongrong deixaram Murong Ruoxue profundamente desconfortável; lágrimas lhe correram pelo rosto, e ela tentou empurrar Qiongrong, mas foi abraçada ainda com mais força.

Aquele coração inquieto e impaciente foi, de forma surpreendente, acalmado pelas lágrimas sinceras de Shangguan Qiongrong. Aos poucos, a lucidez retornava a Murong Ruoxue, que, confusa, olhou para as próprias mãos: o que estava fazendo, por que ferira alguém? Utilizar um método vil e cruel, como se quisesse que alguém preferisse a morte à vida, não era diferente de Luo Guanying. Bateu na própria cabeça, buscando clareza; em troca, veio uma dor ainda mais aguda, e um reflexo a fez inspirar fundo.

“Xier, me desculpe, me desculpe. Machuquei o ferimento? Desculpe.”

Percebendo o tremor de Murong Ruoxue em seus braços, Shangguan Qiongrong saltou para sentar-se, examinando rapidamente o ferimento dela, com movimentos ágeis e precisos.

Murong Ruoxue olhou, atordoada, para o rosto banhado em lágrimas de Shangguan Qiongrong e suas rápidas reações, sem dizer nada, permitindo que a irmã desfizesse sua gola.

“Xier, vai doer um pouco, aguente firme.”

Com todo o cuidado, Shangguan Qiongrong aplicou o bálsamo cicatrizante no ferimento de Murong Ruoxue, observando atentamente suas reações, temendo causar-lhe mais dor. O início era uma tortura ardente, como formigas mordendo o coração.

“Mmm...”

Murong Ruoxue franziu as sobrancelhas, cerrando os dentes, suor frio deslizando-lhe pela face, mas recusou-se terminantemente a pronunciar a palavra dor. Ela sabia muito bem: não gritar de dor não era por insensibilidade, mas porque, mesmo que gritasse, ninguém lhe daria ouvidos. Melhor morder os dentes e fingir indiferença do que expor sua vulnerabilidade em lágrimas.

Aos poucos, a respiração de Murong Ruoxue tornou-se estável, e o ferimento era tomado por uma sensação de frescor mentolado. Shangguan Qiongrong, com olhar terno, enxugava-lhe a testa com um lenço úmido e quente, oferecendo-lhe sorrisos reconfortantes.

“Pode me contar sobre mim, sobre este lugar?”

Desviando o olhar, envergonhada, Murong Ruoxue falou em tom suave.

“Não se lembra de nada?”

Ajeitando a coberta sobre Murong Ruoxue, Shangguan Qiongrong recostou-se junto à cabeceira.

“Não.”

Fitando o teto branco e reluzente, Murong Ruoxue pensou que, às vezes, esquecer não deixa de ser uma bênção. Só temia não conseguir escapar do passado, das lembranças que a aprisionavam.

“Sou sua irmã, Shangguan Qiongrong, Princesa Qingrong. E você é minha irmã mais nova, Shangguan Xuexi, Princesa Xueyao. Nosso pai e nossa mãe têm um filho e duas filhas; nosso irmão chama-se Haoxuan e, desde os quatorze anos, reside nas fronteiras. Pai e mãe sempre foram muito unidos, e nos tratam com extremo carinho. Nosso pai não tem outras esposas nem concubinas, sempre vivemos...”

Shangguan Qiongrong hesitou, incerta se Murong Ruoxue estava ouvindo.

“Continue.”

A voz de Murong Ruoxue era tão leve quanto o ar. Sob a colcha de brocado, seus punhos estavam cerrados; lutava contra o desejo crescente que aquelas palavras lhe despertavam. Sentia até ciúmes daquela mulher chamada Shangguan Xuexi.

“Oito dias atrás foi o Festival da União. Nosso pai organizou um grande banquete, celebrando com o povo. Um bando de salteadores infiltrou-se no Salão Xiting, tentando roubar o tesouro nacional, o ‘Manual de Cem Ervas’. Por sorte, nosso pai percebeu a tempo, mas mesmo assim, travou-se uma dura batalha. Apesar de sermos princesas, treinamos artes marciais desde pequenas. Embora ágeis, nossas habilidades eram medianas; após dezenas de golpes, mal conseguíamos nos defender. Os bandidos, vendo que nosso pai estava ocupado, voltaram-se contra nossa mãe. Você, rápida, lançou-se à frente dela, protegendo-a. Foi quando a espada a atingiu.”

Shangguan Qiongrong sorriu amargamente, sem conseguir esconder a dor nos olhos. Aquela cena caótica, cheia de lâminas e sangue, ainda permanecia vívida em sua memória. Se pudesse voltar no tempo, preferiria ter sido ela a ser ferida.

“O que é esse ‘Manual de Cem Ervas’?” Murong Ruoxue pensava no próprio destino, lançada a um buraco, enquanto a princesa daquele mundo fora ferida por uma espada. Ambas, vítimas do capricho do destino.

“O ‘Manual de Cem Ervas’ é o tesouro nacional do Reino de Beiqing, um livro de medicina. Nosso reino sempre prezou pela paz e bem-estar, ao contrário dos outros três, cheios de intrigas e disputas.”

Ao mencionar os outros três reinos, o rosto de Shangguan Rong’er mostrava evidente aversão. A vida é curta; por que desperdiçá-la em matanças?

“Outros três reinos? Quatro reinos em equilíbrio?”

Céus! Murong Ruoxue começou a se perguntar em que tipo de mundo havia caído. Mas o que a intrigava era: por que um simples livro de medicina seria tão cobiçado? A menos que tivesse algo de especial. Mas, afinal, o que importava isso para ela? Estava enlouquecendo!

“Não se apresse, vou te explicar. Está com fome? Vou buscar um pouco de mingau de aveia.”

Shangguan Qiongrong afagou a cabeça de Murong Ruoxue, vendo suas faces coradas e imaginando o quanto devia estar exausta.

“Não quero, vou dormir.”

Ruoxue puxou a colcha sobre a cabeça, quase explodindo de raiva consigo mesma! Por que não conseguia suportar nem um pouco de calor humano? Pronto, os laços afetivos eram mesmo as coisas mais complicadas!

Tirando os sapatos, Shangguan Qiongrong deitou-se de lado ao lado de Murong Ruoxue, afastando cuidadosamente o braço do ferimento para abraçá-la pela cintura.

“Irmãzinha, sua irmã estará sempre ao seu lado. Nunca mais vou te abandonar!”

Lágrimas reluziam no canto dos olhos de Shangguan Qiongrong, que inconscientemente apertou ainda mais o abraço.

Murong Ruoxue já não tinha palavras, fingiu dormir, sem entender o turbilhão de emoções que sentia.

No limiar do sono, parecia ouvir Shangguan Qiongrong sussurrar-lhe ao ouvido: “Mesmo que não se lembre de nada, não tenha medo, aqui é o seu lar!” Murong Ruoxue tentou mover os lábios para formar algum som, mas acabou por adormecer sem sucesso.

Quando Murong Ruoxue acordou novamente, já era fim de tarde, o céu escuro.

Viu, sobre a mesa, um mingau de aveia ainda fumegante, e ao lado da cama, Shangguan Qiongrong sorria calorosamente. O sono desapareceu de imediato, os olhos arregalaram-se em espanto, quase gritou. Aquele não era seu quarto!

Colocando a mão no peito para acalmar-se, lembrou-se dos acontecimentos de horas antes. Não fora um sonho.

“Irmãzinha acordou? Está com fome? Preparei um mingau de aveia delicioso.”

Shangguan Qiongrong apresentou-lhe o mingau com um sorriso radiante.

“Não consigo comer.”

Murong Ruoxue recusou com um gesto, pouco atraída pelo sabor adocicado.

“Tem certeza? Está realmente delicioso!”

A tigela balançava diante de Murong Ruoxue, espalhando o aroma apetitoso.

“Não quero!”

Engoliu em seco, mas de repente percebeu que estava faminta. Contudo, aquela coisa parecia pegajosa e doce, seria mesmo gostosa? Ela era muito exigente para comida.

Shangguan Qiongrong, percebendo sua hesitação, aumentou a aposta.

“Se comer, terá direito a uma história. Que tal?”

“Está bem.”

Murong Ruoxue fez uma careta, decidida a experimentar, aproveitando a deixa.

Mas, ao provar a primeira colherada, arrependeu-se do atraso; por que recusara aquele mingau tão saboroso? Doce na medida certa, suave e aveludado, era delicioso.

Com os agrados e incentivos de Shangguan Qiongrong, Murong Ruoxue terminou toda a tigela de mingau, e também ficou a par da situação atual, nada animadora.

Onde estava não constava em nenhum livro de história. E, considerando seu conhecimento precário do assunto, não sabia como situar-se.

Naquele mundo, quatro reinos dividiam as terras: ao leste, Reino de Dongqing; ao oeste, Reino de Xili; ao sul, Reino de Nancheng; e ao norte, Reino de Beiqing. Destes, Beiqing era o mais fraco.

Com um suspiro, Murong Ruoxue sentiu nova dor de cabeça. Sabia que não tinha sorte na vida!

“Xier, as guerras na fronteira estão intensas; seu pai se preocupa contigo, mas não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, não o culpe. Sua mãe vai hoje ao Templo Pu’en para cumprir uma promessa, e Rong’er ficará para lhe fazer companhia.”

Desde aquele dia no Salão Xifang, a Rainha Lanyang vinha diariamente ao Palácio Guanyue para conversar longamente com Murong Ruoxue sobre o passado.

Shui já lhe contara: a mudança de temperamento e a amnésia de Xier deviam-se a um grande choque. Portanto, qualquer estímulo agora seria perigoso. O melhor era conversar sobre coisas do cotidiano, tentando ajudar Xier a recuperar a memória.

Ruoxue respondeu com um leve som.

Após mais de dez dias de repouso, Shangguan Shui vinha poucas vezes, mas sempre ficava muito tempo, conversando e alegrando-a. Mesmo que as respostas de Ruoxue fossem curtas, ele não se importava.

Lanyang também cuidava dela com carinho: soubera que, em todas as refeições, era a própria rainha quem preparava os pratos.

Murong Ruoxue não era ingrata, nem fria de coração. Apenas não sabia expressar seus sentimentos, acostumada a guardar tudo para si.

“Descanse bem, Xier. Sua mãe já vai partir.”

Com carinho, Lanyang acariciou o rosto de Murong Ruoxue, sentindo uma ponta de tristeza inexplicável. Como sua filha, ainda tão jovem, podia ter mudado tanto?

“No caminho... cuide-se.”

A voz abafada saiu entrecortada.

Lanyang, já à porta, estremeceu ao ouvir aquelas palavras.

“Sim. Sua mãe cuidará de si. Você também precisa se recuperar logo.”

Os lábios de Lanyang tremeram, como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas ao fim, saiu derrotada. Um passo de cada vez, sem pressa. Sua filha haveria de se recuperar.