Talvez, eu te deva algo desde a minha vida passada. (I)

Neve Sobre a Cidade Mu Luo Xue, deslumbrante como uma cidade inteira 1444 palavras 2026-02-07 18:37:03

— Se não tens intenção alguma, por favor, não sejas tão gentil comigo. Meu coração é pequeno, se satisfaz facilmente, se ilude facilmente.

Reino Nanchen, Jardim Caiwei.

— Xi’er.

A porta foi aberta. A luz do sol inundou o recinto, ferindo os olhos de Mu Ruoxue.

— Vieste.

Mu Ruoxue semicerrava os olhos. Mu Qingge finalmente aparecera, mas já era tarde demais. Ele continuava tão belo e gracioso como sempre, e parecia estar bem. Será que sentia ao menos um pouco de culpa em relação a ela?

Assim que entrou, Mu Qingge notou o quanto Mu Ruoxue emagrecera. Apesar da compaixão, o que mais o indignava eram aqueles que haviam envenenado sua mente. Quanto mais pensava, mais furioso ficava, e resmungou, zangado:

— Maltrata-te assim… Pretendes acompanhá-los na morte?

— Meu corpo é problema meu. Não é preciso que o Príncipe Mu se preocupe.

O olhar gelado, o tom indiferente. Mu Ruoxue lançou-lhe um olhar oblíquo — tudo já estava decidido, o destino selado. Para que ele se dava ao trabalho desse fingido altruísmo?

— Por que me acusas desta forma? Queres que eu assista, impassível, a tua ruína?

— O que eu quiser fazer, diz respeito apenas a mim.

O tom quase suplicante de Mu Qingge apertou o coração de Mu Ruoxue. Mas seu olhar permanecia fixo num canto da parede; ela não tornou a encará-lo. Seu coração não era de pedra, não deixara de se comover, mas não queria mais trazer infortúnio irreparável por causa da sua insignificante existência.

— Sai um pouco, refresca a mente. Trancada tanto tempo, deves estar sufocada.

Mu Qingge sabia que Mu Ruoxue dificilmente o perdoaria, mas, mesmo assim, ao menos a preservara.

Ao ouvir isso, Mu Ruoxue soltou uma risada de escárnio:

— Sair? Para onde? Para contemplar um mar de chamas? Ou os cadáveres espalhados pelos campos?

Agora posso sair? Que ironia… Acabou o tempo de reclusão?

— Pequena, apenas utilizei teu plano inicial.

Mu Qingge segurou os ombros de Mu Ruoxue, fitando-a profundamente. Havia sinceridade e mágoa em seu olhar, forçando-a a não ter onde se esconder.

— Eu… não entendo o que queres dizer.

Mu Ruoxue, sem forças para resistir, virou o rosto à força. Não, ela não compreendia, não compreendia nada. Até um brinquedo teria mais alegria que ela.

— Ordenei que uma mulher te substituísse no retorno ao Leste de Qing. No caminho de volta, mandei que supostos assassinos de Xili matassem o grupo. Ninguém sobreviveu — narrou Mu Qingge, com serenidade. Sua intenção era sincera, mas não esperava que ela compreendesse.

— Acreditas mesmo que Nalan Shuyu irá cair nessa? Inteligente como é, não perceberá a verdade?

— Xi’er, não confias mesmo em mim. Passei quase quatro meses treinando aquela mulher — respondeu Mu Qingge, cheio de confiança. — Ela se assemelha a ti no corpo, ossos e temperamento. Só não tinha o rosto. Por isso, fui obrigado a desfigurar-lhe a face. Suspeitas surgiriam, mas não atrapalhariam o plano maior.

Os olhos de Mu Qingge brilhavam com um tom sanguíneo. Ele apenas se aproveitou da natureza humana: quando se acredita, nasce a dúvida; quando se duvida, busca-se acreditar. O coração oscila, sem nunca se firmar.

Nalan Shuyu, que a conhecia desde a infância, não escaparia a isso: duvidaria da morte de Xuexi, mas não encontraria falhas; acreditaria, mas relutaria em aceitar a verdade.

— Príncipe Mu, realmente foste astuto. Eu não te chego nem aos pés. No entanto, essas mãos manchadas de sangue não te assombram nas noites de insônia? — O olhar gélido de Mu Ruoxue finalmente compreendeu o extremo da natureza masculina.

— Prometi àquela mulher que garantiria o bem-estar de sua família nesta vida. Quanto ao medo, esqueci há muito o que isso significa.

Mu Ruoxue soltou uma leve gargalhada.

— Príncipe Mu, de fato, tem a consciência tranquila.

— A paz de espírito diz respeito apenas a mim. Não precisas preocupar-te, Xi’er. — Mu Qingge serviu licor de ameixa, e disse com calma: — Não tens curiosidade pelo desfecho?

Ao ouvi-lo, Mu Ruoxue cerrava as mãos suadas, mas respondeu com firmeza:

— Não. Não tenho curiosidade.

— Xi’er… Acaso temes?

Mu Qingge notou toda a palidez em seu rosto.